Vítima de assédio em ônibus, aluna acusa Univap de omitir informação
Estudante quer registrar BO, mas ainda não recebeu o nome do motorista


Depois do ocorrido, universitária tem
problemas até para dormir
Priscila Gomes/Meon
Após sofrer assédio e tentativa de crime sexual dentro de um ônibus circular do campus Urbanova da Univap (Universidade do Vale do Paraíba) em São José dos Campos, uma das duas vítimas acusa a universidade de negligência no caso. Onze dias após o episódio, que aconteceu no último dia 17, a estudante não fez boletim de ocorrência porque a instituição ainda omite o nome completo do motorista responsável pelo incidente.
O profissional da empresa Braga Turismo, que presta serviço para a Univap, desviou o caminho do veículo enquanto somente as duas alunas de arquitetura estavam no ônibus, parou em um local deserto e apagou as luzes, afirmando que as levaria para o “matinho”. A ação só terminou depois que alguns garotos passaram pela estrada de terra próxima ao local e inibiram o motorista, que ligou novamente as luzes e voltou ao itinerário normal avisando: “desta vez não vai dar”.
Em entrevista ao Meon, uma das alunas -que prefere não se identificar- afirma que, após registrar por escrito o ocorrido, pediu ao chefe de segurança da universidade que lhe passasse o nome do motorista. Depois deste contato, que aconteceu no dia 18, a aluna não foi mais procurada pela universidade.
“No dia do depoimento [dia 18] deixei meu telefone com o chefe da segurança que, faço questão de reforçar, foi muito atencioso. Mas a única informação que recebi foi o primeiro nome do motorista. Mas o que eu faço com o primeiro nome? Vou à Delegacia da Mulher e digo que o Fulano me assediou? Não vou conseguir nada assim. Estou tentando exercer meu direito, mas sem os dados não adianta”, reclama.
De acordo com a presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São José, Simone Maria Gomes Mendes, a estudante tem razão em solicitar à Univap os dados do motorista. Segundo a advogada, os dados são importantes para que o BO seja registrado na Delegacia de Defesa da Mulher.
“Sem o nome fica muito difícil fazer o registro. E o boletim de ocorrência é o ponto de partida para que um inquérito policial seja instaurado. A instituição precisa oferecer essa assistência à aluna, pois houve claramente uma tentativa de crime sexual e isso é um evento grave que, de forma alguma, pode passar despercebido”, explica.
Trauma
O incidente deixou marcas na rotina da aluna de arquitetura. Depois da ameaça do motorista, a universitária tem problemas para dormir, evita ir à faculdade e sai de casa apenas na companhia do pai ou do namorado. Entrar de novo em um ônibus circular da Univap, nem pensar.
“Acordo de madrugada e não consigo pegar no sono, com medo de que aconteça qualquer coisa. Acho que a Univap está tentando diminuir o que aconteceu, omitindo informações e não oferecendo sequer uma assistência até agora [a entrevista foi concedida na quinta-feira (27) às 14h]*. Mas para mim é um problema muito sério”, afirma a estudante, após dizer que já havia sido vítima de assédio quando tinha apenas 12 anos.
Outro lado
Por meio de nota, a assessoria de imprensa da Univap afirma que todos os procedimentos de atendimento, levantamento de informações e apuração dos dados referentes ao caso em questão, estão sendo encaminhados pela direção da universidade e ainda não foram concluídos.
A nota ainda afirma que “as informações têm como base os depoimentos registrados de próprio punho pelas alunas, onde o caso sequer foi configurado como assédio sexual”.
Já a Braga Turismo instaurou uma investigação interna para apurar o caso e afirma que o motorista em questão não atua mais na Univap.
Negligência
Para a aluna, o fato de não escrever um termo específico no depoimento para a Univap não diminui a gravidade do acontecimento. De acordo com ela, eximir o teor de tentativa de crime sexual do episódio seria uma negligência da instituição.
“Isso é ridículo. Então vão diminuir a denúncia só porque eu não usei este ou aquele termo? E o que eu disse sobre o que aconteceu, não vale?”, indaga.
* De acordo com a estudante, a Univap entrou em contato por volta das 19h desta quinta-feira (27), pouco depois da reportagem do Meon acionar a assessoria de imprensa da universidade.
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