Belezas naufragadas: a rica história oculta de Ilhabela

Ao descer a Serra do Mar pela SP 99 (Rodovia dos Tamoios) e passar por Caraguatatuba e São Sebastião, se enxerga uma grande ilha tomada em sua grande parte, 83% mais precisamente, por mata atlântica preservada.

Escrito por: Thiago Fadini8 min de leitura
fundo_placeholder-023136

Ao descer a Serra do Mar pela SP 99 (Rodovia dos Tamoios) e passar por Caraguatatuba e São Sebastião, se enxerga uma grande ilha tomada em sua grande parte, 83% mais precisamente, por mata atlântica preservada. A proximidade da ilha pela travessia de balsa no canal de São Sebastião é sentida na pele com as “boas-vindas” dadas pelos simulídeos, populares borrachudos. Isso vira detalhe com a imensidão de verde que se aprecia ainda do mar.

As belezas naturais de Ilhabela, suas praias, as mais de 300 cachoeiras e sete picos, a vocação para os esportes náuticos e o título de “Capital da Vela” já são conhecidos por grande parte da população da RMVale e de diversas regiões do país. O que poderia então tornar a também conhecida Ilha de São Sebastião ainda mais especial? Para entender é preciso olhar um pouco mais para baixo, ou melhor, mais a fundo, lá para o mar.

Os 128 quilômetros de costa da ilha principal são rodeados pelas histórias de 15 navios naufragados, um avião abatido na Ilha de Búzios e outras quatro embarcações encalhadas. São contos que ajudam a formar toda a trajetória e cultura do arquipélago. “É algo que mexe com as pessoas, faz parte da própria história da cidade, que já foi uma cidade agrícola, teve engenhos de pinga, além de plantações de banana e café”, falou o prefeito Antonio Luiz Colucci.

É possível fazer uma visita subaquática a todos os naufrágios, no entanto, o privilégio exige a prática do mergulho daqueles que se interessam. “As escolas (de mergulho) só levam em alguns mais rasos e com visibilidade melhor para os mergulhadores apreciarem o que resta de um naufrágio e a vida marinha. Estes estão em torno de seis. Os outros naufrágios estão em lugares mais complicados, mar aberto, muita correnteza, muita suspensão, aí exige do mergulhador um preparo mais especial”, disse Jeannis Michail Platon, 67, grego, ex-mergulhador e fundador do Museu Náutico de Ilhabela.

Se o aventureiro mesmo assim desejar ir até os pontos mais distantes, deve fazer um dos cursos em naufrágios oferecidos pelas escolas da ilha.

Mas qual seria o motivo do “Triângulo das Bermudas do Brasil” ou do “Caribe Brasileiro” ser tão letal às embarcações até 23 anos atrás, ano do último naufrágio documentado? A explicação está há milhões de anos, na formação do acidente geográfico. “O magma de Ilhabela tem magnetita, um minério que faz desviar as bússolas. Tem região que essa concentração é de 20, 30%. Isso foi descoberto só agora em 1960 pela Marinha. Dizem os antigos que tem mais de 100 naufrágios em Ilhabela e ainda tem outros naufrágios para se descobrir”, explicou Jeannis, que está no Brasil há 55 anos.

Hoje, com toda a tecnologia de radares e localização via satélite o risco de um acidente do tipo é praticamente zero. Mas no passado não era assim. O obstáculo natural criou verdadeiros cemitérios náuticos que são rodeados por diversas lendas.

Príncipe de Astúrias
O mais famoso dos casos é o do paquete espanhol Príncipe de Astúrias, que partiu de Barcelona no dia 17 de fevereiro de 1916 com destino à capital argentina Buenos Aires. De acordo com o livro “Ilhabela seus enigmas”, escrito por Jeannis Platon, as causas do acidente ainda são desconhecidas. É até hoje a maior tragédia marítima registrada no Brasil, apelidada de “Titanic brasileiro”.

A história que se tem registros é a de que na madrugada de 5 de março daquele ano chovia forte próximo ao litoral norte paulista e que o Capitão José Lotina não conseguia enxergar praticamente nada devido à neblina no local. Após um raio iluminar momentaneamente o céu, avistou as pedras da Ponta da Pirabura, Já era tarde demais. Entre a carga estavam 40 milhões de libras esterlinas em ouro devidas pelo governo inglês à Argentina pelo fornecimento de alimentos durante a guerra.

A bordo, estavam registradas 654 pessoas, sendo 193 tripulantes. Há versões que dizem haver mais de 800 imigrantes clandestinos nos porões, fugidos da Primeira Guerra Mundial. Pela contagem oficial, 477 pessoas morreram. A maioria dos sobreviventes do acontecimento naquela noite foi salva pelo vapor francês Vega que tinha como destino o Porto de Santos.

T – 6D Texan
Não é só de embarcações que o cemitério oceânico que envolve Ilhabela se abastece. Entre as relíquias está uma aeronave de treinamento brasileira, construída pela North American Aviation, Inc – Estados Unidos, que tinha como destino a Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. A raridade, hoje se encontra submersa a uma profundidade de 26 metros e a mais ou menos 300 metros da Ilha de Búzios, que faz parte do arquipélago.

