Em Lorena, voluntários tentam salvar órgão de 200 anos

Uma jovem de 19 anos mantém uma rotina bem diferente das pessoas da sua faixa etária. A lorenense Luciana Lemes tenta, ao lado de amigos do coral da Matriz, salvar um dos instrumentos musicais mais raros do País. Um órgão tubular Cavaillé-coll, com mais de duzentos anos de uso e que hoje enfrenta uma batalha para chegar ao fim de cada missa.

Escrito por: Francisco Assis4 min de leitura
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Luciana Lemes trabalha para impedir o fim do órgão

Francisco Assis/Jornal Atos

Uma jovem de 19 anos mantém uma rotina bem diferente das pessoas da sua faixa etária. A lorenense Luciana Lemes tenta, ao lado de amigos do coral da Matriz, salvar um dos instrumentos musicais mais raros do país. Um órgão tubular Cavaillé-coll, com mais de duzentos anos de uso que enfrenta uma batalha para chegar ao fim de cada missa.

“Aqui no Brasil nós não temos qualificação. Organista é diferente de organeiro, organista é quem toca, organeiro é quem o faz, restaura e entende dessa parte técnica”, lembrou Luciana, que contou que a campanha de restauração começou com o seu professor, o maestro Idazil Garcia, entre 2007 e 2009, depois disso ninguém mais se interessou pela causa. “O pessoal não sabe do valor, o preço disso aqui. Um novo ficaria em mais ou menos R$ 500 mil. Você acha que trocar um órgão de tubos desse por um eletrônico, você vai estar na vantagem? Não. Um instrumento desse resistiu duzentos anos, um eletrônico, se der uma queda de energia, já queima e já era”.

O grupo recebeu um organeiro, que avaliou o Cavaillé-coll. De acordo com o especialista, o instrumento está em estado deplorável e necessita urgentemente de uma reforma.

O Cavaillé-coll é um instrumento francês, criado por Aristide Cavaillé-Coll, um organeiro do século 19 com forte significância no Brasil. Hoje, além do órgão de Lorena, são apenas quatro destes espalhados pelo Brasil. Em Curitiba, São Paulo, Belém e Campinas.

O instrumento da Catedral de Lorena é, de acordo com Luciana, um órgão romântico, bem pequeno, comparando com os outros grandes órgãos. “O maior Cavaillé-coll do Brasil está localizado na Catedral de Belém do Pará, que já foi restaurado. Este aqui é pequenininho, mas tem um valor histórico não só para nós lorenenses, mas para o mundo inteiro, é uma relíquia”.

Presente da Baronesa de Santa Eulália, o instrumento chegou à cidade em 1889, trazido de navio da França, e desde então, não passou por nenhuma restauração. Esquecido na igreja Matriz, ele precisa de um sério trabalho que pode salvar a peça histórica e garantir mais da música do Cavaillé-coll por um longo período.

Mas para isso, é necessário um alto gasto. Sem valores exatos, a organista acredita que a recuperação pode ficar em torno de R$ 200 mil, o que necessita de uma parceria. Um grupo de pessoas ligadas ao Coral N.S da Piedade se desdobra e tenta contato com empresários da região, além de solicitar o apoio do poder público.

“O que nós podemos fazer é o que a gente chama de gato (sic). Remendamos um fio no outro, com fita adesiva. Não temos estudos para essa parte de cuidados do órgão, então tiramos o pó para não deixar acumular e vamos fuçando. Quando o fole estoura, abrimos o órgão, pegamos a fita adesiva e colamos, mas nem sempre dá certo. Agora, no início da Festa da Padroeira, o fole estourou no meio da missa”, contou Luciana.

Ela explicou que os tubos são feitos de chumbo estanho, e qualquer amassado já desafina o instrumento. Para resistir os quase dois séculos, o órgão precisa ser de uma madeira específica, difícil de encontrar no Brasil. “É um material que a gente busca no exterior. Tudo para resistir ao tempo e essas mudanças climáticas. Só por isso ele aguentou todos esses anos”.

Com o trabalho de divulgação, o grupo espera atrair a atenção de empresários e, se conseguir a restauração, utilizar o órgão para concertos, com organistas do país e até mesmo internacionais. “Muitos, descobrindo esta notícia, com certeza vão se interessar em ajudar. Eu tenho 19 anos e gosto de um instrumento que pouca gente escutou. Será que ninguém vai dar razão para uma menina?”, questionou Luciana.

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