Na era da tecnologia, antigas profissões lutam para sobreviver
Como engraxates, relojoeiros e outros trabalhadores mantém o ganha pão no ritmo do século 21

Com o avanço da tecnologia, profissões que no passado eram tidas como essenciais, como leiteiro, sapateiro ou ferreiro, atualmente exigem destreza e, principalmente, coragem para continuarem existindo. Mesmo vistos como “mortos” pela maioria, alguns ofícios continuam com uma clientela fiel e dando um toque nostálgico nos centros urbanos.
Talvez a calma seja o segredo do relojoeiro de Cachoeira Paulista, João Duarte, 82 anos, para se chegar a esta idade com tanto vigor. Diariamente ele pedala mais de 20 minutos de casa até o boxe onde trabalha. Ao chegar à porta do estabelecimento, o relojoeiro repete o ritual matinal de tirar com cuidado os óculos escuros, descer da bicicleta, abrir a porta da lojinha e depois guardar a magrela em um lugar com um emaranhado de relógios e ferramentas.

Aos 82 anos, João Duarte trabalha com relógios em Cachoeira Paulista
Allan Torquato/Jornal Atos
Ainda jovem, Duarte aprendeu o ofício com o pai, e depois acabou se aprimorando com o auxílio de um antigo relojoeiro da cidade, que lhe deu a oportunidade de transformar o aprendizado em ganha-pão. Em meio aos alicates, pinças, chaves, máquina de lavar relógios, martelo, Seu João vai administrando o tempo como pode. A rotina de oito horas diárias de trabalho foi reduzida com o passar dos anos, a idade já não permite muitos esforços, afinal faz 28 anos que se dedica a função.
O tempo também foi o responsável em diminuir o trabalho do relojoeiro, antigamente tinha muito mais afazeres. “Agora tem a tecnologia e as pessoas já não tem mais apego às peças. O que mais faço aqui é limpeza das máquinas, tem relógios que não compensam ser arrumados, o povo prefere comprar outro”.
Mesmo assim, ele não acredita que o ofício vai acabar. Ele ressalta que mesmo com as adversidades, continuará até o fim da vida trabalhando neste ramo. “Se algum dia não puder vir mais aqui, faço o serviço em casa, mas não penso em deixar de fazer o que mais gosto nessa vida, que é trabalhar com o tempo”.
Pés
A profissão de engraxate existe há mais de cem anos, e chegou ao Brasil com a vinda dos imigrantes italianos para São Paulo. Com o passar dos anos, o número de profissionais foi aumentando e se espalhando por todo país. Em Guaratinguetá, Domingos Arruda, mais conhecido como Pipi, trabalha há mais de vinte anos. Com a face sofrida, mas de olhos azuis e brilho alegre, o engraxate conta que no passado havia mais concorrência e clientes.
“Hoje, é mais difícil, quase ninguém mais usa sapatos de couro e não precisam ser engraxados. Aqui na praça, somos só dois, mas já fomos mais de setenta. Mas ainda assim consigo tirar o meu sustento desse trabalho”, contou Pipi
Com uma jornada de 12 horas por dia, Pipi conhece todos que passam pela praça. Ele conta que além de clientes, são seus amigos e para guardar o material de trabalho o engraxate aproveita a amizade e coloca sua cadeira e equipamentos em um estacionamento próximo a seu ponto.
Sem precisar investir em marketing, Pipi é sempre indicado pelos amigos e conhecidos aos novos clientes que desejam um sapato limpo e brilhando. “Eu tenho orgulho do que faço e de todas as amizades que conquistei através dela”.

Seu Pipi trabalha em Guaratinguetá como engraxate
Claudia Turra/Jornal Atos
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