Progresso vs Civilização – Uma Carta aos Joseenses
Eu era muito novo quando me mudei para São José dos Campos, em 1997, acompanhando minha família, que deixava São Paulo em busca de novas oportunidades e de qualidade de vida. Naquele ano, a cidade que nos acolheu e tornou-se verdadeiro lar para nós, como para tantos outros, já detinha o prestígio de um perfil exemplar em crescimento ordenado, sustentável e dotado de progresso inteligente.

Eu era muito novo quando me mudei para São José dos Campos, em 1997, acompanhando minha família, que deixava São Paulo em busca de novas oportunidades e de qualidade de vida. Naquele ano, a cidade que nos acolheu e se tornou verdadeiro lar para nós, como para tantos outros, já detinha o prestígio de um perfil exemplar em crescimento ordenado, sustentável e dotado de progresso inteligente. De lá pra cá, a partir de boas escolhas adotadas por seus gestores públicos, São José melhorou e cresceu.
Nos últimos dias, um assunto em especial dominou as conversas cotidianas dos joseenses: o interesse do grupo empresarial World Trade Center (WTC) em adquirir um grande terreno na zona oeste da cidade, na Av. Cassiano Ricardo, e ali criar um poderoso complexo comercial. Esse empreendimento fortaleceria, mais ainda, o lugar de São José no seleto grupo de cidades preparadas para receber grandes empresas, indústrias, eventos de projeção regional, nacional ou mesmo internacional.
A notícia gerou considerável polêmica entre aqueles favoráveis e aqueles contrários ao projeto. Para alguns, alavancará o progresso da cidade, com geração de empregos, atração de mais investimentos e maior visibilidade da Capital do Vale; para outros, trará consequências amargas, e talvez irreversíveis, como aumento do já complicado trânsito na região, a possibilidade de aprofundamento da desigualdade entre as regiões da cidade, crescimento desordenado e, o mais danoso, o rompimento da civilidade, que são as práticas de bom convívio, respeito mútuo e consideração entre os cidadãos de um determinado lugar, e que São José vinha conquistando muitíssimo bem nos últimos anos.
Crescer por crescer é uma armadilha, em certa medida, sendo o principal pecado de grandes centros urbanos na atualidade, que são atrativos em determinados momentos, mas não sabem conciliar tal vantagem com a manutenção do bem-estar de sua população. Isso se dá quando aqueles que tomam a decisão final estão mais preocupados com a euforia momentânea de crescimento [da cidade e de seu próprio prestígio, principalmente] e não estão ou não querem estar preparados para lidar com o que vem depois. A cidade de São Paulo é um claro exemplo deste equívoco de crescer por crescer. Hoje, perde muito de suas qualidades devido a todos os problemas que vêm com o caos urbano. Não podemos permitir que São José tenha tal euforia momentânea, deixando para nossos filhos e netos uma cidade destruída e sucateada. São José precisa continuar, sempre, sendo uma cidade modelo, com sustentabilidade e qualidade de vida para todos os seus cidadãos.
O prefeito Carlinhos Almeida está trabalhando arduamente nos últimos dias para aprovar mudanças nas leis de zoneamento da cidade em tempo recorde, especialmente da área que o WTC quer comprar para construir seu empreendimento. Tal pressa, entretanto, contorna procedimentos legais necessários para aprovar a mudança e deslegitima a vontade popular de escolha por não oferecer informações nem tempo suficientes para a conscientização acerca do projeto. Além disso, as intenções do prefeito devem ser analisadas e questionadas de perto, para que a decisão seja tomada pela população. Obviamente, a cidade está aberta a investimentos e todo mundo quer que São José cresça, mas que seja um crescimento planejado e sustentável, um progresso bem-vindo que contribua para a cidade e seus habitantes. Nesse sentido, devemos realizar o exercício de nos questionar sobre esse projeto e também conhecê-lo muito bem. Ele realmente contribuirá para com o progresso da cidade? Se a resposta for sim, não haveria em São José outras áreas que possuam também amplos terrenos já no perfil de urbanização necessário para a construção do WTC, como nas zonas leste ou norte? Essas outras áreas não seriam mais beneficiadas, econômica e socialmente, com o empreendimento, valorizando o bairro e trazendo novos investimentos às localidades, melhorando diretamente a qualidade de vida de seus habitantes? Outras regiões não seriam mais adequadas por estarem mais próximas à Via Dutra, a centros de compras, ao Aeroporto e à Rodoviária? São questionamentos válidos e que devemos fazer a quem quer que tal megaempreendimento seja construído a qualquer custo.
A Prefeitura convocou a população para cinco audiências públicas, que começaram anteontem, dia 24, já marcadas por dúvidas não esclarecidas, confusões e protestos. Nessas consultas, a prefeitura tem a intenção de explicar aos cidadãos diversos pontos acerca do projeto do WTC, e depois encaminhará para votação na Câmara de vereadores. Entretanto, um cenário obscuro se instala quanto ao projeto, inclusive para os próprios vereadores, que não têm clareza sobre o empreendimento, em termos técnicos e substanciais. Da mesma maneira, a população não detém a informação necessária para participar de uma consulta qualificada. A ampla divulgação das consultas, igualmente não realizada, é prevista e exigida pela lei do Plano Diretor da cidade. Somente após a liturgia legal, rito previsto para alterações de Leis Complementares, a exemplo da estipulação de zonas urbanas, qualquer mudança pode ser aprovada ou realizada pelos nossos representantes na Câmara Municipal.
Devemos ainda nos perguntar: qual é a real motivação desse atropelamento de procedimentos legais que a Prefeitura está fazendo? Será que tais ações, como a vinda do WTC nesses termos, não abrirão precedentes para uma enxurrada de situações que levarão São José ao caos urbano? Questionar é um dever dos cidadãos, e difundir essa reflexão na sociedade é meu objetivo com essa carta.
Assim, reforço a necessidade de refletirmos quanto às várias dúvidas que envolvem o projeto do WTC em São José, demandando mais tempo, se necessário, para decidirmos se abriremos as portas de nossa casa a quem mal conhecemos. Conclamo que participemos das consultas com o maior vigor e comprometimento que devemos ter como cidadãos, a fim de não nortearmos nossa cidade na direção oposta à civilidade, usando do falso progresso como justificativa barata para crescer a qualquer custo. Falando como um joseense de coração que sou, acredito nos meus conterrâneos e em sua capacidade de tomar a decisão certa para que continuemos orgulhosos de pertencermos a nossa querida São José dos Campos.
* opinião escrita por Vitor Hugo Dahlstrøm Mendes, bacharel em Ciências Políticas pela UnB
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