“Até para dormir está difícil”

Aluna vítima de assédio na Univap quebra o silêncio sobre o incidente

Escrito por: João Pedro Teles5 min de leitura
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Universitária agora pede informações
para registrar boletim de ocorrência

Priscila Gomes/Meon

Sem conseguir dormir à noite, saindo de casa só acompanhanda e indo ao curso de arquitetura apenas quando é estritamente necessário. Essa é a rotina de uma das duas alunas de arquitetura que sofreram uma tentativa de crime sexual dentro do ônibus circular do campus Urbanova da Univap (Universidade do Vale do Paraíba).

Onze dias após o incidente, a estudante -que prefere não se identificar- quebra o silêncio e explica o que aconteceu, fala sobre a dificuldade de obter informações para registrar o boletim de ocorrência e afirma que o mesmo motorista é alvo de reclamações de outras universitárias da Univap.

O que aconteceu enquanto você pegava o ônibus da Univap na segunda-feira (17)? 
O motorista desviou o caminho enquanto estávamos dando a volta na faculdade com destino ao prédio da arquitetura. Depois de parar em uma área afastada e escura, ele simplesmente apagou todas as luzes, enquanto estávamos apenas eu e uma amiga no ônibus. Quando ela perguntou o que estava acontecendo, ele respondeu que iria nos levar no “matinho”. O motorista não estava brincando, falou muito sério. Estávamos na terceira fileira de trás para frente. Minha amiga levantou para falar com ele enquanto eu tentava encontrar a alavanca de emergência para pular a janela do ônibus. Quando o motorista fez menção de se levantar para ir até onde a gente estava, alguns meninos passaram e ele mudou de idéia. Aí disse “não vai dar não”, ascendeu as luzes do ônibus e voltou ao curso normal.

E como foi o caminho até o prédio da arquitetura depois do incidente?
O motorista fez todo o caminho rindo na nossa cara, perguntando se a gente tinha acreditado mesmo que ele ia fazer alguma coisa. Quando desci do ônibus minhas pernas estavam bambas e quase caí de tão nervosa. No dia seguinte escrevemos um depoimento sobre o ocorrido para o chefe da segurança, que inclusive nos atendeu muito bem. Ele nos prometeu falar com a empresa que presta o serviço de transporte e conseguir o nome completo do motorista para que a gente pudesse fazer um boletim de ocorrência.

Já conseguiu fazer o boletim de ocorrência?
Ainda não, porque não recebi nenhuma ligação até agora [a entrevista foi concedida na quinta-feira (27) às 14h]*. No dia do depoimento deixei meu telefone com o chefe da segurança que, faço questão de reforçar, foi muito atencioso. Mas a única informação que recebi foi o primeiro nome do motorista. Mas o que eu faço com o primeiro nome? Vou à Delegacia da Mulher e digo que o Fulano me assediou? Não vou conseguir nada assim. Estou tentando exercer meu direito, mas sem os dados não adianta.

A Univap te procurou após o incidente?
A Univap em si não nos procurou. Mesmo tendo o nosso telefone ninguém perguntou se eu precisava de alguma coisa. Não nos deram assistência nenhuma. A universidade inteira já sabia do acontecido, mas da direção não tive sequer uma ligação. O mínimo que eles poderiam fazer era nos perguntar se estávamos bem.

E o que você pretende fazer agora?
Eu não quero ficar remoendo qualquer situação, a única coisa que quero no momento é fazer um boletim de ocorrência contra o motorista para ele pensar no que fez. Para ele ficou muito fácil: agora sai da Univap, continua a vida enquanto quem fica com esse trauma somos nós, que por pouco não fomos violentadas. Não sei ainda se vou procurar ajuda fora da faculdade, como uma psicóloga por exemplo. Não gosto de me abrir para estranhos, prefiro conversar com meu namorado e minha família.

Após o ocorrido, você chegou a ouvir mais reclamações sobre a atitude desse mesmo motorista?
Depois que os alunos ficaram sabendo do que aconteceu dentro do ônibus, muitas meninas vieram reclamar comigo do mesmo motorista. Mas ninguém teve coragem de ir até a secretaria fazer uma denúncia. Em um dos casos, a aluna me confessou que ele olhou pra ela e disse, “só te dou carona porque você rebola bonito”. Não sei se ele era substituto ou quanto tempo ficou lá, mas com certeza não fui a única a sofrer com esse senhor.

O que mudou na sua rotina desde o incidente no ônibus?
O que mais incomoda são as pessoas me olhando, sentindo pena e me dizendo como eu deveria ter agido naquele momento. Depois do ocorrido não saio mais na rua sem o meu namorado ou meu pai. Não consigo, de jeito nenhum, entrar em um ônibus da faculdade e estou indo bem pouco para a Univap, só quando preciso muito mesmo. Até para dormir está difícil. Acordo de madrugada e não consigo pegar no sono, com medo de que aconteça qualquer coisa. Acho que a Univap está tentando diminuir o que aconteceu, omitindo informações e não oferecendo sequer uma assistência, mas para mim é um problema muito sério.

Como a sua família reagiu quando ficou sabendo?
Meus pais ficaram muito nervosos. Meu pai em especial quis ir para a faculdade conversar com os diretores do curso, mas preferi que não interferissem. Meu pai é comerciante, vive com muitas coisas na cabeça e eu não queria ser mais um problema. Prefiro resolver sozinha.

* De acordo com a estudante, a Univap entrou em contato por volta das 19h desta quinta-feira (27), pouco depois da reportagem do Meon acionar a assessoria de imprensa da universidade.

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