Artista da região provoca e protesta com nudez em fotografias
Corpos em pelo, silhuetas nuas realçadas pela combinação luz e sombra, a nudez ora como vetor de sensualidade ora como linguagem de protesto. Esses são alguns dos recursos que a fotógrafa de Guaratinguetá Luiza Prado, usa para criar seus trabalhos. “Encaro o corpo como uma massa a ser trabalhada, minha visão é muito similar a de um escultor”, diz a artista ao Meon em entrevista por e-mail.










Corpos em pelo, silhuetas realçadas pela combinação de luz e sombra, a nudez ora como vetor de sensualidade ora como linguagem de crítica. Esses são alguns dos recursos que a fotógrafa de Guaratinguetá Luiza Prado usa para criar seus trabalhos.
“Encaro o corpo como uma massa a ser trabalhada, minha visão é muito similar a de um escultor”, diz a artista ao Meon em entrevista por e-mail.
O currículo de Luiza apresenta trabalhos que vão de ensaios em locações abandonadas – explorando a poesia e a sombra – à obras como “Gula”, que mostra a nudez feminina de uma forma mais perturbadora que sexy – a tela entrou para o acervo do MCB (Museu Contemporâneo da Bogotá), em 2012, na Colômbia.
Abaixo, veja galeria de fotos de Luiza e suas opiniões sobre a censura, o feminismo, o profano e o corpo nu como linguagem. “O nu consegue disseminar mensagens com mais agilidade e clareza, talvez por isso ele ainda seja tão censurado”, provoca.
Você é de Guaratinguetá. Quando e como começou a fotografar?
Isso, nasci em Guará e para chegar até a fotografia tracei um caminho esquizofrênico. Eu era desenhista, vivi aqui na região até meus 18 anos, idade que sai da casa dos meus pais para morar em São Paulo. No Vale do Paraíba também trabalhei como publicitária com formação em games em Taubaté. Trabalhei durante um bom tempo oscilando entre direção de arte, marketing, planejamento e pesquisa, mas minha intenção de mudar para São Paulo era estudar cinema.
Como eu sempre banquei minhas escolhas e fazer cinema não ia de encontro ao que minha família queria para mim – aquele velho ditado do ‘isso não dá dinheiro’ – a ferramenta mais próxima do cinema que encontrei foi a fotografia. Com muito custo adotei a fotografia e hoje a tenho como ferramenta. Ah, minha mãe também fotografava, de certo modo isso também me influenciou.
Como você define a sua fotografia?
A fotografia para mim é uma ferramenta e eu não me considero fotógrafa. Acho presunçoso falar que sou fotógrafa sendo que profissionais da área estudam muita técnica e conceito, trabalhando somente para isso. Perez Sola, minha orientadora e mestra em gravura (ex-gravurista de Tarsila do Amaral dentre outros grandes pintores brasileiros e latinos) disse que meu trabalho é expressionista. Então vou acreditar nela.
O que te atrai no registro do corpo da mulher?
Eu utilizo mulheres por conhecer mais mulheres que homens e por elas estarem mais dispostas a posar para mim. Encaro o corpo como uma massa a ser trabalhada, minha visão é muito similar a de um escultor. Essa massa esculpida pela luz cria uma presença própria que não é a minha e nem a sua.
Há muita nudez em suas fotos, mas em diferentes linguagens e resultados, como o contraste entre o sensual e o perturbador, por exemplo. Em que temas você usa a nudez?
Acho cabível em todos os temas. Acredito que o corpo nu esteja liberto das máscaras que criamos. A nudez já existe dentro dessas personas. O nu consegue disseminar mensagens com mais agilidade e clareza principalmente quando tem um propósito certo, talvez por isso ele ainda seja tão censurado. Porque despir um modelo carece do artista despir de muita coisa que está em si e também no outro, tornando tudo mais nítido.
Pude perceber alguma crítica à Igreja Católica, com menções ao profano. Como este tema entra na sua produção?
Eu tenho uma pesquisa bem aprofundada no ocultismo, paganismo e sincretismo. No geral, a alquimia. São assuntos que me atraem e me interessam muito. Muitas pessoas acham que critico o cristianismo com frequência e isso não é real. Em nenhum momento quero atacar a crença alheia. Eu apenas utilizo algo que já existia há muito mais tempo da fundação do cristianismo. Se existe algo profano nisso tudo, foi uma religião ter distorcido simbologias tão bonitas e ter demonizado muita coisa a seu favor, principalmente a imagem da mulher e da sexualidade.
Vi fotos em locações abandonadas do projeto “Tríplice”. A estação de trem em Cachoeira Paulista e a maternidade abandonada em São Bernardo do Campo. Como foi a escolha dessas locações e o que achou do resultado?
Eu sempre invadi lugares abandonados. Sempre me atraiu muito a energia que esses lugares me passam, então, se souber de algum lugar novo, me avise (risos). Aliás, estou com um projeto chamado ‘Reincarnate’ onde lugares abandonados contam suas histórias através dos corpos das pessoas.
A escritora Clarah Averbuck considera a sua arte feminista. Quais trabalhos seus você indicaria como feminista?
Talvez tenha feminismo em muita coisa que faço e eu não sei. Sinceramente, nunca me rotulei ou tentei criar algo feminista, mas a liberdade ou a busca dela já me enquadra como tal. Eu sempre narro em algumas fotos coisas minhas e de outras mulheres como na série ‘Tríplice’ que indaga sobre a sociedade patriarcal e a figura do feminino como trindade. Por essas simbologias, digo sobre muito do que nós mulheres passamos atualmente e quais são as nossas expectativas, o nosso interior.
Três de suas obras foram censuradas (“A Gula”, “Recrutadas Forças Maltradas” e “Animal”) em São Paulo. Por que você acha que isso aconteceu?
Desde que morava em Guará sofria censura com os meus desenhos por ter nudez, pelas críticas políticas ácidas e pelo erotismo. Pensava: “deve ser coisa de interior”. Mudei pra cá [São Paulo] e não mudou nada.
E “Gula” foi adquirida pelo Museu Contemporâneo de Bogotá. Como você vê esse contrassenso?
Todo meu contato com a Colômbia me fez crer que eles estão muito mais à frente de nós no quesito de inserção da arte dentro de uma sociedade machucada. Além de entrar para o acervo do MCB, a obra “Gula” realmente foi a que mais se destacou, saiu em jornais e em programas de TV. Tenho uma aposta pelo motivo do destaque. A Colômbia, como o Brasil, é um pais onde o índice de violência contra a mulher é grande. A “Gula” representa muitas coisas e muitas pessoas quando a veem, se deparam com a sexualidade corrompida da mulher nos dias de hoje.
Acredito que o artista possui uma responsabilidade social e participativa na História. É inevitável que ele não represente de alguma forma, através da sua criação, o que aflige a sociedade e o que o aflige. Mas, infelizmente, parte dos veículos artísticos no Brasil na sua maioria são amadores, aqui se acostumou com uma arte apenas estética e pouco preocupada com a pesquisa e há censura sim.
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