Jorge Furtado defende as séries de TV como refúgio para o cinema autoral

Na Comic Con, cineasta afirma que setor vive revolução com novas plataformas

Escrito por: João Pedro Teles4 min de leitura
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Furtado foi premiado com Emy internacional 2015 pela série Doce de Mãe

João Pedro Teles/Meon

Quando o ex-presidente Fernando Collor de Mello extinguiu a Embrafilmes  e acabou com os investimentos públicos para o cinema nacional, o cineasta Jorge Furtado e outros nomes da sétima arte reuniram-se com um propósito: salvar a honra da produção brasileira com pelo menos um curta que fosse.

Intitulado de “Dane-se”, a reunião elegeria o melhor projeto para que nele fossem concentradas todas as minguadas forças do cinema nacional. Foi nesse berço que nasceu o ácido “Ilha das Flores”, dirigido pelo gaúcho e preferido entre os cineastas. Sábia decisão. Em 13 minutos o curta fez o Brasil entrar no mapa das produções mundiais (em 1995 o filme entrou na lista dos 100 curtas mais importantes do século pela crítica europeia) e ascendeu Jorge Furtado para o panteão dos grandes diretores da nossa geração.

Depois de um roteiro extenso de premiações e obras importantes para a galeria do cinema nacional (O Homem que Copiava, Lisbela e o Prisioneiro, Meu Tio Matou um Cara, Saneamento Básico, entre muitas outras produções para a televisão estão na lista), o profissional vive às voltas com o que chama de revolução na própria concepção do que é cinema. Durante o painel “O Homem que Roteirizava”, que ministrou nesta sexta-feira (4) na feira Comic Com Experience, o cineasta falou sobre como as novas mídias impactam nas produções audiovisuais.

“Já ouvi por aí que o cinema acabou. O fato é que estamos no meio de uma revolução e, como acontece quando se está no olho do furacão, não dá para vislumbrar no que isso vai dar. Não sei. Mas uma coisa é certa, o ‘on demand’ veio pra ficar, as pessoas assistem o que querem, a hora que querem. Eu mesmo não me lembro de assistir uma série esperando com ansiedade pelos episódios, vejo tudo numa tacada só”, explica.

De acordo com Furtado, o cinemão, e todo o seu pacote hightech, tomou conta das salas e subiram o sarrafo dos custos de produção. Como os estímulos milionários fazem a cabeça dos espectadores, o gaúcho aponta que o caminho natural para o talento criativo é entrar de cabeça nas produções para a telinha, seja da TV ou dos canais de streaming como o Netflix.

“Está muito difícil fazer coisa autoral no cinema. As cabeças pensantes estão nas séries, onde há mais liberdade criativa, capacidade de segmentação e possibilidades para ousar. Mais uma vez, se isso veio para ficar, não sei”, comenta.

Faça você mesmo
Depois de afirmar que antes de enveredar para o cinema sempre quis ser um quadrinista, o fã de HQs como Flash Gordon ou Robert Crumb, o gaúcho afirmou que atualmente não há impedimentos para quem quer fazer um projeto de audiovisual atualmente.

“O orçamento é de R$ 10? Tem um computador? Um celular? Então faz do jeito que tu conseguir. Se a história é boa, interessa às pessoas, tem que ir fundo. Orçamento é estética”, diz.

O roteirista e diretor explica que seu processo criativo é no estilo tudo ao mesmo tempo agora. Apesar de cultuar os clássicos da literatura e cinema, Furtado também enxerga nobreza nos produtos da cultura pop.

“Eu jogo Plantas x Zumbis. Acho um máximo, é o jogo de tabuleiro que entrega o que o xadrez sempre prometeu e não cumpriu. Tudo é importante. Meu método é descansar de uma coisa fazendo outra. Se a escrita não está saindo, paro para traduzir um soneto, depois volto e não paro. Mas é preciso sentar-se para escrever. Escrever, escrever, até cansar. Mesmo naquele dia em que criamos dez páginas de bobagens, uma frase dali talvez seja tudo aquilo que estamos precisando”, conclui.

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