Paranga e a missão de cantar Elpídio dos Santos

“Minha vida é Elpídio, depois sou eu”, decreta Negão dos Santos, filho do compositor Elpídio dos Santos no camarim do Teatro da Univap. Negão, violeiro, está com sua família, o Grupo Paranga. A esposa Renata Marques canta junto com a filha do casal, Lia Marques, e João Gaspar, violonista, é considerado “filho musical” pelo grupo por tocar com o trio desde criança.

Escrito por: Renan Simão3 min de leitura
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“Minha vida é Elpídio, depois sou eu”, decreta Negão dos Santos no camarim do Teatro da Univap, em São José dos Campos. Negão, violeiro, fala do intenso trabalho de reinterpretar as canções do pai, o compositor Elpídio dos Santos, em diversos projetos há décadas. A maior homenagem foi o DVD “Tributo a Elpídio Santos”, de 2009, que levou Zé Geraldo, Fafá de Belém, Renato Teixeira, Zeca Baleiro, entre outros, a cantar Elpídio em seu centenário, no coreto Elpídio dos Santos, em São Luiz do Paraitinga.

Negão está com sua família, justamente o Grupo Paranga, prestes a fazer uma aula-show para a abertura do primeiro semestre da Faculdade da Terceira Idade da Univap. A esposa Renata Marques canta junto com a filha do casal, Lia Marques, e João Gaspar, violonista, é considerado “filho musical” do grupo por tocar com o conjunto desde criança.

Na apresentação, o quarteto homenageia a parceria entre dois grandes nomes da cultura do Vale do Paraíba: Elpídio dos Santos e o cineasta Amácio Mazzaropi. Elpídio era amigo de Mazzaropi desde meados dos anos 1950 e compôs músicas para as trilhas sonoras do artista paulistano radicado em Taubaté, contribuindo para a popularização do homem rural e da canção de São Luiz do Paraitinga, Taubaté e região.

O Paranga, no entanto, destaca, em clima de conversa, que a canção de Elpídio não é “apenas” a trilha para os personagens rurais de Mazzaropi, como o Jeca Tatu. “Elpídio teve a primeira música brasileira tocada na rádio da BBC de Londres [interpretada por Cascatinha & Inhana], são 25 músicas em 19 filmes de Mazzaropi, é tocado em orquestra de violas, tocava choro, música instrumental, samba paulista, samba do Rio”, diziam os quatro sobre cada virtude do luizense, quase sincronizados.

Negão lembra que Elpídio sempre foi bancário e não vivia do trabalho com a música, compunha de madrugada depois do expediente. “Minha mãe me falava que ele estava sempre inspirado, só que ele trabalhava oito horas por dia. Aí ele compunha, chamava os filhos, gravava, fazia o coralzinho. Aí no outro dia ligava pro Mazzaropi”, conta Negão.

Essa espontaneidade era comum na relação entre músico e cineasta, segundo Negão, e rendeu canções como “A Dor da Saudade”, trilha do filme “Casinha Pequenina” (1966), e “Jóia do Sertão”, do filme “Zé do Periquito” (1960), ambas interpretadas pelo Paranga na aula-show.

“A Vó Nira [Cinira dos Santos, esposa de Elpídio] contava que depois que o Mazzaropi começava a filmar, mudava tudo, porque era o diretor, o roteirista, era tudo, e falava: ‘Ô Elpídio, dá para você fazer uma música para mim?”, e “ele adaptava tudo no filme por causa da música”, conta Renata.

Legado
Descendente de um dos maiores nomes da música da história do Vale do Paraíba, o Paranga afirma que homenagear Elpídio não é um fardo, mas uma missão, e avalia outras maneiras de relembrá-lo. Negão conta que conversa com Gabriel Guedes, filho de Beto Guedes, ex-Clube da Esquina, para interpretar o cancioneiro de Godofredo Guedes, “um outro Elpídio, lá de Minas”, diz ele.

“Tem um amigo meu argentino que falou de um filho de um cara que tocou com a [cantora argentina] Mercedes Sosa. Já imaginou Elpídio e Mercedes Sosa?”, sorri Negão.

O Grupo Paranga existe desde o começo dos anos 1980, gravou seis álbuns com músicas próprias e prepara para o início de 2015 um novo registro de marchinhas carnavalescas, compostas por Negão dos Santos.

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