O motivo da queda, ocorrida em 17 de outubro de 1961, foi o estouro do motor. O piloto Heinz Obrecht e o Tenente Braga, ocupantes do avião, conseguiram pousar no mar, próximo à ilha, e foram resgatados por pescadores. “Você percebe traços naquela população da Ilha de Búzios, não traços latinos, mas traços holandeses”, conta Antonio Luiz Colucci, prefeito de Ilhabela. O T – 6D Texan foi descoberto em 1986 pela equipe de Jeannis Platon.

Victória
“Ilhabela, às vezes, perdoa os incautos comandantes. Usa seu magnetismo, mas se arrepende. Prende os navios, assusta tripulantes e passageiros, mas, depois, complacente, livra as embarcações”. É assim que Jeannis Planton define os casos de encalhe de navios na ilha.

O primeiro que se tem registro é o do vapor de primeira classe brasileiro Victória. Sua história, que beirou a tragédia, aconteceu em 1905. A embarcação prestava serviços de cabotagem no litoral paulista e pertencia ao Lloyd Brasileiro de Navegação. O encalhe ocorreu na entrada sul do Canal de São Sebastião, na Ponta do Araçá, próximo ao Farol do Leque.

Histórias e Estórias
Obviamente em um local com tantas histórias há também inúmeras lendas que vão desde “o tapa que São Pedro deu no peixe Linguado, dando origem à Lenda do Peixe Tapa”, até a vocação de Ilhabela para atrair OVNIS, com relatos devidamente embasados no característico magnetismo da ilha por parte de moradores e de ufólogos. Outras lendas foram catalogadas ao longo de anos de pesquisa e podem ser conferidas no Museu Náutico de Ilhabela.

Além de estórias, o arquipélago guarda na própria essência o passado marcado pela presença de famosos piratas. São histórias de corsários como os franceses René Duguay-Trouin e Borges, que teriam habitado as ruínas da Fazenda da Toca. Além deles, os ingleses causaram alvoroço no Litoral Norte com Edward Fontan, que teria perseguido o Padre José de Anchieta, este refugiado na Ilha de São Sebastião. E claro, não poderia faltar o grande Thomas Cavendish, que escolheu o Saco do Sombrio como esconderijo à espera por navios portugueses e espanhóis que estivessem retornando à Europa. Acredita-se que Cavendish saqueava com o consentimento da Coroa Britânica e era tratado como herói por ser o segundo inglês da história navegar ao redor do mundo.

Mistérios ocultos
Mesmo com tantas descobertas, há quem diga que nem metade dos naufrágios ilhabelenses foi encontrada. Na boca de alguns moradores mais antigos, correm versões que mais de 100 casos ainda estão ocultos, submersos.

Se realmente existem, só o tempo e novas expedições dirão. “Tem muita coisa pra ser explorada. É que para ir a essa caça é preciso tempo e muito dinheiro. Você vê as firmas pelo mundo que tem grandes navios e equipamentos. Aqui no Brasil é muito empírico ainda. Tem o (naufrágio) de Galeões e outros aqui que ainda não foram explorados. Um naufrágio é uma cápsula do tempo, porque você vai mexendo nas ferragens e vai descobrindo coisas novas. Aqui ainda é tudo amador”, comenta Jeannis Michail Platon.

Novas descobertas
Diversos sítios arqueológicos marinhos pelo Caribe na América Central, no Oceano Índico e na Europa recebem investimento em pesquisa por parte de órgãos governamentais. De acordo com Jeannis Platon, no Brasil, a busca por esse apoio é árdua e só é possível com o empurrão dos poderes municipais e o “lobby” para que autorizações da Marinha e do IPHAN (Instituo do Patrimônio Históricoe Artístico Nacional) sejam concedidas e as explorações sejam realizadas. “A administração municipal é a primeira a ajudar. Hoje existe o Ibram (Instituto Brasileiro de Museus) e o SISEM (Sistema Estadual de Museus). Eles têm dinheiro para investir em pesquisa, mas pra você conseguir apoio deles, só através da prefeitura”, justifica.

No início de fevereiro, uma equipe do canal Discovery Channel chegou à Ilhabela para a produção de um documentário especial sobre o arquipélago. Entre os membros da equipe está o Capitão Keith Plaskett, 65, presidente da Associação Mares Del Sur, que realiza estudos em naufrágios na América do Sul e nos Estados Unidos.

Para ele, a ilha é privilegiada por ter ao seu redor tantas histórias para contar além das belezas naturais. Tudo é uma motivação para qualquer amante de história. “Aventura, cara. Tudo é uma caçada. Assim que você encontra um sítio arqueológico você pode encontrar de tudo. De roupas de couro até ossos humanos. Esses navios, às vezes, têm 200, às vezes 300 anos. Quando você encontra um vaso, um talher, qualquer item desse, você está tocando a história, você está vendo aquilo. É realmente uma caçada ao tesouro”, contou empolgado o Capitão, ex-mergulhador da Marinha americana.

“Isso é um achado histórico que não é em qualquer outra ilha que você encontra. Acho que Ilhabela tem que se vangloriar e preservar esses naufrágios, trabalhar em cima deles. Tem que mapear melhor, investir mais em pesquisas, tem muita coisa ainda que podia ser colocado em museus. Tem um trabalho enorme a fazer”, concluiu o pesquisador Jeannis Michail Platon.

Tags:CulturaPublicado em: