Centenário de Dorival Caymmi: Meon entrevista os filhos Dori e Danilo

Os ideais de praia, de mar, do folclore e da mulher baiana devem muito a um certo baiano e seu violão. O cantor, compositor, pintor e ator Dorival Caymmi completaria cem anos nesta quarta-feira (30) e as homenagens a este emblema da música brasileira dão início à comemoração do centenário do artista.

Escrito por: Renan Simão10 min de leitura
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Comemoração vai ter disco com Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso

Divulgação

Os ideais de praia, de mar, do folclore e da mulher baiana devem muito a um certo músico e seu violão. O cantor, compositor, pintor e ator Dorival Caymmi completaria cem anos nesta quarta-feira (30) e as homenagens a este emblema da música brasileira dão início à comemoração do centenário do artista.

Vão ser realizados biografia, songbook, livro infantil, exposição, discos diversos (o principal com participação de Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, a ser lançado em agosto) e shows capitaneados pelos herdeiros de Caymmi, os filhos Danilo, Dori e Nana.

“Nós tomamos providências muito antes para evitar os erros de outros centenários. E o problema tem que se centralizar na memória. Você vê que a música [de Caymmi] está na memória das pessoas, mesmo as feitas nos anos 40, 50”, afirma Danilo Caymmi ao lado do irmão Dori, em entrevista ao Meon antes de show no Sesc São José dos Campos.

Danilo fala de canções clássicas como “O Que é Que a Baiana Tem”, “Suíte do Pescador”, “O Bem do Mar”, “Saudades de Itapoã”, “Modinha Pra Gabriela” e muitas outras que são conhecidas há tanto tempo.

Em clima de conversa de família, os irmãos falam de questões práticas -da gravação do novo disco, do possível show orquestrado e da importância do violão de Caymmi para a música brasileira- e, sobretudo, contam histórias. Como aquelas do Caymmi galanteador; da admiração do cantor por Noel Rosa e Chico Buarque e da amizade com Tom Jobim.

Relembram também fatos curiosos. Caymmi, um dos maiores contadores de histórias do mar e da praia, não chegava perto da água. “Papai não ia muito à praia, não. Ele tinha uma intimidade com o mar, mas não gostava de água fria”, conta Dori.

Qual é o sentimento nesse 30 de abril, o dia do centenário de Caymmi?
Dori: a gente lembra dele com muita alegria. Ele era uma pessoa muito engraçada, brincalhona, é um sentimento muito bom. E o bonito disso tudo é que o Brasil inteiro está comemorando com a gente, fazendo uma festa, na Bahia, São Paulo, Brasília, Minas. Todos os jornais estão nos ligando do Brasil inteiro, querem comemorar essa data conosco. A gente está feliz, não é uma coisa triste. É uma data simbólica, dos 100 anos. Morreu com 94, faltaram seis (ri). Se estivesse vivo, estaria muito satisfeito, com certeza.

Vai ter algo na Bahia?
Danilo: essas coisas foram feitas muito às pressas. Até o mês passado não havia nenhuma manifestação. Mas parece que a Secretaria de Cultura [da Bahia] vai fazer alguns eventos. O selo dos Correios, que nos patrocina no projeto “Centenário Caymmi”, vai fazer um evento na rua Abaeté. E a Daniela Mercury me convidou para fazer alguma coisa na Barra, em homenagem ao Dorival Caymmi.

Dori: a Daniela que sempre nos ajudou pra caramba…

Danilo: sim, essas manifestações espontâneas, a gente dá muito valor.

Dori: e ela venceu o troféu Caymmi, foi uma das cantoras que vieram do Troféu Caymmi. Ela, Ivete Sangalo e muitos outros na Bahia. E o prefeito reinstituiu o troféu.

