Pais que estão à frente da criação dos filhos contam as suas experiências
Especialista dá dica aos pais: “esteja lá”

Não basta ser pai, tem que participar. Essa frase nunca fez tanto sentido como nos dias de hoje na vida de muitas famílias.
Afinal, com a entrada da mulher no mercado de trabalho, a função paterna não é mais definida como antigamente, no qual o homem era o único responsável pelo sustento financeiro. Por conta disso, hoje, muitos deles estão participando ativamente da vida dos filhos, levando na escola, preparando comida, dando banho e colocando para dormir.
Um exemplo é o advogado André Luiz Coutinho, de 37 anos, pai de Letícia, 8 anos, e Lucca, 4 anos. Ele conta que a rotina é corrida, mas vale muito a pena. “Eu levo eles de manhã na natação alguns dias, depois a Letícia tem ballet e à tarde os dois vão para escola. Minha esposa Bethiza é dentista e atende em consultório até às 19h. Eu, como sou advogado, tenho mais flexibilidade de horários e consigo trabalhar em casa e ir às reuniões da escola. À noite, quando necessário, faço a comida deles e coloco para dormir”, contou.
André explica que a participação na rotina da família foi automática e natural, mas se sente abençoado. “Minha esposa está bem presente na criação das crianças, mas o consultório exige mais a presença dela. Me sinto um privilegiado em poder cuidar dos meus filhos todos os dias. É muito gostoso conviver mais com eles, ver crescerem e isso melhora demais a qualidade de vida. A figura masculina cuidando faz com que respeitem as tarefas, seja mais educados, mesmo sem a necessidade de uma bronca”, ressalta Coutinho.

Enquanto a esposa Bethiza trabalha, André fica com as crianças
Arquivo pessoal
Com uma rotina semelhante, o servidor público Luís Otávio Reis, 34 anos, tem o tempo contado para preparar o café da manhã e sair de casa logo cedo para levar o filho Raul, de 2 anos, na creche. Eventuais consultas médicas também são uma de suas responsabilidades.
À noite, o jantar fica por sua conta e o prato preferido do pequeno é arroz com legumes. Vanessa, a mãe de Raul, trabalha em uma empresa em Jambeiro e seus horários são restritos.
“Como a Vanessa sai antes de nós para ir trabalhar, eu fico responsável pelo banho do Raul, o café da manhã e de levá-lo na creche. Quando chego em casa à noite, eu faço o jantar para a mãe poder curtir um pouco ele, já que passou o dia todo longe”, explica Reis.
Segundo ele, em seu ciclo de amizades ele não é o único. Ele conta que tem outros amigos que também têm uma participação bem ativa e direta na criação e educação de seus filhos. Não somente pelo fato de as mães estarem inseridas no mercado profissional, não mais focadas exclusivamente nas atribuições domésticas, mas, pelo simples fato de terem feito a opção de assumirem a responsabilidade e o prazer da paternidade.
“Sem dúvidas os benefícios não são apenas para meu filho, mas para todos nós, pai, filho e mãe. Diante de erros e acertos, sou feliz e realizado na participação que tenho na vida do nosso Raul e espero continuar a exercer orgulhosamente a paternidade, como forma de agradecer a honra que sinto em ser pai”, declara.

Otávio leva o filho Raul todos os dias na creche
Arquivo pessoal
Outro exemplo é o analista de sistemas Leandro Aparecido Conejo Gimenes, 36 anos, que mora em Jacareí com sua mãe, um irmão e seu filho, Miguel, de 5 anos. Ele ficou com a guarda do menino desde a separação, há 3 anos.
“Eu e Miguel somos muito grudados, sou o pai e também assumi no dia-a-dia o papel de mãe. Quando estou com ele tento entrar em seu mundo: jogamos vídeo game, assistimos desenho juntos, dou banho, arrumo a roupa para ir à escola. Normalmente, ele não gosta de ir pra escola de carro, então levo de bicicleta, pois ele gosta de ir cantando música ou contando histórias. Procuramos fazer as alimentações sempre juntos e inseri-lo também na minha rotina. Toda noite rezamos antes de dormir”, conta o pai, que faz questão de levar o filho à missa aos domingos.
Gimenes explica que os homens têm que entender mais sobre ser pai, quebrar o paradigma de que a mãe tem que fazer tudo.“Eu acho que temos que ser pais presentes em todos os momentos do filho. Não é só sustentar e cuidar, é dar carinho e amor. Estou sempre aprendendo com ele, das coisas mais complexas até as simples, como levar ao médico, escolher o shampoo ideal, entender a numeração de roupas”, ressalta.

