Roteiros para conhecer as favelas do Rio de Janeiro
Projeto Favelidades explora natureza e cultura de dez comunidades cariocas


“Venha em paz e volte com ela” lê-se em um tijolo. Ao lado, acima e embaixo dele estão outros incontáveis tijolos coloridos que reproduzem construções dos morros cariocas Juntos, formam uma curiosa maquete montada sobre um barranco da favela Pereira da Silva, na zona sul do Rio de Janeiro.
A obra de arte, ou Projeto Morrinho, começou em 1997, quando Cirlan Oliveira chegou à Pereira da Silva. “Era só uma brincadeira entre eu e meu irmão para fugir da violência que existia na época, não era para mostrar ao mundo”, conta ele. Com o tempo, porém, a “brincadeira” virou projeto social, ganhou sede e reconhecimento fora da comunidade.
Arquitetura, música, teatro, gastronomia. Assim como a arte de Cirlan, muitas outras iniciativas dos próprios moradores têm garantido um futuro melhor a uma parte dos 2 milhões de habitantes das favelas do Rio.
Pensando em impulsionar alguns desses trabalhos, a ONG Atados, em parceria com a empresa social Favela Experience, decidiu aproveitar o período da Olimpíada para vender passeios que promovam intercâmbio cultural e renda a moradores e às organizações que mantêm.

Os dez roteiros estarão disponíveis para os turistas entre os dias 6 e 20 de agosto, em dez favelas – Morro dos Cabritos, Santa Marta, Rocinha, Complexo do Alemão, Vila das Canoas, Cantagalo, Complexo da Pedreira, Vidigal, Morro da Babilônia e Pereira da Silva. Cada passeio leva de 3 a 4 horas, custa R$ 150 por pessoa, inclui o almoço e os guias bilíngues. A inscrição é feita no site favelaexperience.com/favelidade.
“O legado que a Olimpíada deixa para as comunidades é muito baixo em relação ao restante da cidade”, afirma o voluntário da Atados e idealizador da iniciativa, Daniel Morais. Por isso, a intenção do projeto, batizado de Favelidade, é fazer do turismo algo interessante também às comunidades, feito por elas e para elas. Uma lógica diferente da dos pacotes vendidos por agências há algum tempo. “Muito do turismo em favela do Rio é como se fosse um zoológico para ver a pobreza e não o que está acontecendo de bom nesses lugares”, explica Daniel.
No Favelidade, turistar no morro significa menos selfies e mais mão na massa e atuação. Guiados por moradores, os passeios exploram o que cada local tem de interessante, como a trilha pela Floresta da Tijuca na Vila das Canoas e a cervejaria artesanal do Complexo do Alemão. Permitem aos visitantes participar dos projetos sociais. Na Pereira da Silva, o público poderá criar seu próprio morro com tijolos; na Pavuna, dar ideias para um mural aos grafiteiros da comunidade.
Selecionamos algumas opções do que será visto morro acima. Porque se há muito o que se fazer no asfalto, do morro será possível olhar para a cidade olímpica com os olhos de quem ocupa esse outro alto do pódio.

Morro do Vidigal terá teatro, folclore e boxe
Falando em Olimpíada, é no Morro do Vidigal, um dos mais famosos da zona sul carioca, que o esporte ganha vez. Ali fica o instituto Todos na Luta, uma escola de boxe voltada à comunidade que abrirá as portas para os turistas participarem de uma conversa com seus fundadores no dia 13 de agosto, a partir das 9 horas. Antes, atores que moram no Vidigal e fazem parte do projeto Cortejo Cultural guiarão os visitantes pela comunidade, contando histórias do morro e outras do folclore brasileiro com apresentações artísticas ao longo do trajeto. No fim, será servido um almoço caseiro. O Vidigal é famoso pela vista do mar que proporciona: não esqueça de aproveitar.
Santa Marta destacará música
Você certamente já ouviu falar do Dona Marta, o morro mais colorido do Rio, entre os bairros de Laranjeiras e Botafogo, na zona sul. Sua favela, a Santa Marta, ganhou destaque mundial por ter servido como palco a Michel Jackson em 1996, na gravação do clipe de They Don’t Care About Us. A passagem do cantor por lá rendeu um mural que até hoje é muito visitado por turistas do mundo todo. Ele será um dos pontos de parada do tour pela comunidade no dia 7 de agosto, a partir das 9 horas. O passeio terá início no funicular que serve de transporte aos moradores. Depois, haverá um workshop musical, bate-papo com artesãos e visita à igreja no topo do morro. O roteiro de 3 horas termina com uma festa embalada por jazz.
Mesa farta e saudável no Morro da Babilônia
Alimentação saudável para a chef Regina Tchelly, paraibana que há 14 anos mora no Morro da Babilônia, na zona sul do Rio, é alimentar a alma, pensar nos produtores e na terra. Essa é a ideia que dá base ao Favela Orgânica, projeto coordenado por ela que busca ensinar aos moradores como evitar o desperdício de alimentos, melhorando o sabor e o valor nutricional de cada refeição. No dia 6 de agosto, Tchelly ministrará um workshop aos participantes do tour, que começa às 9 horas e terá também visita a um jardim vertical, plantio de hortaliças e festa junina que será preparada pelos próprios visitantes. Quem quiser esticar, há boa variedade de hostels e o famoso Bar do David, vencedor do Comida di Buteco 2016.
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