Revoluções Musicais do Século XX: Soul Music: o mundo se rende à cultura negra
Enquanto o folk-rock, a cultura hippie e o rock inglês espalhavam suas sementes pelo mundo nos anos 1960, a música negra americana também crescia, precisamente dividida entre dois polos: a soul music, natural da cidade de Memphis, no sul dos EUA, e o Motown, estilo mais comercial nascido em Detroit, no norte do país. A […]

Enquanto o folk-rock, a cultura hippie e o rock inglês espalhavam suas sementes pelo mundo nos anos 1960, a música negra americana também crescia, precisamente dividida entre dois polos: a soul music, natural da cidade de Memphis, no sul dos EUA, e o Motown, estilo mais comercial nascido em Detroit, no norte do país.
A soul music conectava a emoção dos vocais gospel com o ritmo pulsante e a harmonia repetitiva do rhythm’n’blues. Socialmente, estava muito atrelada ao modo de vida dos negros americanos, representando a ideia de orgulho racial dentro do movimento pelos direitos civis na América. As letras, recheadas de desilusão, promessas de futuro, religião, orgulho e luta, retratavam o verdadeiro cotidiano da América Negra nos anos 1960.
Os artistas soul aprendiam dentro da igreja e aplicavam seus vocais gospels em uma banda de rhythm’n’blues, usando uma infinidade de gírias trazidas dos negros pobres do sul dos EUA. O estilo trazia contrabaixos mais sincopados, baterias mais destacadas, guitarras fundamentadas no ritmo, arranjos temperados por instrumentos de sopro.
Ray Charles, cego desde os sete anos, vítima de um glaucoma, cantava com seu estilo berrado, emotivo, expondo aos brancos a profundidade dos vocais negros. James Brown, ex-boxeador, ex-engraxate, fascinava com sua voz pujante, rouca, suas acrobacias extravagantes no palco. Otis Reding gravaria Respect, símbolo supremo da consciência e do orgulho raciais.
Vários outros artistas completariam a odisseia até Memphis, entre eles Wilson Pickett, que sempre abocanhava as principais paradas de sucesso nos EUA e na Europa. Outro destaque seria a cantora Areta Franklin, considerada a “rainha do soul”, nascida no Mississipi, educada dentro da tradição gospel, dos vocais explosivos e passionais.
Motown – LINHA de montagem
A Motown foi o lado B da música soul – e representaria o norte (Detroit) se apropriando da autêntica alma sulista americana. Seguindo a fórmula básica da soul music, a Motown traria uma sonoridade mais diluída, temas mais românticos, e seria o produto de apenas uma gravadora, a própria Motown, dirigida pelo empresário-visionário Berry Gordy Junior.
O grande escopo da Motown seria extrair a energia da música negra para o deleite de uma América Branca. Gorby era um excelente produtor e sua capacidade de unir talento musical com êxito comercial se tornaria a maior conquista da família Motown. O primeiro grande sucesso da gravadora, Shop Around, dos Miracles, seria lançado em 1960. Depois viriam as Marvelettes (primeiro grupo de garotas da Motown), Stevie Wonder, Diana Ross, Supremes, Marvin Gaye, Temptations, Jackson 5, Isley Brothers e muitos outros.
Tudo funcionava como numa linha de montagem, num processo simples e eficiente, usado até os dias de hoje. Primeiro Gordy pedia para seus produtores uma canção de sucesso, depois gravava a base harmônica e rítmica dessa música, em seguida encomendava um cantor para interpretá-la, seguido dos arranjos de metais, cordas e percussão. A canção era então mixada e passava por uma espécie de “controle de qualidade”, avaliada por membros da empresa.
Em 1968, porém, muita coisa se transformaria com a música Cloud Nine, dos Temptations. Os temas românticos e prosaicos seriam suprimidos por modelos de letras mais existenciais e profundos. Além disso, Cloud Nine era acompanhada por guitarras distorcidas, com efeitos de “wah-wah”, e um contrabaixo mais pesado, no estilo “funk”. Influenciado por Jimi Hendrix e Sly Stone, o líder do grupo, Norman Whitfield, moldou uma sonoridade que transformaria a música negra dos anos 1970.
Marvin Gaye também exploraria muito bem o tema dos direitos civis e da experiência negra. Gaye escreveria histórias políticas e pessoais, histórias sobre guerra e paz. Em 1972, gravou sua obra-prima, o disco What’s Goin’ On. Apesar do sucesso, Gaye teria uma vida tumultuada pelas drogas e pela péssima relação com o autoritarismo do pai que, anos depois, o mataria a tiros dentro de sua própria casa.
No início dos anos 70, a Motown entraria em crise e perderia grande parte de seu casting. Muitos sairiam revoltados por problemas financeiros e pessoais com Berry Gordy Junior. De qualquer modo, esta pequena gravadora de Detroit acabou compondo, entre 1964 e 1971, grande parte da trilha sonora dançante na América.
Posts Relacionados

Europa concentra maior número de casos de violência contra brasileiras no exterior

Discurso de Lula na Avibras, em Jacareí, provoca crise diplomática com o Paraguai

Novo tarifaço de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros entra em vigor
