Subida ao ponto mais alto encanta pela flora

Flora e fauna diversa acompanham as trilhas, como as pegadas de animais

Escrito por: Tiago Queiroz4 min de leitura
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Um parque bonito de alto a baixo

Reprodução/Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo

Quem procura caminhadas intensas, com uma imersão maior na natureza e nos mistérios da região, precisa agendar com alguns dias de antecedência uma visita à Chapada, a porção mais alta do parque. Lá se localiza a nascente do Rio Preto, o maior tesouro do lugar. São cerca de 22 quilômetros só de ida, a maior parte deles de subida. Pela distância não é possível fazer um bate-volta. Pode-se dormir na casa de Mozart, um antigo chapadeiro, ou levar barracas.

Depois de ter passado alguns dias na parte baixa do parque, a Chapada tinha alcançado contornos míticos para mim. São poucos os visitantes que a conhecem, mas os relatos eram sempre de um lugar que valia cada segundo. Agendei a subida com o guia José Hermínio Inácio, de 50 anos, há 17 trabalhando no parque. Deco, como é conhecido, foi meu companheiro e professor em várias caminhadas. Mateiro dos bons, já trabalhou como madeireiro e hoje é defensor do parque. É símbolo da mudança de atitudes e consciência do povo de São Gonçalo.

Mesmo com uma fauna diversa – nas trilhas há pegadas de lobo-guará, paca, gato-palheiro, jaguatirica, tatu-canastra e onça-parda e pintada -, o que fala ao coração de Deco é a botânica. De gostar do tema e andar com especialistas, ganhou livros e estudou. Apesar de ter cursado só o ensino primário, sabe nomes científicos das principais espécies do cerrado mineiro.

Saímos às cinco e meia da manhã, rumo ao topo do Morro Dois Irmãos. Foi emocionante perceber no percurso as mudanças na flora. O cerrado com suas árvores como o pau-pereira, a candeia, a cagaita, a gabiroba, o mandapussá e tantas outras são substituídas pouco a pouco pelas gramíneas dos campos rupestres e campos de altitude. A cada estação, a cada dia, a natureza presenteia com o desabrochar de uma flor diferente.

As lapas também são deleite nesse trajeto; espécies de grutas ou cavernas, as formações rochosas foram generosas com gerações passadas. Passamos pela Lapa da Santa, Lapa do Tropeiro e Lapa do Filó. Na década de 70, no auge do período de coleta de sempre-vivas, usadas na produção de artesanato, a Chapada chegava a ter quase duzentas famílias arranchadas debaixo delas. A Lapa do Filó, a maior, servia de abrigo para essas pessoas que faziam até cômodos, com divisórias de madeira. Nas noites de lua cheia, animados forrós iluminados com alguns poucos lampiões, eram promovidos ao redor desses salões naturais.

Passando as lapas, o espetáculo das milhares de sempre-vivas no campo, cintilando como estrelas no céu em meio a flores azuis e gramíneas dos mais variados matizes de verde. Um quadro impressionista no cerrado.

Durante toda a caminhada observa-se a imponência do Dois Irmãos. A montanha é a segunda mais alta da Serra do Espinhaço, perdendo apenas para o Pico do Itambé, com 2.002 metros. Saindo bem cedo da parte baixa do parque, entre cinco e meia e seis da manhã é possível completar o dia chegando ao seu cume. Tivemos a sorte de fazer a maior parte do caminho com o tempo encoberto. Segundo Deco, se o dia estivesse ensolarado, seria muito mais cansativo.

Quando chegamos ao cume do Dois Irmãos, o sol nos brindou com sua presença inesperada. Após um dia intenso, alguns tombos, raladas e descobertas, estava faminto. O arroz, feijão, linguiça frita e salada preparado com esmero pelos guias tiveram um sabor ímpar. Ouvindo suas histórias enquanto anoitecia, os últimos raios solares a iluminar a chapada, tive a certeza de que homens, árvores e água conservam uma pureza e uma força especial nesse canto escondido no início da Estrada Real.

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