Prevenir o quê, se a morte é certa?
Se aos 80 anos eu puder viver minha vida com total independência e autonomia, já me dou por satisfeito


Tem sentido pensar em viver sadio e morrer sadio?
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Caro leitor, neste artigo vamos falar sobre cuidados preventivos. Prevenir o quê, se a morte é certa? Tem sentido pensar em viver sadio e morrer sadio? Sim, é claro.
Há hábitos de risco, insensatos, que apressam o aparecimento da doença, da incapacidade, da dependência e outros que retardam seu aparecimento. A resultante desses cuidados é um aumento da possibilidade de usufruir cada fase da vida em sua plenitude. Não estou falando de ser jovem aos 80 anos, não, afinal aos 80 anos, muitas reservas já se foram, mas se aos 80 anos eu puder viver minha vida com total independência e autonomia, já me dou por satisfeito.
Alguns cuidados estão consagrados, outros estão no campo da especulação, não dispõem de comprovação científica séria até o presente.
• Alimentar-se bem, pouca quantidade, muita qualidade, com uma dieta rica em vegetais, colorida, bonita. Proteína animal na quantidade adequada para a fase da vida – mais na juventude, menos na velhice.
• Exercícios físicos contra resistência, buscando a manutenção da força muscular
• Atividade aeróbica por pelo menos 30 minutos por dia, como uma caminhada ou natação (leia ArchIntern Med2012 Sep 24; 172:1333)
• Sono regular
• Não fumar. Se beber, que seja com moderação e, caso se exponha ao sol, use protetor solar.
Até aqui, garantimos o básico. Acontece que nosso conhecimento foi além e nos ensinou a tratar de questões que encurtariam nossa vida por motivos genéticos. Então, controlar a pressão arterial, a glicemia, o colesterol e o peso fazem uma grande diferença, ao reduzir complicações, principalmente no sistema cardiocirculatório. A definição de quais atividades preventivas são adequadas para você, e qual a frequência que devem ser monitoradas, é assunto para sua consulta periódica com seu médico. Quem faz esse trabalho, em geral é o ginecologista, para as mulheres em fase reprodutiva, o cardiologista, o urologista ou o clínico geral, para o homem e o clínico geral ou o geriatra, para o idoso.
Outras questões que frequentemente vêm à baila quando falamos em prevenção são as terapias antioxidantes, as vitaminas, a reposição hormonal (estrógeno para as mulheres, testosterona para os homens), etc. Quanto aos antioxidantes, é disso que falamos quando orientamos em relação à alimentação, exercícios físicos, sono ou exposição solar. A reposição de antioxidantes com remédios, vitaminas e minerais, porém, não se justifica.
Quanto aos hormônios, a reposição de estrógeno na mulher só é recomendada se o quadro vasomotor for demasiadamente intenso. Num estudo extenso (Women’s health initiative – WHI), observou-se que a reposição de estrógeno e progesterona conseguiu reduzir algumas doenças (fraturas, câncer de cólon), mas aumentou outras (infarto do miocárdio, derrames, câncer de mama), aumentando a mortalidade geral. O estrógeno sem a progesterona também não conseguiu se justificar – há formas menos arriscadas de se evitar fraturas.
No homem, discute-se se há justificativa para repor a testosterona se os níveis séricos forem baixos e as queixas principais do paciente forem relacionadas a essa deficiência hormonal (queixa de queda da libido, fraqueza muscular e fadiga). O consenso, por ora, é que essa reposição causa mais mal do que bem. Também não se recomenda a terapêutica hormonal para tratar depressão, baixa energia ou sintomas decorrentes do envelhecimento. A dihidroepiandrosterona (DHEA) vai pelo mesmo caminho, sem indicação para “tratar” o envelhecimento (leia N Engl J Med 2006 Oct 19; 355:1647-59). Como você vê, em saúde não adianta inventar moda. No próximo artigo, vamos falar um pouco mais sobre o WHI – imperdível.
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