Danilo: teve homenagem no Carnaval de Belo Horizonte também, foi muito bonito. Escola de samba em Brasília, em São Paulo. Ele ia ficar muito feliz. Vai ter uma homenagem na Câmara dos Deputados, com o deputado Protógenes…

Tem discos, livros, os shows que vocês estão fazendo… O que mais falta a ser explorado na obra de Caymmi? 
Danilo: tem muita coisa. Três discos em andamento. Dois em produção. Um meu e um do Dori. Eu tenho um projeto mais conceitual, de jovens produtores homenageando a obra de Caymmi. Eu atuo como cantor e instrumentista. Tem um livro infantil também [“Dorival no Mar de Caymmi” (Editora Água Grande), de Stella Caymmi, filha de Nana]. Um livro patrocinado pela Repsol que ficou muito bonito [“Dorival Caymmi – Acontece que Ele É Baiano” (Repsol Sinopec/ 19 Design e Editora)]. Minha sobrinha está lançando uma biografia num formato reduzido, mais acessível [“Dorival Caymmi – O Mar e O Tempo”, de Stella Caymmi]. Dori também tem um projeto de songbook muito bonito. Tem também palestras de formação de conteúdo, já mais na área educacional. Tem exposições. Eu estou vendo, lá no Paraná, uma exposição itinerante que vai circular pelo Brasil inteiro.

Como foi a escolha do repertório dos shows? 
Dori: veio do disco de 2013 [“Nana, Dori e Danilo – Caymmi”]. Que eu produzi, foi uma homenagem dos filhos. O repertório foi baseado numa pesquisa daquilo que não se cantou muito, o que Danilo não havia cantado, que Nana não havia cantado. Muito folclore, muita coisa do mar, praieira, muita coisa de Jorge Amado. Fez muito sucesso na crítica porque havia músicas pouco conhecidas. Já o novo disco, além de Nana, Danilo e eu, tem Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil. E tem o Mário Adnet. É, ficou um disco com orquestra, ficou uma coisa maior.

Sai em agosto? 
Dori: deve sair.

Você e o Mário Adnet arranjam…
Dori: isso. Eu tive essa ideia porque papai era fã de Chico Buarque de Holanda. Lembro de uma entrevista. Perguntaram para ele: “O que há de novo?”. Ele disse: “Chico Buarque”.

Danilo: é uma interpretação muito bonita que ele fez. Eu vim escutando, vindo pra cá. Ele cantou “Dora” e “Marina”, uma interpretação maravilhosa.

Dori: com muito sentimento. Eles eram muito amigos, Chico e papai. Aquilo era mútuo. E ficou muito bonito o disco. Nana cantou umas canções do mar. Danilo cantou “Nem Eu”, cantou “Vatapá”. O disco está bonito. O Mário cantou “A Vizinha do Lado”. Eu fiz “O Bem do Mar”, “João Valentão”, que são músicas mais conhecidas. Esse é o disco do centenário.

Você disse que os arranjos deveriam ser fiéis ao original, não é?
Dori: eu não queria que inventasse muito. Apesar de moderno e tudo, não se inventa muito em cima. Eu não resgato nada (ri). Odeio resgatar, acho que não existe ‘resgatar’. Mas não é questão de ser fiel. Ser fiel ao papai era tocar violão e cantar. Esse era o forte dele. E sobre o disco, a gente pensa na possibilidade de um grande show até 2015, um show caro, um show com orquestra, mais difícil de se realizar. Mas a gente vai tentando. Se eu puder botar o papai no lugar do Neymar na Seleção, eu vou tentar (ri).

Eu também escrevi quase todas as partituras conhecidas pra gente fornecer para escolas de música no Brasil todo. O Paulinho Jobim está vendo esse processo todo. Pra que essas músicas continuem existindo, pra que essa coisa fique viva.

Vocês têm a lembrança daquele disco “Dorival Caymmi & Tom Jobim‎ – Caymmi Visita Tom e Leva Seus Filhos, Nana, Dori e Danilo”, de 1964?
Dori: sim. A gente tocava violão, piano, flauta… Danilo tinha 15, eu tinha 20, 21 anos. Foi muito bom. Por que o Tom Jobim… é difícil de explicar. Em “Saudade da Bahia” ele faz uma voz no meio, uma coisa impressionante.

Danilo: nem dá pra falar que Tom é bossa nova. E ele nem gostava, você falava de bossa nova com ele e ele não se incluía.

Dori: ele tá acima do bem e do mal. Papai chamava ele de Tonico, né. Saíam muito juntos.

Danilo: eram muito amigos e as famílias eram muito ligadas.

