Imagens que ninguém vê: as fotos nos ônibus de São José dos Campos

A Semana de Fotografia da FCCR (Fundação Cultural de Cassiano Ricardo), que recebeu exposições, palestras e debates em São José dos Campos, acabou no último dia 19, mas alguns de seus trabalhos continuam rodando pelas ruas da cidade.

Escrito por: Do Meon3 min de leitura
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Exposição itinerante faz circular 15 ônibus com fotos

Flávio Pereira/Meon

A Semana de Fotografia da FCCR (Fundação Cultural de Cassiano Ricardo), que recebeu exposições, palestras e debates em São José dos Campos, acabou no último dia 19, mas alguns de seus trabalhos continuam rodando pelas ruas da cidade.

O projeto Galeria Sobre Rodas expõe 15 fotografias, cada uma na traseira de um ônibus, até o dia 30 de agosto. Participam os fotógrafos Beatriz Lefèvre, Cátia Leandro, Douglas Costa, Marco Aurélio Olímpio e Rique Fróes, cada um com uma série de três fotos expostas nos ônibus das empresas Maringá (verde) e Julio Simões (laranja). Em dimensão, cada obra tem quase dois metros quadrados.

Motoristas, passageiros e pedestres podem ver o rosto de um cavalo em close, retratos de mendigos, trajetos de concreto e fotos aéreas da cidade, algumas coloridas e outras em preto e branco. Mas será que quem pega ônibus diariamente vê essa galeria sobre rodas?

A reportagem do Meon foi ao Terminal Central de São José dos Campos por volta das 12h para saber se os passageiros apreciam as imagens.

“Ah, eu acho que eu vi sim, são bem grandes, com umas letras coloridas?”, pergunta Maria Joana, 40 anos. Com a resposta negativa, a dona de casa dá um sorriso e diz: “então não vi nada”.

A maioria dos passageiros que espera os ônibus sequer ergue a cabeça. Senhoras segurando suas sacolas olham em pontos fixos, para o nada. Seis adolescentes esperam na fila da condução e têm a cabeça virada para baixo, mexendo em seus smartphones. “Não reparei em nada não”, dizem dois deles.

A professora de ensino fundamental Maria Aparecida, 40 anos, achou “muito bonita” a foto aérea do viaduto, mas não soube falar o porquê. E opina: “Por fora é bonito, mas tampa a visão de quem está por dentro do ônibus. Eu prefiro sem nada”.

“Eu vi sim”, conta a cobradora de ônibus do Adriana Aparecida, 42 anos. “Era alguma coisa em preto e branco”. Mas, gostou? “Ah, não sei, na nossa correria não dá para pensar muito nisso”, fala.

Fora do lugar-comum
A curadora da Semana de Fotografia, Letícia Kamada, vê com naturalidade a pouca atenção do público aos trabalhos. “Esse é um primeiro passo. A gente vive num mundo de imagens, mas são poucas as pessoas que conseguem lê-las como uma narrativa. A intenção é formar público para que isso se popularize nas próximas edições”, afirma.

A própria Letícia, no entanto, admite que viu apenas um ônibus com uma foto do projeto e diz que a utilização de 15 ônibus é realmente pouco para uma cidade como São José dos Campos, que tem uma frota de 360 carros de transporte público.

“A gente tenta, pelo menos, tirar a fotografia do lugar-comum, trazer as obras para fora da galeria, que é um ambiente muito elitizado. É uma oportunidade da pessoa ver uma exposição muitas vezes sem perceber”.

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