Conto: Meu Ícaro
Ali ele voava cercado por um azul infinito, preso entre a infinidade do céu e a profundidade do mar

Meu Ícaro construiu suas asas com penas que caem dos pássaros livres enquanto sobrevoam meus pensamentos. Ele as catou e, então, juntou todas, uma por uma, usando minhas vontades, minha voz, toda a minha paixão pela vida e as coisas que me cercam no mundo dos sonhos. Meu Ícaro subiu aos céus mirando nas nuvens que escondiam uma terra nova, cheia de aventuras como minhas primeiras vezes bebendo, rindo, beijando, chorando e declarando meu amor. Ali ele voava cercado por um azul infinito, preso entre a infinidade do céu e a profundidade do mar.
Dédalo, meu pai, voou ao meu lado por um tempo. Sempre ali, até que começamos a nos afastar. Quanto mais o tempo passava, mais o meu desejo de subir aumentava. E eu seguia minhas vontades, me distanciando cada vez mais de Dédalo, que já sabia sua rota e, por isso, não me acompanhava. Nas alturas, é difícil escutar sons; assim, nada do que meu pai me falava chegava até mim. Eu já nem mais ouvia sua voz quando vi o Sol…
O astro-rei pairava sobre a minha cabeça, iluminando meu caminho. Eu o amei no mesmo momento em que o vi. Ele sorria mesmo em dias escuros, reinando sobre os planetas e exercendo sua atração nos corpos das estrelas. Meu Ícaro conversava com a Lua quando a noite caia, mas foi pelo Sol que ele realmente se apaixonou. Perdido, distraído, encantado, exaltado. Tudo o que o Sol fazia com as flores que formavam os cachos no cabelo de Ícaro…
Meu Ícaro quis o Sol e, tomando toda a sua coragem, voou em direção a ele com o coração nas mãos, pronto para ser entregue como uma prova de amor. Ignorando mais uma vez os gritos de Dédalo e os conselhos das estrelas que rodeavam o rei, eu voei cada vez mais alto. Passei por pessoas com quem tive uma conexão absurda, coisa de vidas passadas, passei por sentimentos que eu nem sabia que podia sentir, ou ao menos despertar, e chorei tanto no caminho que minhas lágrimas formaram rios.
O calor do Sol era uma promessa. Nele eu estaria a salvo do frio da solidão, do abandono, do esquecimento e do pior de todos estes, o tédio. Ele me prometia vida. Meu Ícaro sentia o corpo em chamas, mas ele não sabia que a sensação antecederia uma dor intensa. O fogo imanente do astro corrompeu minha liberdade, derretendo as paixões que mantinham minhas asas juntas. Elas se desmancharam e foram levadas pelo vento enquanto eu caia em desespero.
Eu caí olhando para o céu. Me recusei a mirar o chão, ou quer fosse o mar que me serviria de túmulo. Em meu epitáfio, não teriam tristezas, pensei, pois não me arrependo de nada. Sei, ao menos, que vivi me permitindo tudo. Sei que me entreguei, continuava pensando, quis voar perto demais do Sol com asas cobertas de inocência, mas não chorarei mais pela queda. Só queria ter amado mais…talvez ter visto a Lua mais uma vez, pois não pude dizer tchau.
Meu Ícaro não foi visto mais. Quem o viu caindo, jurava que era um anjo sendo punido, mas nem desconfiam que é só mais uma jovem sentindo o peso do mundo, como Atlas, e então desmoronando por querer mais. Eu quero sempre mais, assim como meu Ícaro. As histórias contam que ele caiu no mar, se afogando no profundo e então afundando no universo escuro que o envolveu. Mas o que eles desconhecem é que, entre aquele azul infinito, havia uma ilha com duas estrelas que, adjunto da Lua sempre tão imortal, enfeitam o céu todas as noites. E eu juro que elas são os olhos mais lindos que eu já vi em toda a minha vida.
Com supervisão de Yeda Vasconcelos, jornalista do Meon Jovem.

1ª ano do Ensino Médio - Colégio Embraer Juarez Wanderley - São José dos Campos
