História da decisão: alemães e o futebol clássico
“E o que ele vai dar? Ele dá pênalti! Ele! Dá! Pênalti!” Essas palavras são famosas na Alemanha. Em 1990, elas deixaram todo o país em êxtase. O locutor alemão Gerd Rubenbauer as pronunciou para descrever a cena que aconteceu aos 40 minutos do segundo tempo na final da Copa do Mundo no dia 18 de julho em Roma — 24 anos antes da fantástica goleada por 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil pelas semifinais da Copa do Mundo da Fifa 2014.


Os “sempre favoritos” Alemães embelezam o futebol com a classe
AFP/Fifa.com/Divulgação
“E o que ele vai dar? Ele dá pênalti! Ele! Dá! Pênalti!” Essas palavras são famosas na Alemanha. Em 1990, elas deixaram todo o país em êxtase. O locutor alemão Gerd Rubenbauer as pronunciou para descrever a cena que aconteceu aos 40 minutos do segundo tempo na final da Copa do Mundo no dia 18 de julho em Roma — 24 anos antes da fantástica goleada por 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil pelas semifinais da Copa do Mundo da Fifa 2014.
Rudi Völler recebeu a bola na área e caiu após uma entrada do zagueiro em uma tentativa de afastar a bola. O árbitro mexicano Edgardo Codesal Méndez não hesitou em apontar a marca do pênalti. E de nada adiantaram os veementes protestos dos jogadores argentinos.
“Imediatamente ficou claro para mim que eu devia chutar”, afirmou Andreas Brehme, descrevendo mais tarde os momentos decisivos da partida. “Sempre eram determinados três cobradores para cada jogo: o Rudi Völler — mas ele havia sofrido a penalidade e quem sofre a falta nunca deve chutar. Havia o Lothar Matthäus, mas ele não estava se sentindo bem. Para nós era importante que aquele que fosse chutar estivesse cheio de autoconfiança e conseguisse converter a cobrança. Então eu fui. O Völler ainda veio até mim e disse: ‘Marca esse gol agora e seremos campeões mundiais’. ‘Sim, muito obrigado’, respondi. ‘Vou chutar com o coração'”.
Um espinho no olho até hoje
E foi isso o que ele fez. Exatamente às 21h40 da noite, no horário local, o tempo parou por um momento quando o lateral-esquerdo se preparou para chutar. À sua frente estava o goleiro argentino Sergio Goycochea, que tinha fama de ser um grande pegador de pênaltis. Em uma seleção argentina muito eficiente, o arqueiro havia sido um fator decisivo para a vitória nas oitavas de final contra o Brasil, com uma atuação incrível, nas quartas de final contra a Iugoslávia, e por fim nas semifinais contra a Itália.
Brehme correu, chutou e marcou. Imediatamente Rubenbauer berrou “Siiiiiim!”. O chute saiu rasteiro e balançou a rede no canto esquerdo do gol. Goycochea até acertou o lado, mas nada pôde fazer diante de um chute tão bem colocado.
“O que se seguiu foi indescritível”, afirmou o autor do gol do título. “Todos já viram as imagens da comemoração. Naquele momento, todos sabíamos que éramos campeões do mundo. Em um instante havia seis, oito jogadores ao meu redor, mas não percebemos as coisas assim na hora.”
Foi a primeira final de Copa do Mundo decidida por um gol de pênalti. As lembranças do outro lado são totalmente diferentes mesmo passados tantos anos. “Até hoje é como um espinho no meu olho”, afirmou o goleiro Goycochea certa vez em entrevista ao site da Fifa. “O fato de eu não ter conseguido defender aquele pênalti foi pior para mim do que os cinco gols que levei em 1993 nas eliminatórias contra a Colômbia.”
Poucos minutos mais tarde, soou o apito final e, pela primeira vez desde o ano 476 d.C., a cidade de Roma voltou a ter um imperador — para sermos mais precisos, um “Kaiser”: Franz Beckenbauer, treinador da seleção alemã. Ele foi a segunda pessoa, depois de Mário Zagallo, a conquistar o Mundial tanto como jogador (1974) quanto como treinador (1990).
O nascimento uma luz brilhante
Até hoje permanece inesquecível na Alemanha a cena após o apito final, quando Beckenbauer, com a medalha no pescoço e as mãos nos bolsos, deu uma volta solitária pelo estádio. Sozinho em pensamentos diante de milhões de pessoas no estádio e na frente da televisão. Sobre ele, uma lua cheia brilhante e um avião subindo nos céus.
Mais tarde, Beckenbauer recebeu um novo apelido, algo parecido com “luz brilhante” em alemão, talvez justamente por causa desse momento no Estádio Olímpico de Roma. Em que ele estava pensando? O próprio Beckenbauer escreveu dois anos depois na sua autobiografia que ele havia se libertado do futebol naquele momento. “Foi uma despedida sem retorno. Não existe mais fogo em mim, nem paixão.”
A revanche pela final perdida de 1986 estava completa. Pela primeira vez na história, duas equipes se enfrentaram em duas finais consecutivas. Para a Alemanha foi um acontecimento especial, já que apenas em novembro do ano anterior o Muro de Berlim havia sido derrubado e o país tinha voltado a crescer junto. A reunificação alemã foi coroada pelo título mundial. Lembranças de 1954 foram despertadas. Depois das finais perdidas de 1982 e 1986, finalmente os alemães voltaram a ser campeões.
Até os 40 minutos do segundo tempo, os espectadores assistiram a uma partida emocionante. Os argentinos estavam sem quatro jogadores — entre eles, Claudio Caniggia, que havia jogado a Copa do Mundo da sua vida na Itália 1990. Nas oitavas de final, ele foi o autor do gol da vitória contra o Brasil; nas semifinais, foi dele o gol de empate contra a anfitriã, que levou o jogo para a disputa por pênaltis. No entanto, ele seria suspenso por excesso de cartões amarelos depois de colocar a mão na bola e assistiu à final contra a Alemanha fora de campo. “Foi uma das situações mais frustrantes da minha carreira, assim como o fato de nunca ter vencido uma Copa do Mundo”, afirmou Caniggia mais tarde.
Um alemão chamado “Diego”
Na partida, os sul-americanos perderam ainda Pedro Monzón e Gustavo Dezotti, que receberam o cartão vermelho. No acirrado encontro, a Alviceleste pouco ameaçou o gol alemão, até porque Diego Maradona não repetiu o seu fantástico desempenho do México 1986. Guido Buchwald marcou o craque argentino de perto durante os 90 minutos.
“Eu havia prometido à minha filha Dalma que voltaria para casa com o troféu”, afirmou Maradona, que depois do apito final se sentou no centro do campo chorando enquanto nas arquibancadas havia um mar de bandeiras das cores preto, vermelho e amarelo. “A cada minuto sentíamos na sua linguagem corporal que ele estava cada vez mais resignado”, lembrou Buchwald, que na Alemanha recebeu depois da partida o apelido de “Diego”, em referência ao seu maior dia como jogador. “Era como se ele parecesse estar dizendo: ‘Como, você aqui de novo?'”
Foi sem dúvidas uma noite mágica. Para a Argentina uma era chegou ao fim. Para a Alemanha, foi um brilhante título mundial. No final da noite, a locução de Rubenbauer chegou ao fim com as seguintes palavras: “O trono é do Kaiser, a taça é da seleção alemã, e a diversão foi nossa, senhoras e senhores”.
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