Responsabilidade e família estão no filme alemão ‘Jack’
Havia quatro filmes alemães na competição da Berlinale deste ano. Foram todos preteridos na disputa do Urso de Ouro. O que se saiu melhor foi “Kreuzweg – Stations of the Cross”, de Anna e Dietrich Bruggemann, que ganhou o Urso de Prata de roteiro. Um filme sensível como “Jack” terminou passando batido. Tem gente que gosta de dizer que Berlim, o…

Havia quatro filmes alemães na competição da Berlinale deste ano. Foram todos preteridos na disputa do Urso de Ouro. O que se saiu melhor foi “Kreuzweg – Stations of the Cross”, de Anna e Dietrich Bruggemann, que ganhou o Urso de Prata de roteiro. Um filme sensível como “Jack” terminou passando batido. Tem gente que gosta de dizer que Berlim, o mais politizado dos festivais, crê em lágrimas. Não funcionou, neste caso. “Jack” é muito bonito. Edward Berger, de alguma forma, (re)fez “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, para o século 21.
O cinema já contou, e continua contando, muitas histórias de famílias disfuncionais, de pais e mães drogados. A mãe de Jack é trabalhadora, possui uma casa e existem momentos no filme em que ela é extremamente terna e calorosa com os filhos. Mas ela também é jovem, e ardente. Em vez dos filhos, prioriza a si mesma – seu desejo, sua necessidade. A família é separada. Jack vai para um albergue, sofre bullying, mas resiste. Neste fim de semana em particular, a mãe deverá buscá-lo. Mas ela não aparece Jack se envolve numa situação de violência, reagindo ao fortão que o oprime, e foge. Pega o irmão e, com ele, busca a mãe.
É curioso como o filme de Edward Berger se situa na contracorrente de outro filme que também concorreu em Berlim, em fevereiro – o brasileiro “Praia do Futuro”, de Karin Aïnouz. No filme brasileiro – parcialmente desenrolado na Alemanha -, um irmão (Jesuíta Barbosa) procura o outro (Wagner Moura) que foi se esconder na Europa para viver sua homossexualidade. Wagner, o seu personagem, abandona tudo – a mãe, o irmão – para viver sua história de amor. É um pouco como a mãe de Jack, que coloca seus desejos acima de tudo.
Jack, não. Tal como é interpretado por Ivo Pietzeker, ele evoca o inesquecível Enzo Staiola de “Ladrões de Bicicletas”, o clássico neorrealista de Vittorio De Sica. Embora criança, Enzo tinha aquela cara sofrida de quem tudo viu, e compreende. No final do filme de De Sica, é o aperto de mão do filho que dá força ao pai humilhado (Lamberto Maggiorani) para seguir em frente. Ivo Pietzeker soma um pouco da revolta do garoto Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) de Truffaut à determinação do pequeno Staiola. Se a mãe é irresponsável e só pensa nela, Jack coloca o bem-estar do irmão acima do próprio. Sente-se responsável por ele.
É uma linda história de afeto – atravessada, irresolvida. Tem um forte subtexto político. Só para lembrar. No fim dos anos 1990, Edward Berger esteve no Brasil – no Festival do Rio – com “Gomez – Heads or Tails”. Já era sobre as descobertas de um adolescente numa Berlim de drogados e marginalizados.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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