Angélica Liddell volta a São Paulo com peça sobre ataques terroristas na França
“O grande tabu continua sendo o sexo, não a morte.” A indignação da crítica francesa não é novidade para a encenadora espanhola Angélica Liddell que desabafou em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” sobre a repercussão de Que Haré Yo Con Esta Espada? (Aproximación a la Ley y al Problema de la Belleza), que estreou no Festival de Avignon…

“O grande tabu continua sendo o sexo, não a morte.” A indignação da crítica francesa não é novidade para a encenadora espanhola Angélica Liddell que desabafou em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” sobre a repercussão de Que Haré Yo Con Esta Espada? (Aproximación a la Ley y al Problema de la Belleza), que estreou no Festival de Avignon e passou pelo Festival Ibero-americano de Artes Cênicas de Santos. Nesse sábado, 17, e domingo, 18, a montagem passa pelo Sesc Pinheiros.
A inspiração para o título da peça não surgiu do filme homônimo do português João César Monteiro mas de um trecho de Terceiro / O Conde de D. Henrique, de Fernando Pessoa. “À espada em tuas mãos achada, teu olhar desce. Que farei eu com esta espada? Ergueste-a, e fez-se.” Para Angélica, o objeto se converte em uma metáfora potente para o que ela deseja dizer. “A minha espada é a palavra. É uma espada mítica para a nostalgia da guerra da beleza.”
Apossada dessa lâmina afiada, capaz de separar juntas e medulas, a encenadora se apoia em dois episódios violentos da história recente francesa. Em 1981, o universitário japonês Issei Sagawa convidou uma colega de curso para um jantar e terminou a noite esquartejando-a e praticando canibalismo. Por meio de fatum, personagem da mitologia romana que representa o destino, Angélica conecta o assassinato da garota aos ataques terroristas na França, que mataram 149 pessoas em 2015. “Eu estava perdida em um tempo muito escuro na minha vida e quis dar forma ao crime de Sagawa.” Na época do atentado de 13 de novembro, Angélica trabalhava em Paris. “De alguma forma, me identifiquei com o assassino, e é como se minha escuridão tomasse forma naquela matança. Ambos os eventos se ligam de forma simbólica, a ponto de pensar que eu mesma tinha provocado a morte deles.”
No palco, a encenadora então articula uma terra mítica na qual a violência cobre as emoções e o trabalho é voltado para o que ela chama de “Lei da Beleza.” Toda a montagem ganha o suporte do pensamento de Nietzsche, que questionou o potencial da violência real de se transformar em força poética. Angélica explica que a agressividade pode nos colocar em contato com as emoções e, graças ao homem, a poesia pode voltar à intimidade com os instintos, entre os quais a sociedade civil está pronta para reprimir. “Este trabalho é um hino ao irracional, acima da razão, acima do Iluminismo que fundou nossas sociedades modernas, mas definitivamente exterminou o mundo espiritual.”
Tal atmosfera sombria se concretiza em obras como Hysterica Passio, encenada no Brasil pelo Teatro Kaus Cia Experimental e que narra a vingança do garoto Hipólito pelos abusos praticados por seus pais. Bastante celebrada no País, a encenadora esteve em São Paulo em 2014 com a peça Eu Não Sou Bonita, montagem que sofreu com protestos por ter a presença de um cavalo. Durante a sessão, o relato íntimo da atriz foi interrompido e os manifestantes subiram no palco. Angélica, que passou parte da infância entre os agricultores de Figueres, onde nasceu, defende que o animal, muito bem tratado, tinha a permissão de seus proprietários. “Acho que o palco não é um lugar para protestar porque é um lugar ético, acima de tudo.”
Protestos como esse não foram privilégio de Angélica. Este ano, o Mirada experimentou a ação de manifestantes contra a peça 4, que trazia quatro galos calçando tênis. Por conta da montagem do diretor espanhol Rodrigo García, o Sesc Santos foi multado em R$ 2 mil, por infringir uma lei municipal que veta o uso de animais nessas situações. “A arte encarna a própria liberdade de expressão, e por isso, deve ser a primeira coisa que destrói o totalitarismo na expressão artística”, completa a encenadora.
QUE HARÉ YO CON ESTA ESPADA?
Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195. Tel.: 3095-9400. Sáb e dom., 18h. R$ 20 / R$ 40. Até 18/9.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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