Memórias de uma barbearia clássica

O ofício de barbeiro é um dos mais antigos do mundo Foto: Pedro Ivo Prates O ofício de barbeiro, um dos mais antigos do mundo, acompanha a história da humanidade, seus conflitos, impérios, conquistas e avanços, até que no Brasil recentemente começou a entrar num processo de estagnação em meados de 1990. Os profissionais barbeiros […]

Escrito por: Rodrigo Menha*4 min de leitura
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O ofício de barbeiro é um dos mais antigos do mundo

Foto: Pedro Ivo Prates

O ofício de barbeiro, um dos mais antigos do mundo, acompanha a história da humanidade, seus conflitos, impérios, conquistas e avanços, até que no Brasil recentemente começou a entrar num processo de estagnação em meados de 1990. Os profissionais barbeiros começaram a serem vistos como experientes senhores de cabelos brancos, atuando em seus estabelecimentos por anos a fio. Eis as chamadas “Barbearias Clássicas”! Estas barbearias não acumulavam apenas anos, mas o carinho de seus fiéis fregueses.

No bairro em que eu morava na zona sul da cidade de São Paulo, o barbeiro da esquina – o “China” – um senhor negro de olhos brilhantes, cavanhaque bem desenhado e mantido por mais de quarenta anos, cabelo black-power, corrente grossa no pescoço, relógio dourado meio folgado dançando sobre o pulso magro, camisa de gola grande e calça sempre impecavelmente limpa e passada com o famoso vinco e sapatos reluzentes de tão bem engraxados, sempre com uma boa conversa e muita paciência, se gabava em relembrar histórias de quando atendia meu falecido avô e os contos de quando meu pai tinha minha idade.

O ambiente era nostálgico com alguns troféus de futebol e de carteado na prateleira da mesma parede decorada com um grande calendário com a foto de uma “musa sexy”. O piso gasto de cera vermelha, cabides com seus aventais brancos reservas, móveis em madeira de bancada simples com uma gaveta, a cadeira hidráulica de ferro bem pesado decorada em estilo colonial e no canto a mesma e velha vassoura de pêlos que, freqüentemente, algum cliente solidário apanhava para ajudar na remoção dos cabelos que se acumulavam sob os pés do talentoso senhor considerado figura símbolo do bairro de Campo Grande. No ar permeava o odor inconfundível da loção pós-barba que ardia “pra burro” na nossa nuca quando aplicada pela ponta dos dedos calejados.

Os sons eram característicos misturando-se aos das conversas mais divertidas e filosóficas. O tilintar das lâminas da antiga tesoura comprida, o barulho rouco do antigo secador com ventoinha lateral de onde se viam as faíscas estalando para fora; o som da lâmina da navalha sendo amolada pela tira de couro com uma habilidade invejável e o radinho de pilha sobre a modesta bancada, com antena sempre ereta calando a todos durante os jogos de futebol ou durante algum pronunciamento importante, mas que na maioria das vezes tocava as músicas de vanguarda da mocidade do ilustre proprietário.

Ali não era somente uma barbearia de bairro, mas uma referência da relação, da representatividade e do respeito que o profissional barbeiro tinha de sua comunidade, vizinhos e clientes, quer dizer, seus fregueses. Ali era um lugar de visitas mensais programadas, onde os homens e meninos esperavam na fila, ansiosos pela vez de passar pelas mãos do artista que nos preparava a aparência para os afazeres do cotidiano.

Havia um vínculo forte de confiança e amizade. O barbeiro sempre estaria ali, paciente e amigo para nos atender com toda sua serenidade e bom humor, com toda sua simpatia, gentileza e educação de um lorde inglês. Até o dia em que fomos surpreendidos por encontrar as portas mais queridas do bairro fechadas.

Elas se fecharam pouco antes de se fecharem os olhos perspicazes para enxergar os mínimos detalhes de nosso cabelo (e sem o uso de óculos); se fechou o sorriso, a voz se tornou uma lembrança, bem como as variadas histórias que passamos juntos naquele singelo e prestigioso local.

O artista se fora e com ele seu talento, deixando família, muitos clientes…amigos. Mas também deixou a noção real de que ele era um ser humano especial, pois sabia muito sobre nós, embora nós não soubéssemos quase nada sobre ele. Eu não me lembro de perceber que o China estava envelhecendo ou se tornando mais lento como diziam no seu velório.

Mas de uma coisa estou certo: Toda essa evolução das modernas barbearias que temos hoje em dia tem suas raízes na barbearia clássica, que é o fundamento deste maravilhoso ofício. O China deixou sua contribuição ao mundo, à profissão e aos homens que têm o privilégio de ter na memória as doces lembranças do antigo barbeiro que cortava o cabelo do seu avô, do seu pai e o seu.

*Rodrigo Menha mora em São José dos Campos e é cabeleireiro, barbeiro e visagista. É diretor de uma escola de cabeleireiros e proprietário de uma barbearia na cidade. Estudante de Química e Cosmetologia, ministra palestras, workshops e simpósios de beleza em vários estados do Brasil e em alguns países no exterior, além de prestar consultorias a fabricantes de cosméticos capilares.

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