Gorak Shep, uma minicidade entre picos nevados
Sol, céu azul espesso e neve parecem anular o frio com sua beleza. Foram poucos passos desde Lobuche até quebrar a simbólica barreira dos 5 mil metros. O vale fica cada vez mais estreito e as montanhas, mais altas. A chegada para o almoço em Gorak Shep (5.136m) é reconfortante, após transpassar riachos com finas e escorregadias camadas de gelo.


Chega-se a Gorak Shep após transpassar riachos e camadas de gelo
Divulgação/Creative Commons/Chriscom
Sol, céu azul espesso e neve parecem anular o frio com sua beleza. Foram poucos passos desde Lobuche até quebrar a simbólica barreira dos 5 mil metros. O vale fica cada vez mais estreito e as montanhas, mais altas. A chegada para o almoço em Gorak Shep (5.136m) é reconfortante, após transpassar riachos com finas e escorregadias camadas de gelo.
Ao longe, lááááá no fundo do vale, pequeninos pontos alaranjados encravados num mar de pedras de todos os tamanhos. “São as barracas do Acampamento-Base”, anunciou o guia Eduardo Sartor. Sentimentos controversos. Pensei: “Que símbolo da ganância humana! Por que passar dois meses vivendo neste lugar apenas para chegar ao cume da montanha mais alta do mundo?”.
Depois de oito dias a pé, alcançamos o marco de entrada do Acampamento-Base: um monte de pedras empilhadas envoltas em bandeirinhas de oração. Do nada, senti o despertar. Os grupos de trekking normalmente param ali e pernoitam em Gorak Shep. A nossa sorte era que dois membros da equipe da Grade 6 faziam parte de uma expedição rumo ao cume do Everest. Dormiríamos ali.
Entre pedras e blocos de gelo azulados de todos os formatos, milimetricamente dispostos, se colocam os acampamentos, pequenas vilas com identidade visual próprias e uma lógica comum. Cada uma com suas barracas-dormitório, refeitório, comunicação, banheiro e até chuveiro, com bacias de água quente. Nosso lar agora era a aldeia no meio de um coliseu de paredões e picos nevados de mais de seis mil metros: Khumbutse (6.639 m), Pumo Ri (7.165 m), Nuptse (7.864 m), Lhotse (8.516 m). Ironia: o Everest não é visível desde o acampamento-base.
Durante o dia, uma caminhada no Glaciar do Khumbu deu uma mínima ideia da guerra que é subir a montanha. Mas também encantou, com o gelo revelando improváveis formas de chantilly e suspiro, e o sol que realçava sombras e texturas. Em quase 48 horas ali, presenciei seis avalanches, avaliadas como normais pelos guias. “São blocos de gelo pequenos, do tamanho de uma geladeira”, me disse um dos sherpas.
A espaçosa barraca amarela, com dois colchões de espuma e altura suficiente para ficar em pé lá dentro, foi uma das responsáveis pelas duas excelentes noites passadas ali. Sono profundo a 5.350 metros de altitude. O saco de dormir aguentou o tranco quando a temperatura baixou a 15 graus negativos. Além das três camadas de roupa e do casaco de pluma, tinha como companheiro o cantil com água quente para me reconfortar.
À noite, a lua cheia iluminava o vale tornando a lanterna desnecessária. Nascia entre o Nupste, que impera neste horizonte, e a Cascata de Gelo do Khumbu, ponto de partida para escalar o Everest, e parte mais perigosa do percurso. Não cansava de admirar. Só ia dormir quando não sentia a ponta do nariz. Havia chegado ao sonho.
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