Amazônia e o feitiço do Rio Solimões

Manaus – A lancha embica num canto do rio, depois noutro e num terceiro, até o guia apontar o lugar: “Aqui tá bom”.

Escrito por: Mônica Manir5 min de leitura
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Porto de Manaus

Mônica Manir/Estadão

Manaus – A lancha embica num canto do rio, depois noutro e num terceiro, até o guia apontar o lugar: “Aqui tá bom”. De um tupperware transparente, Lau (o guia) começa a tirar nacos de carne fresca. Cada um de nós apresenta seu anzol, que ele alimenta sem miséria, filé após filé. A água barrenta, que impede de ver o fundo, aumenta a excitação. É uma mistura de querer e não querer. Quem vai atrair a primeira piranha para o barco?

Definitivamente, não é uma pescaria padrão. Em vez do silêncio absoluto, Lau pede que batamos com a vara na água, num chamado que ressoa sabe-se lá de que maneira 10 metros abaixo. De repente, uma fisgada, um puxão, o caniço envergando, puxa para lá, deixa correr, puxa para cá e… voilà! Lá estou eu com uma piranha bigoduda balançando ao léu!

Logo descubro que os bagres abundam na Amazônia, e que o fisgado por mim é um deles, gordo, bonito, oportunista. Achou a carne e entendeu que era para si. Lau tira o glutão do anzol e o devolve ao Solimões. Fico pensando se dali a dois segundos começaria o agito frenético das piranhas em volta do bagre levemente ferido. Nada. Marasmo geral.

Intuitivamente, mudo de lado na lancha. Algo me diz que as piranhas predadoras são de direita. Resgato a arte de pescar do meu avô, que levava a família à Billings nos tempos limpos da represa, e afundo na água a vara abastecida. Espero. Sinto que virá. Sei que virá. E vêm: cinco piranhas seguidas, devidamente dentadas e sem bigodes, uma prateada, duas vermelhas e duas acinzentadas, brilhantes como se revestidas de paetê. Mais gente da lancha vai se desvirginando nessa pesca esportiva, que devolve os peixes ao rio. É gente urbana como eu, que experimenta a Amazônia pela primeira vez e num esquema híbrido, de adrenalina e morosidade na medida.

Somos todos hóspedes do navio-hotel Iberostar, que proporciona, praticamente o ano inteiro, minicruzeiros pelo Solimões e pelo Rio Negro partindo do porto de Manaus. Nosso pacote durou de sexta a segunda-feira e incluiu, além da pesca de piranhas na região de Manaquiri, saídas para observar a flora e a fauna locais, um avanço de lancha por igarapés (cursos estreitos de água) e igapós (floresta inundada), caminhada por uma mata secundária, visita a uma lojinha flutuante e focagem de jacarés durante a noite. São passeios feitos de lancha, em geral pontuais, e sempre opcionais. Se o hóspede preferir, pode ficar o tempo todo no barco num esquema all-inclusive, curtindo os três dias nas piscinas do deque, donde pode apreciar um pôr do sol apoteótico ou a luta serpenteante entre as águas café-macchiato do Solimões e as café-preto do Rio Negro.

“É uma proposta confortável de viver a Amazônia”, resume Lau. Engenheiro florestal, ele se define um generalista. Enquanto outros guias do navio meio que se especializaram – um entende de pássaros da região, outro é o cara do mato -, Lau fala inglês, um pouco de macaquês, assobia para o gavião-panema, localiza formigas frenéticas, fascina jacarés com a lanterna, instiga a curiosidade dos estrangeiros e, em especial, desperta nos brasileiros o sentimento de “se orgulhem, porque isso é de vocês”.

EXPECTATIVA X REALIDADE
O guia explica que, às vezes, os viajantes criam uma expectativa oceânica diante de um ponto turístico e acabam se decepcionando se o quadro não cabe na moldura. No caso, alguns têm na mente uma ideia de Amazônia com anaconda e selva fechada, quando esses minicruzeiros apontam para um cenário mais “civilizado”, nem por isso menos surpreendente. Flagrar um barco com 15 cabeças de gado, encontrar outro atulhado de tucunarés e pacus, contar as igrejas pentecostais que cada vez pescam mais fiéis na região, observar um cipó engolir a árvore hospedeira, comprar uma pamonha fresquinha numa venda flutuante, fotografar uma moleca pendurada num açaizeiro, tudo é motivo de interesse, diz ele. “Eu sempre me emociono com isso.”

Mas Lau tem noção de que no quadro também cabem personagens mais radicais, como as piranhas e os jacarés. E é atrás dos répteis que nos deslocamos também no sábado, por volta das 21h30, em direção à mesma Manaquiri. Lanterna em riste, nosso guia se equilibra à frente da lancha e vai apontando, num dos igarapés, os muitos pares de olhos vermelhos em fila indiana. Alguns jacarés logo se escondem à mera percepção do motor. Outros ficam estatelados, magnetizados pela luz.

É um desses, do tipo jacaretinga, de porte menor, que Lau consegue tirar da água e mostrar para a audiência. Tem uns 2 metros e está seguro pelo pescoço e pelo rabo. Passamos a mão pela barriga lisa, pela cauda pré-histórica. Levemente, Lau puxa o papo do bicho, que abre a boca e revela uma cadeia de dentes afiados e nenhum sinal de língua. É a grande revelação da noite: jacaré não tem língua. Quer dizer, tem, mas presa no fundo da arcada.

Logo, o bicho é colocado de volta na água, para não desidratar. Percebo que Lau está tremendo. Não parece envergonhado disso. “A gente precisa ter respeito pelo animal”, diz. “Quando começa a perder o medo, começa a perder os dedos.” É com os dez intactos que esse moço nascido e criado na Amazônia acena para a criançada, que desce das palafitas para saudar os visitantes e bater uma bolinha redonda à margem do Solimões. Simples assim. Mágico assim.

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