Overdose de cartões-postais

A zona sul é onde se concentram as atrações que encantam estrangeiros, atraem brasileiros e enchem de orgulho os cariocas. As ondas mais famosas estão lá, na espuma do mar e no calçadão de pedras portuguesas de Copacabana, local do icônico hotel Copacabana Palace e palco de disputas durante os Jogos Olímpicos. Em Ipanema, o […]

Escrito por: Bruna Toni, Nathalia Molina, Mônica Nobrega e Fernando Victorino5 min de leitura
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20150805_um ano para olimpiadas rio de janeiro_(Reprodução/Facebook Rio 2016)

A zona sul é onde se concentram as atrações que encantam estrangeiros, atraem brasileiros e enchem de orgulho os cariocas. As ondas mais famosas estão lá, na espuma do mar e no calçadão de pedras portuguesas de Copacabana, local do icônico hotel Copacabana Palace e palco de disputas durante os Jogos Olímpicos.

Em Ipanema, o esporte é ditar tendência, nas areias, butiques, restaurantes, galerias de arte e hotéis. Lá, o Fasano mantém seu endereço no Rio desde 2007, colado ao Arpoador. Daquele ponto da orla, vê-se o pôr do sol mais famoso da cidade, digno de aplauso, com o entardecer atrás do Morro Dois Irmãos, no Leblon. Nesse bairro vizinho, assiste-se ao Rio de horário nobre. Se frescobol e altinho fossem modalidades olímpicas, a região seria fonte inesgotável de talentos.

Ali se tem total contato com a natureza, como no Jardim Botânico, um dos pontos visíveis do alto do Corcovado. É aos pés do Cristo Redentor que se compreende a geografia do Rio e seus contrastes. E também de onde se debruça sobre outro cartão-postal: o Pão de Açúcar, cujos bondinhos transportaram 42 milhões de pessoas em 104 anos.

Durante a Olimpíada, Alemanha, Dinamarca, Suíça, França e Holanda vão montar suas casas na zona sul. Abertas ao público e repletas de atrações – gratuitas e pagas.

Deodoro e Zona Norte – Samba, suor e torcida
Na terra do samba, a distância entre Clara Nunes e Silas de Oliveira não passa de quatro quilômetros. Essa terra atende pelo nome de zona norte carioca, onde até os logradouros fazem menção a ícones do ritmo que, em 2016, completa 100 anos.

Ali, a oposição à zona sul não é apenas cardeal. É também histórica, cultural e econômica. Distante do centro e pouco vista pelo poder público durante anos, a região nunca teve, com exceção do Maracanã, pontos turísticos de fama midiática.

Mas, como injustiças são passíveis de correção, talvez seja essa a hora e a vez de assumir que, para se conhecer realmente a essência do carioca – e duas das grandes paixões brasileiras -, nada melhor do que ir até ela.

Primeiro pelo esporte, já que tanto o Maracanã (e o Maracanãzinho) quanto o Engenhão ficam nessa parte da cidade. Completamente reformados nos últimos anos, receberão o futebol. Pertinho deles está o Complexo Esportivo de Deodoro – que, apesar de ser na zona oeste, é 27 quilômetros mais próximo de Madureira do que da Barra.

Segundo, pela música, que vibra nos pavilhões de suas escolas de samba e que, nos Jogos, ganhará mais um palco com a abertura do Boulevard Olímpico do Parque Madureira.

Mais próxima e ainda mais disputada
Sentados em frente à Praça Desembargador Araújo Jorge, no bairro nobre do Joá, ouvimos atentos as infinitas histórias dos funcionários do tradicional Bar do Oswaldo. O assunto, para além do desempenho do Flamengo naquela rodada do Brasileirão (era 2015), tratava de uma Barra da Tijuca sem shoppings centers luxuosos, ônibus velozes e metrô para chamar de seu.

Difícil de imaginar? Pois quando Oswaldo Cardozo abriu as portas do mais famoso bar de batidas da zona oeste, há 70 anos, a cara da região era exatamente assim, uma vasta planície de areia, sem condomínios ou empreendimentos de qualquer tipo.

Morto em 2000, Oswaldo não teve a chance de ver a Barra (e seus arredores) presenciar a maior transformação de sua história, fruto do projeto que a elegeu sede do Parque Olímpico, onde serão disputadas 25 modalidades, a maioria de peso, como natação, basquete e judô.

Com a chegada dos ônibus BRT e da linha 4 do metrô, prevista para começar a circular no trecho olímpico em 1.º de agosto, a Barra ganhou a sua melhor chance de mostrar a que veio, inclusive aos próprios cariocas, já que de natureza e de arte ela parece entender tanto quanto entende de compras e baladas caras.

Reduto da boemia
“Mas o que significa ‘malandro’, afinal?”, perguntou um árbitro de futebol norte-americano ao ver a Acadêmicos do Salgueiro desfilar pela Marquês de Sapucaí em fevereiro deste ano com o enredo A ópera dos malandros, uma homenagem e referência à obra de Chico Buarque.

Ensaiamos respostas variadas na tentativa de traduzir uma palavra que, como saudade, não tem definição. Quando vimos, lá estávamos nós, falando dessa coisa tão brasileira de ser boêmio. Dessa coisa tão carioca chamada região da Lapa, da Glória e de Santa Teresa.

Apesar de não sediar competições, com exceção da Glória, casa das regatas de vela, seria impossível não falar do lugar que reúne clássicos como os Arcos, o Bondinho, a Rua do Lavradio.

Mas a graça de andar por suas vias, becos e ladeiras, sobretudo à noite, está simplesmente no fato de que cada uma de suas esquinas parece sempre oferecer uma opção de bar pé sujo ou sofisticado, uma loja de antiguidade, uma casa de shows descolada dentro de casarios antigos.

Nenhum dicionário explicaria melhor ao gringo, concluímos, os versos salgueirenses: “O samba vadio, meu povo a cantar, dia a dia, bar em bar. Eis minha filosofia, nos braços da boemia, me deixo levar.”

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