Tragicomédia “As Três Velhas” esconde temática redentora

Maria Alice Vergueiro, a Rainha do Undergound, participou de trabalhos no vanguardista Teatro Oficina, nos anos 1960. Alejandro Jodorowsky, cineasta e tarólogo, escreve histórias que provocam com o surreal e o místico. A peça “As Três Velhas”, escrita por Jodorowsky e dirigida por Maria Alice, realizada nesta sexta-feira (21) no Sesc São José dos Campos, tem a forma de comédia antropofágica tropicalista, mas esconde uma temática redentora.

Escrito por: Renan Simão2 min de leitura
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Daniel Grangheia e Luciano Chirolli (à direita) em cena da peça “As Três Velhas”

Divulgação

Maria Alice Vergueiro, a Rainha do Undergound, participou de trabalhos no vanguardista Teatro Oficina, nos anos 1960. Alejandro Jodorowsky, cineasta e tarólogo, escreve histórias que provocam com o surreal e o místico. A peça “As Três Velhas”, escrita por Jodorowsky e dirigida por Maria Alice, tem a forma de comédia antropofágica tropicalista, mas esconde uma temática redentora.

Tudo isso o público pode conferir neste sábado (22), às 20h, no Sesc São José dos Campos.  O valor da entrada varia de R$ 5 a R$ 25. Encenada pelo Teatro Pândega desde 2007 e voltando, pela primeira vez, após um ano sem apresentá-la, “As Três Velhas” fala da história tragicômica de duas velhas de 88 anos (Luciano Chirolli e Daniel Grangheia) vigiadas por uma governanta centenária (Maria Alice Vergueiro). As duas marquesas decrépitas vivem sob a égide da tradição dos Felícia, representada por lembranças recorrentes do pai carrasco já falecido, mas ainda presente no imaginário da família.

O humor é gerado por palavrões e ofensas de uma irmã a outra ou mesmo pela governanta que as recordam da vida fracassada que vivem –sem homem, sem glamour, sem dentes, com fome. Mas o riso vai aos poucos levando ao grotesco, estreitando ao limite da comicidade dos dramas dessas velhas que sofreram violência -de todas as formas- a vida toda. O humor é a piscadela de Jodorowsky e Maria Alice para o espectador. Nos faz a pergunta implícita: “Do que estão rindo mesmo?”

A partir daí, pode-se seguir por dois caminhos. O sociológico mostra a subserviência dessas mulheres em uma sociedade patriarcal que as reprime sexualmente desde os tempos de juventude. São estéreis, foram impedidas pelo pai de se encontrarem com homens. O lado psicológico recai, edipiano ao extremo, sobre uma das irmãs que fantasia sexualmente com o pai morto.

A degradação é total. O que resta? A anciã, que escancara os segredos da família e oferece uma alternativa improvável e redentora a essas mulheres esquecidas no tempo e à beira da morte. “Quando se regressa à origem, a morte é um batismo”, diz a velha. “Pensei que estava acabada, essa peça me fez voltar”, revela Maria Alice Vergueiro, 77 anos, com voz rouca e firme.

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