Prefeitos tatus

A região do Vale do Paraíba é prodiga em criar personagens folclóricos. Talvez herança de uma cultura formatada no caipirismo. Tenho percebido ultimamente um tipo interessante de gestor público: o executivo tatu. Parece piada, mas não é.

Escrito por: Meon Redação3 min de leitura
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A região do Vale do Paraíba é prodiga em criar personagens folclóricos. Talvez herança de uma cultura formatada no caipirismo. Tenho percebido ultimamente um tipo interessante de gestor público: o executivo tatu. Parece piada, mas não é.

Há muitos prefeitos que ficam tão escondidos e entranhados nos palacetes que parecem personagens fictícios, com a incumbência de administrar os interesses das comunidades que confiaram a eles a grande responsabilidade de zelo pelo bem comum, essa palavrinha tirada do dicionário da ciência política que tudo tem a ver com a qualidade de vida de todo e qualquer individuo.
Alguns inquilinos, talvez com o estigma da realeza colonial ou de qualquer outro tempo além-mar, se recusam a dar as caras ao público, fazendo de sua representação uma autoflagelação, inflamada toda vez que ouve qualquer crítica ou repreensão pública. Detestam o povo e teme a sua espontaneidade. São nojentos.

Outros mais sagazes na arte da camuflagem política, delegam a serviçais mais próximos a responsabilidade de interagir com a comunidade, blindando, como os primeiros, as suas identidades como gestores escolhidos. Esses dois tipos são muito próximos daquilo que chamo de prefeitos tatus. Vivem entocados. Incomunicáveis. Inalcançáveis. A razão? Somente a consciência de cada prefeito tatu pode apresentar justificativas plausíveis.

Mas nós, eleitores, podemos deduzir uma coisa interessante: na verdade, esses gestores se escondem porque têm consciência de que o procedimento político (eleições) que os legitimou foi quase todo marcado por questionamentos jurídicos e morais. Ou seja, incorreram num erro primário no processo mercantil: venderam um produto que não puderam e não podem entregar. Enganaram o eleitor. Enganaram o povo.

Daí a opção pelo ostracismo. Pela toca. Pela redoma. Têm vergonha de si mesmos e daqueles eleitores e cidadãos que um dia confiaram em seus de projetos fictícios e mentirosos. Propaganda eleitoral. Tudo em nome de siglas e amontoados desprovidos de consciência de realidade da população. Daí as recorrentes notícias sobre corrupção, desvios de verbas públicas, superfaturamento de bens e serviços, prestação de serviços duvidosos na saúde, na merenda, no asfalto, na compra da lagosta e do caviar.

Então, infelizmente, só sobra uma alternativa para que esse povo ludibriado pelo falso discurso possa mostrar seu descontentamento: a revanche. Não aquela de barbárie como temos visto nas mídias recentemente. Mas aquela civilizada e ordeira. Se nós, povo, fomos tapeados, temos que dar o troco nas próximas eleições e criar condições para esses hominídeos com carapaça nunca mais tenham condições de se apresentarem para nós como lideranças. Até porque mesmo que a toca seja confortável e pródiga em facilitar favores, merecem o nosso desprezo e repugnância pela ausência de liderança e hipocrisia de projetos. E junto a tudo isso, a certeza de que a nossa memória coletiva será de negação. De anulação da sua existência política.
E no Vale do Paraíba eles, os prefeitos tatus são muitos.

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