Dori: mas ele era esperto, papai era danado. Lembrei de uma história do humor dele, de uma casa de um arquiteto chamado Zanini e da atriz Florinda Bulcão, que fazia muito sucesso na Europa e voltou pro Brasil. Ela comprou essa casa do Zanini, do alto da Joatinga, lá do Rio Bonito, Rio de Janeiro. E os caras ficavam ali do lado, alugando o ouvido dela, o bando de urubu em cima. E o velho assim sentado, do alto de uma pedra grande, falou assim pra ela: ‘Do alto de Florinda se avista o mundo’. Aí a mulher caiu nos braços dele (ri). Ele era moleque. Com a Cláudia Raia ele dizia: ‘Se eu fosse potro novo só corria nessa raia’. Ele tinha um humor fantástico, a gente foi criado dentro desse espírito, por isso que o centenário dele é de alegria. E aliás no dia 30 é aniversário de casamento dele e da velha [a cantora Stella Maris, mãe dos dois]. Dá o quê? Seriam 74 anos de casado.

Ele veio pro Rio em 78. Tinha muita tristeza de não ter conhecido Noel Rosa. Admirava o Luís Peixoto, um outro letrista que ele adorava. Era um cara que era simples, mas que conservava os ídolos. E viveu muito. Acho que se a minha mãe não tivesse problemas de saúde antes dele, ele chegaria aos cem. Mas eles eram muito juntos, ele sentiu muito isso. Como diz o Danilo, ele era um cara sensível.

Vocês sentiram alguma diferença na hora de interpretar músicas que têm lugar numa memória afetiva de vocês, que talvez tenham outro significado?
Dori: bom, as coisas vão mudando. O que pra mim sempre foi importante desde menino e eu ficava ouvindo os programas de rádio, eu ficava fascinado com aquelas canções praieiras, de pescador. Hoje em dia é diferente. Uma vez perguntaram para ele: ‘Caymmi, quem é que canta suas músicas bem?’ Ele falou: ‘Sou eu’. Ele falou. Ele era o violão. Quando você colocava a orquestra, você tirava o espírito dele. Foi feito muito isso, mas já não significava a mesma coisa. Depois ele não começou a tocar mais, já não era a mesma coisa. Mas é diferente quando a gente canta, eu, o Danilo. Mas o espírito continua.

O que é o violão de Caymmi para vocês?
Dori: o violão de Caymmi é a minha formação, é meu primeiro violão. Eu tenho três violões na minha formação: o papai, o João Gilberto e o Baden Powell. Mas ele era fantástico. Até hoje as pessoas tentam tocar o samba que ele tocava e não conseguem.

Danilo: ele vestia as canções. Você sente às vezes as coisas ao vivo. Tem uma gravação dele no Teatro Castro Alves, na Bahia, e a facilidade com que ele tocava… Vai vestindo as canções, vai costurando uma canção na outra, é espetacular. E super moderno pro tempo dele.

Dori: e único. Essa que é a coisa, não há ninguém que reproduza. É muito diferente. O Vinicius [de Moraes] já dizia isso: ‘Não tem nada antes, não tem nada depois de Caymmi’. É difícil explicar, é muito original.

Como é a praia sem Caymmi?
Danilo: acho que ela sempre esteve sem Caymmi, ele não ia a praia de jeito nenhum. (riso geral, dos dois e da produção).

Dori: é, mamãe é pescadora, eu também. Papai não ia muito à praia, não. Ele tinha uma intimidade com o mar, mas não gostava de água fria. Mas ele olhava pro mar com uma cumplicidade fantástica. Tenho uma lembrança, foi no Leblon, eu tinha um ano e meio mais ou menos, estava brincando na beira do mar e a onda me levou. Mamãe entrou no mar bravo, saiu catando cavaco, pulando por cima de tudo. O velho ficou parado onde ele estava. Não conseguia se mexer. Ficou branco. E foi mamãe que mergulhou e me tirou da água pelo cabelo. Ele não deu um passo. Parece que conversava com o mar, dizendo assim: ‘Escuta, devolve meu filho’. Ele tinha essa intimidade, mas ele não entrava na água, não. Mamãe fez uma piscina, lá em Pequeri, em Minas [Gerais], em uma casinha que eles tinham lá. Aí fizeram uma piscina pra exercício, só pra andar. Ele disse: ‘Quem é que vai entrar nesse buraco, aí?’.

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