Cida Moreira mergulha em suas memórias para cantar o Brasil no disco ‘Soledade’
Soledade é um lugar que quase não existe mais, escondido na aridez de um vasto sertão referencial de valores e memórias em extinção. Vem de uma pequena cidade paraibana o título do novo álbum da cantora, pianista e atriz Cida Moreira, que será lançado no dia 1.º de setembro pela Joia Moderna, do DJ e produtor Zé Pedro. Cida divide a produção…

Soledade é um lugar que quase não existe mais, escondido na aridez de um vasto sertão referencial de valores e memórias em extinção. Vem de uma pequena cidade paraibana o título do novo álbum da cantora, pianista e atriz Cida Moreira, que será lançado no dia 1.º de setembro pela Joia Moderna, do DJ e produtor Zé Pedro. Cida divide a produção com a gravadora dele, a direção musical com Omar Campos e a concepção e o repertório com o jornalista e pesquisador Eduardo Magossi, trabalho que contou com o esquema de financiamento coletivo via internet.
A ideia inicial era realizar um disco sobre o Brasil, como uma espécie de manifesto contra a destruição de um país que perdeu o tempo da delicadeza, mas tudo mudou quando Cida passou uma temporada no sertão nordestino para as filmagens de Deserto, produzido e dirigido pelo ator Guilherme Weber, que tem estreia prevista para outubro. Baseada num livro do mexicano David Toscana, trata-se da história de um grupo de artistas mambembes que se apresentam para ninguém e as tensões da convivência em condições precárias leva-os aos extremos da morte.
À maneira do personagem interpretado por Lima Duarte no filme, Cida se questiona o que é ser artista no País hoje e não é muito esperançosa quanto ao futuro nesse aspecto. “Soledade é uma cidade que não tem nada, mas na sua geografia ela reúne tudo que está em extinção no Brasil: a arquitetura, as pessoas, o tipo físico, o comportamento.” A relação com Deserto também se evidencia no encarte, com a inclusão da foto (feita por ela) de uma carroça com um piano, que a cantora toca no filme.
Com um tanto de melancolia e outro de cores vibrantes, com ligações poéticas e teatrais de Alice Ruiz, Tiago Torres da Silva, Mário de Andrade, Augusto Boal e Bertolt Brecht, Cida mergulha em memórias pessoais, desde as modinhas e outras canções que cantava quando menina. Ao mesmo tempo, procura o conforto de um país menor (simbolizado no piano em miniatura e as caixinhas de música fotografadas por Diego Ciarlariello para a capa do disco) num coração maior, como seu piano e sua voz incandescente, ao cantar dramas cotidianos do Brasil, com o pulso do rock do Joelho de Porco e dos Titãs.
“Há um encadeamento nesse disco, em que tem a extinção da extinção que é Construção, seguida da Última Voz do Brasil, porém, todavia, contudo, ‘o pulso ainda pulsa’, de outra maneira, num registro elétrico, mais duro, contemporâneo. Por isso não quis gravá-la (O Pulso) como um rock, igual aos Titãs. Deixei o computador fazer isso. E tem aquela linha fina no fim, que é uma UTI, mas aí entra a vinheta das Pastorinhas (Noel Rosa/João de Barro).” Uma ponta de alegria carnavalesca.
Cida relembra autores que lhe são caros como Chico Buarque (Construção), Milton Nascimento e Ronaldo Bastos (Um Gosto de Sol, com citação de Trastevere), Gilberto Gil (Bom Dia, parceria com Nana Caymmi), Nico Nicolaiewski (Feito Um Picolé no Sol), seus amigos mortos Tico Terpins e Zé Rodrix (dois dos autores de A Última Voz do Brasil), Taiguara (Outra Cena), Jards Macalé (Poema da Rosa, parceria com Boal sobre poema de Brecht), e traz novidade de quatro jovens compositores e cantores que reconhecem influências dela e com os quais a cantora já dividiu o palco: Hélio Flanders, Thiago Pethit, André Frateschi e Arthur Nogueira. “As canções sempre me pegam pela letra”, diz Cida. “Faço minhas escolhas a partir delas.”
Com exceção das novas, as canções e todos os músicos fazem parte da história de Cida. Só não conhecia Mestrinho (que toca acordeom na clássica moda de viola paulista Moreninha). Faíska Borges é um guitarrista que tocou com ela nos anos 1980 e participou da gravação de A Última Voz do Brasil no álbum Saqueando a Cidade, do Joelho de Porco, do qual Cida participou. Zé Mazzei (dos Forgotten Boys) toca baixo em Forasteiro (Flanders/Pethit), um dos pontos altos do álbum. Ricardo Severo, tecladista que Cida conheceu no Sul há 25 anos, trouxe o peso eletrônico para O Pulso (Titãs). Arthur de Faria criou o arranjo e regeu o quinteto de cordas em Construção, outro dos mais belos momentos do disco. Lincoln Antonio (pianista) foi aluno de Cida, fez Porgy and Bess com ela e gravou no disco da cantora dedicado a Chico Buarque.
Numa das vinhetas do disco, Cida interpreta um poema de Alice Ruiz em que diz no fim: “Não importa o sentido / Se tudo vibra”. Aí ela se pergunta que sentido tem em gravar um disco com essas canções nesse momento. “Não é ‘filosofice’, não sei responder, mas no meu parecer, no meu entendimento, o que eu quero é que pareça organicamente meu aquilo.”
Menos trágico do que o drama que ela descreve em Deserto, mas com igual intensidade, Soledade tem o roteiro de um filme de curta-metragem, com sensações, imagens e quadros simbólicos, como as coisas boas que se desmancham como um picolé ao sol, a pera dormindo numa fruteira, o anônimo que morre na contramão, o cultivador da rosa que também carece de cuidado, num mundo vivendo à beira do fim, mas que outro personagem apaixonado imagina vê-lo da janela dos olhos de uma moreninha. No entanto, é preciso cantar livre, porque a alma arada vibra para derrubar a ignorância e a arrogância, desponta uma estrela no céu, e o bom dia seguinte é de reconstrução, com amor e trabalho. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Posts Relacionados

Instituto Athlon representa São José em Mundial na Holanda

Europa concentra maior número de casos de violência contra brasileiras no exterior

Discurso de Lula na Avibras, em Jacareí, provoca crise diplomática com o Paraguai
