Os perigos do cigarro até para quem não fuma

De acordo com o estudo, as crianças são as maiores vítimas desses resíduos porque engatinham e tocam em uma grande quantidade de superfícies poluídas. Com isso, acabam ingerindo cerca de 0,25g de poeira (muitas vezes contaminada) por dia, o dobro de um adulto. Não é preciso fumar um cigarro ou inalar a fumaça dele para sofrer com os malefícios do tabagismo. Um outro tipo de contaminação, chamada fumo de terceira mão (FTM), não vem do ar ou das tragadas. Invisível, a ameaça esconde-se em todos os cantos da casa habitada por fumantes: mobília, cortinas, tapetes e parede. Nenhuma superfície ou espaço fechado onde há exposição crônica ao fumo está livre dos resíduos perigosos. As pessoas que vivem neles muito menos. Evidências apresentadas no Congresso da Sociedade Americana de Química mostram que, além do mau cheiro, as substâncias encontradas no FTM provocam alterações no DNA humano, favorecendo o desenvolvimento de cânceres.

Escrito por: Gilmar Torquato4 min de leitura
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Pesquisa sobre perigos do cigarro

Divulgação/LerSaúde

De acordo com o estudo, as crianças são as maiores vítimas desses resíduos porque engatinham e tocam em uma grande quantidade de superfícies poluídas. Com isso, acabam ingerindo cerca de 0,25g de poeira (muitas vezes contaminada) por dia, o dobro de um adulto.

Não é preciso fumar um cigarro ou inalar a fumaça dele para sofrer com os malefícios do tabagismo. Um outro tipo de contaminação, chamada fumo de terceira mão (FTM), não vem do ar ou das tragadas. Invisível, a ameaça esconde-se em todos os cantos da casa habitada por fumantes: mobília, cortinas, tapetes e parede.

Nenhuma superfície ou espaço fechado onde há exposição crônica ao fumo está livre dos resíduos perigosos. As pessoas que vivem neles muito menos. Evidências apresentadas no Congresso da Sociedade Americana de Química mostram que, além do mau cheiro, as substâncias encontradas no FTM provocam alterações no DNA humano, favorecendo o desenvolvimento de cânceres.

A lista de substâncias nocivas é longa. Há o ácido cianídrico, usado em armas químicas; o butano, presente no fluido de isqueiros; o tuolento, encontrado em solventes de tintas. Isso sem falar no arsênico, no chumbo, no monóxido de carbono e no polônio-210, um cancerígeno altamente radioativo. “As que estão no período pré-escolar são especialmente afetadas por vários fatores. Passam mais tempo presentes no ambiente domiciliar, têm frequência respiratória elevada e põem a mão na boca após tocar superfícies contaminadas, como sofás, tapetes, lençóis e brinquedos espalhados pelo chão”, explica o pneumologista Alberto Araujo, membro da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e do Núcleo de Estudos e Tratamento do Tabagismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Araujo explica que o risco do tabagismo terciário é medido pelo nível de cotinina — metabólito da nicotina e um dos marcadores utilizados para medir a exposição ambiental ao fumo — na urina de crianças que moram com fumantes. “Evidências científicas mostram que, mesmo com baixos níveis de marcadores de fumaça do tabaco, há associação com deficits cognitivos em crianças (que vivem nesses ambientes), como dificuldade do desenvolvimento neuropsicomotor e de aprendizado na escola”, diz.

Os cigarros industrializados são mais perigosos, representam a maior fonte de resíduos, gases e toxinas, em especial as nitrosaminas, que integram a lista dos mais potentes carcinógenos, os causadores diretos ou indiretos de cânceres. “As outras formas de tabaco, como o narguilé, o charuto, o cachimbo tradicional e o cigarro eletrônico, também liberam substâncias no ambiente. Guimbas, bitucas e cinzeiros no ambiente domiciliar também expõem as crianças, que podem tentar imitar os adultos e experimentar ou manipular esses produtos”, aponta Araujo.

Efeitos a longo prazo
Algumas reações químicas deixam os resíduos dos cigarros fixados em paredes, móveis e cortinas ainda mais nocivos. O contato das nitrosanimas com o ácido estomacal, por exemplo, pode gerar câncer no estômago e nos pulmões. Tudo isso em longo prazo, frisa Rodrigo Medeiros, oncologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília. “Essas doenças dificilmente se desenvolvem em idades precoces porque o processo leva anos, o que é uma das características da exposição crônica. Não é que a criança exposta uma vez vai ter problemas ainda jovens, mas o contato anos a fio com esses químicos favorece o aparecimento de tumores na vida adulta”, observa.

Medeiros explica que esse efeito é bastante comum no câncer de pulmão. Segundo ele, para cada 10 pacientes, um ou dois nunca fumou. “Essa teoria afirma que a doença é resultado do tabagismo passivo ou terciário”, diz, ressaltando, em seguida, que o acúmulo das substâncias tóxicas no organismo de crianças é indicador também de possíveis tumores no esôfago e no estômago na idade adulta.

Embora muitos locais públicos proíbam o fumo, Bo Hang, líder do estudo divulgado no Congresso da Sociedade Americana de Química, levanta uma preocupação: o maior perigo está em apartamentos alugados, quartos de hotéis e residências privadas. Até agora, a melhor maneira de se livrar do fumo terciário é a reforma da casa e renovação de mobiliária e objetos que o fumante teve contato. As tradicionais faxinas, com uso de materiais de limpeza ou aspiradores, não são eficazes na remoção desses resíduos.

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