Trabalho do romeno Matéi Visniec é sintetizado em peça teatral
A cena inicial de Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar, de Matéi Visniec, conquista o espectador. Nela, um bom diretor mostra o que pretende dizer com sua obra. É o que faz Rodrigo Spina à frente do grupo Os Barulhentos. Figuras trajando preto e outras cores escuras, manchados de fuligem, rostos pintados de branco carregado, como…

A cena inicial de Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar, de Matéi Visniec, conquista o espectador. Nela, um bom diretor mostra o que pretende dizer com sua obra. É o que faz Rodrigo Spina à frente do grupo Os Barulhentos. Figuras trajando preto e outras cores escuras, manchados de fuligem, rostos pintados de branco carregado, como máscaras, debaixo de uma luz crua.
Museu de cera de um universo arruinado, morto e distante. Tudo o que este aglomerado humano diz a seguir faz referência a situações individuais e coletivas ligadas à guerra, ao abandono, a perdas afetivas e ao risco nas fronteiras. Matéi Visniec embora relativamente jovem na perspectiva da História (nasceu em 1956) absorveu os efeitos das devastações na sua Romênia e expressa o que sabe ou presenciou diretamente numa linguagem repleta de metáforas. Elas refletem a longa provação imposta a um povo musical, de alma latina. País pequeno, cenário de invasões cruentas (romanos, mongóis, turco-otomanos).
Quando a paz do século 20 parecia possível, vieram duas guerras mundiais e a seguir a Cortina de Ferro, o stalinismo de Ana Pauker, uma das primeiras mulheres a exercer o poder com mão de ferro na Europa, ao pesadelo imposto por Nicolae Ceausescu, o que levou Visniec a se exilar na França. Em Paris, começou a revelar um teatro sobre a loucura ditatorial, em qualquer lugar, não só na sua terra. Alusões ideológicas e metáforas que o aproxima (tema, não estilo) dos romances do sérvio Danilo Kis, de Jardim, Cinzas ou do albanês Ismail Kadaré de O General do Exército Morto e, por fim, do teatro do checo Václav Havel.
A espetáculo reúne vários textos de Visniec na representação de bons intérpretes dentro de uma moldura de impacto: cenário e figurinos (Moshe Motta e Camila Fogaça), maquiagem (Domitila Gonzales) a iluminação (Lui Seixas). O que poderia resultar confuso é esclarecido graças à firmeza da direção na unidade audiovisual e coerência do fio narrativo. Nele, um general comanda soldados mortos que devem voltar a seus países.
Em seguida, os episódios se misturam, mas sempre ligados à sub-humanidade, quando pessoas solitárias ou perdidas não se entendem e franco-atiradores matam civis de qualquer idade. A violência física tem contraponto em outra, a da burocracia que impede uma mãe e seu filho de atravessarem a fronteira de regresso à casa. Não é, contudo, uma dramaturgia de terror. Visniec usa bastante o humor agressivo e Rodrigo Spina procurou um clima reconhecível. Estas assombrações não nascem de fábulas ou crendices.
Há um subtexto objetivo que ecoa o Oriente Médio em sangue, os miseráveis da África afogados no Mediterrâneo, os acordos de paz seguidamente rompidos e as ditaduras que se perpetuam. Este apocalipse real compõe uma marcha fúnebre com momentos de comédia grotesca.
A encenação tem o mérito de manter o realismo transfigurado em pesadelo com sentido crítico. A curiosidade é saber quais os próximos passos deste grupo talentoso. Porque o teatro parece sujeito a amnésias. Ciclicamente, estéticas e novas formas de representação predominam, depois somem. O polonês Jerzy Grotowski foi quase uma seita com seu teatro ritual de profunda introspecção. A onda seguinte trouxe o alemão Heiner Müller como um segundo Brecht. Agora, são as “novas teatralidades” (o cotidiano, a rua, a sujeira urbana, cinema e projeções dentro da representação).
Esqueceram Slawomir Mrozek (esteve no Brasil para a estreia de sua obra Tango, com Tereza Rachel e Jaime Barcelos). Não se nota interesse nos poloneses Witold Gombrowicz (e sua obra-prima Yvonne, Princesa da Borgonha) e Ignacy Witkiewicz. Todos são grandes ao sintetizarem a crise “da condição humana”, para se usar o velho clichê. São preteridos diante de modismos (um deles é quase só olhar para Londres e NY).
Rodrigo Spina caminha seguro no fio de navalha dos processos cênicos de outro polonês, Tadeusz Kantor, com seus atores parecendo marionetes ou mortos-vivos no extraordinário espetáculo A Classe Morta. Cães Vindos do Mar é brilhante. Impossível nomear os destaques no elenco. Se a função do teatro é surpreender, Os Barulhentos atingiram o alvo. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Posts Relacionados

Instituto Athlon representa São José em Mundial na Holanda

Europa concentra maior número de casos de violência contra brasileiras no exterior

Discurso de Lula na Avibras, em Jacareí, provoca crise diplomática com o Paraguai
