Revoluções Musicais do Século XX: As gerações do hard-rock e os festivais engajados

Enquanto os mega-astros praticamente monopolizavam a indústria – junto às estéticas futuristas dos new romantics –, nascia a quarta geração do rock, o heavy-metal, que, unido ao hard-rock, tomaria de assalto o cenário da época.

Escrito por: Meon Redação6 min de leitura
fundo_placeholder-023136

Enquanto os mega-astros praticamente monopolizavam a indústria – junto às estéticas futuristas dos new romantics –, nascia a quarta geração do rock, o heavy-metal, que, unido ao hard-rock, tomaria de assalto o cenário da época. Este gênero mais enérgico e sólido, com base nas guitarras (influenciado por The Who, Hendrix, Cream e Led Zepellin), começou a exalar seu veneno no final da década de 1970 – embora ganhasse maturidade somente nos anos 1980.

Seu público era formado, primeiramente, por jovens brancos, politicamente alienados, oriundos de classes operárias, que se identificavam com canções de poder, energia, hedonismo, narcisismo e risco – em meados da década de 1980, ainda haveria uma grande expansão desse público, englobando de pré-adolescentes a pessoas na faixa dos trinta anos.

Neste período, bandas de hard-rock (como Van Halen) introduziam teclados e sintetizadores à sua música – embora as guitarras ainda mantivessem a soberania sonora ao lado dos vocais. No início da carreira, esses grupos refletiam um modelo mais simples, mas com influência do punk e da música erudita, o hard-rock (e o heavy metal) tornou-se mais desafiador e técnico. A partir disso, os vocalistas passariam a implementar posturas mais agressivas e modos de se vestir mais ousados, influenciados pelo glam-rock.

Na Inglaterra, a banda metal Black Sabbath seria a primeira a transmitir conceitos de sacrifício, morte, demônio e ocultismo. Em meados dos anos 1970, o Judas Priest acelerava ainda mais as músicas, acrescentando uma segunda guitarra e adotando o visual de motoqueiro, usando roupas e botas de couro. O Iron Maiden (nome de um instrumento de tortura medieval) daria sequência a esses motes mais obscuros, citando temas como juízo final e criando imagens de anti-Cristo.

Nos EUA, o Van Halen, numa pegada mais hard-rock, trazia o exibicionismo performático de David Lee Roth e o domínio das guitarras de Eddie Van Halen, inaugurando o virtuosismo técnico como prioridade para futuros guitarristas – sempre haveria, na verdade, entre os músicos de hard-rock e heavy metal, uma constante preocupação com o domínio técnico.

Em Los Angeles, apareceriam bandas como Motley Crue, Quiet Riot e Guns’n’roses – fundindo hard-rock com blues. Outro estilo de heavy metal a herdar forças do punk seria o speed metal. O Metallica, exemplo mais bem-sucedido do gênero, combinava um trabalho exímio de guitarras (no uso intenso de arpejos) com bases rítmicas frenéticas, tão rápidas quanto precisas.

Muitos críticos da época descreviam o heavy metal como um ritmo improdutivo, desmedido, sem sentido. Diziam que, com as instituições sociais, a economia e os empregos em forte queda nos anos 1970 e 1980, seria natural que um estilo musical refletisse a desilusão, o medo e a impotência da sociedade americana. A juventude, por sua vez, buscava sua identidade e seu poder perante um mundo mais vulnerável e desprotegido.

OS FESTIVAIS ENGAJADOS
Na década de 1980, a música também se conectava a temas políticos, econômicos e sociais, ligando-os a grandes eventos e festivais como Live Aid, Farm Aid e o festival pelos diretos humanos da Anistia Internacional. O tema “sexo, drogas e rock’n’roll”, tão caro aos anos 1970, tornava-se um problema social, de saúde pública. Os megaeventos reproduziam o marketing e a estrutura dos antigos festivais da contracultura, como Woodstock, Monterey Pop Festival, Concerto para Bangladesh (organizado por George Harrison) e Rock Against Racism – mas trazendo grandes lucros para empresas patrocinadoras.

O Live Aid, organizado por Bob Geldoff, arrecadaria 67 milhões de dólares para a população africana carente. Em 1985, a Artists United Against Apartheid (AUAA) lançaria o álbum Sun City, como afronta à política do apartheid na África do Sul. Em 1988, política e música difundiriam, juntas, outro desafio ao governo sul-africano: libertar Nelson Mandela da prisão, com o palco do estádio de Wembley, em Londres, tornando-se palanque para a comemoração dos setenta anos do líder e guerrilheiro antiapartheid. Em 1990, alguns artistas lançariam Red, Hot and Blue, um tributo a Cole Porter, cuja renda seria destinada a pesquisas sobre a AIDS.

Outras organizações, como a Anistia Internacional, também sentiam o grande aumento no interesse e no ativismo do público jovem. Bruce Springsteen seria um dos astros mais ativos, retratando as mazelas da sociedade americana e doando rendas de shows para classes pobres e sindicatos de trabalhadores. Ao mesmo tempo em que todas essas ações eram apoiadas por grandes empresários, a indústria musical nos anos 1980 não deixou de lado seus interesses, tomando decisões baseadas exclusivamente no mercado e no lucro.

U2 – MÚSICA OU POLÍTICA?
Os irlandeses do U2 também podem ser considerados um fenômeno da indústria fonográfica. É curioso observar como a banda passou por um processo de transformação explorando diferentes conceitos e estilos. O U2 notabilizou-se por explorar as mais variadas sonoridades – do pós-punk ao tecno – e por suas ousadas posições políticas e religiosas.

A banda foi formada em 1976, em Dublin (quando o punk começava a ferver na Inglaterra), através de um anúncio que o baterista Larry Mullen colocou num mural do colégio procurando parceiros para formar uma banda de rock. Depois de algumas mudanças, Larry Mullen, Paul Hewson (Bono Vox), Dave Evans (The Edge) e Adam Clayton, selariam a formação da banda.

O U2 surgiu com uma proposta de rock’n’roll “cru”, baseado na new wave e no movimento punk. Com o tempo passaram a misturar o discurso político às suas músicas, após se aprofundarem no blues, country e no rock dos anos 1950 e 1960. A banda também mostrava aflições com as questões sociais de seu país e sobre os vários conflitos religiosos na Irlanda. As participações no Live Aid e no projeto Artists United Against Apartheid, confirmariam o engajamento insistente da banda.

Uma reviravolta na carreira da banda começaria em 1987, com o lançamento de The Joshua Tree. O disco venderia mais de 18 milhões de cópias, rendendo dois Grammys e esgotando as bilheterias da turnê. Achtung Baby, de 1990, representaria uma transformação radical na sonoridade do grupo, com guitarras distorcidas e uma forte influência eletrônica e experimental – de carona com a sonoridade criada por David Bowie nos anos 1970. Nas letras, Bono finalmente deixava as questões políticas de lado e passaria a narrar temas mais pessoais. O U2 se revelaria, terminantemente, um dos maiores fenômenos musicais e comerciais do século XX.

Publicado em: