Todo dia era dia de Índio…

No sábado passado, dia 19 de abril, foi o dia do Índio, pouco lembrado assim como toda cultural indígena. Criado em 1943 pelo presidente Getúlio Vargas, a data foi escolhida devido ao Primeiro Congresso Indigenista Interamericano realizado três anos antes no México, que reuniu lideranças indígenas de todas as Américas e resultou na criação do […]

Escrito por: Meon Redação3 min de leitura
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No sábado passado, dia 19 de abril, foi o dia do Índio, pouco lembrado assim como toda cultural indígena. Criado em 1943 pelo presidente Getúlio Vargas, a data foi escolhida devido ao Primeiro Congresso Indigenista Interamericano realizado três anos antes no México, que reuniu lideranças indígenas de todas as Américas e resultou na criação do Instituto Indigenista Interamericano que visava zelar pelos direitos de todas as etnias. Direitos que no Brasil infelizmente sabemos que são totalmente ignorados, prevalecendo os interesses de grandes empresas e latifundiários, justificados por um suposto desenvolvimento.

Após séculos de submissão provavelmente não será mais possível uma restauração completa destas culturas milenares, mas ainda podemos oferecer o que os indígenas esperam há tempos, respeito. Um ótimo caminho para isso é reconhecermos os traços indígenas presentes na nossa cultura até os dias de hoje, e são muitos.

Em grande parte da minha carreira como cozinheiro segui, e de certa forma ainda sigo, o estilo europeu de gastronomia, inspirado nos valores italianos, que considero o berço da minha cozinha. Porém há poucos anos tive a oportunidade de conhecer o Peru, certamente um dos países que tem os traços ameríndios originais mais preservados em sua essência atual. Pude sentir como a tradição Quechua resiste com grande força dentro da população, especialmente em Cuzco, que foi a capital do império Inka, pode-se notar um grande conhecimento da história de seu povo e da sua cultura, todos conhecem e falam com orgulho de seus produtos nacionais como as centenas de espécies de batatas e milhos, da quinoa, maca, yacon, chicha, produtos verdadeiramente americanos, orgulho este sintetizado no trabalho do chef Gastón Acurio, celebridade gastronômica que em seus restaurantes espalhados pelo mundo faz questão de divulgar a cozinha peruana.

A partir dessa viagem pude me compreender melhor como latino-americano e refletir sobre a nossa cultura e a rica gastronomia que a compõe. Possuímos uma formação distinta da peruana, com maior miscigenação e contrastes entre as várias regiões brasileiras, mas nossos itens nativos originais ainda são pouco valorizados e reconhecidos. Talvez ainda traços de uma recente colonização, vivemos esperando que as direções das tendências europeias ditem o estilo que seguiremos e só nos sentimos prontos para valorizar os nossos produtos quando os olhares europeus se voltam para eles.

Movimentos gastronômicos vêm mudando essa postura perante a nossa cozinha, mas ainda preferimos fazer uma crepe francesa à uma original tapioca tupi, preferimos fazer couscous marroquino à testar as inúmeras possibilidades do milho guarani. Como já dito, talvez seja tarde para resgatarmos por completo a nossa identidade indígena brasileira, mas sempre há tempo para reconhecermos o quanto ela é importante no nosso modo de ser e lhe dar o merecido respeito e destaque.

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