Desde os 2 anos Miguel vive com o pai, após a separação do casal
Arquivo pessoal
Papai é Pop
Marcos Piangers, autor do best-seller ‘O Papai é Pop’, ficou famoso após dar palestras sobre o tema da paternidade. Ele, que tem mais de 1 milhão de seguidores no Facebook, também concorda com essa mudança de papéis dentro das famílias atuais e acredita que cada vez mais surgirão configurações diferentes da família tradicional.
Segundo ele, aquele pai antigo é a imagem tradicional de família vem de 70 anos atrás, da época do pós-guerra, em que a família americana idealizada era composta por uma mulher que cuidava das crianças e da casa, enquanto o marido era um mero pagador de contas.
“Já percebemos que as mulheres podem e devem se realizar profissionalmente. Agora, precisamos lutar para que os homens se realizem no ambiente familiar também. Acredito que ser pai é estar lá, disponível, prestando atenção no seu filh. Humildemente aprendendo e disposto a se desconstruir para ser reconstruído como homem, marido e um pai melhor”, disse em entrevista ao Meon.
Piangers dá palestras pelo mundo inteiro sobre ser pai e sempre conta histórias próprias das filhas Anita e Aurora. Para ele, os desafios modernos da paternidade são o uso excessivo das tecnologias e a falta de tempo que os pais apresentam.
“Existe uma dificuldade moderna em estar realmente no lugar que você está. Estamos sempre separados por telas, iPad, celulares, computadores. É importante perceber e valorizar o tempo junto de fato. Um pai participativo melhora a vida da esposa, permite que ela se realize profissionalmente, melhora o seu casamento, melhora a vida da criança que tem um pai e uma mãe referências de proteção e guias e, sem dúvida nenhuma, melhora sua própria vida. Um homem que cuida se torna mais sensível. Um pai participativo se torna um homem, um marido e uma pessoa melhor”, ressalta.
Em comemoração ao Dia dos Pais, Piangers deixa uma mensagem aos papais de primeira viagem para que não tenham medo. “Não se preocupe com dinheiro, se preocupe com o tempo disponível para o seu filho e a sua família. Um filho não se importa com o apartamento que você mora, com o carro que você tem, com a qualidade da sua creche. Um filho se importa com a sua atenção. Um filho se importa se você realmente está lá com ele, prestando atenção no que ele faz e diz”, acrescenta.
Licença paternidade
Apesar de todas as mudanças comportamentais em relação à paternidade, a legislação ainda não ajuda muito quando se trata da licença paternidade. Enquanto a mãe tem 120 dias de afastamento da função profissional para cuidar o bebê –algumas empresas já dãos os seis meses de afastamento–, o pai recebe apenas cinco dias.
Os Estados Unidos é um dos países com piores condições para as mães, pois não se mantém a remuneração durante a licença maternidade de doze semanas. Mas, a licença dos pais é de acordo com leis estaduais. Somente 14 estados e o distrito de Columbia têm leis que garantem ajuda aos pais.
Na Espanha, as mães desfrutam de 16 semanas de licença e os homens somente tem duas semanas. No caso da França, as mães têm 112 dias após o parto, mas os homens somente desfrutam de duas semanas. No caso da Itália, as mães têm 154 dias e os pais 91.
Na Argentina as mães têm 12 semanas de licença, mas os pais não podem desfrutar de nenhum dia de licença pelo nascimento do seu filho. Já no o México, a lei garante 25 dias de licença aos pais.
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