Se gostamos de fazer covers, que tal mergulhar no cancioneiro da região?

Falando de música, se prestarmos atenção no que foi feito de maior destaque na região que ganhou alguma repercussão fora dos limites do Rio Paraíba nos últimos anos, a conclusão é uma: por aqui só fabricamos participantes de reality show musical. E se olharmos nos bares e lugares que abrem espaço para um pouco de […]

Escrito por: Meon Redação3 min de leitura
fundo_placeholder-023136

Falando de música, se prestarmos atenção no que foi feito de maior destaque na região que ganhou alguma repercussão fora dos limites do Rio Paraíba nos últimos anos, a conclusão é uma: por aqui só fabricamos participantes de reality show musical. E se olharmos nos bares e lugares que abrem espaço para um pouco de música ao vivo, é o que temos – um oceano de bandas e cantores que só tocam covers. Uma amiga me disse esses dias que só vai no Hocus Pocus, grande casa e solitária batalhadora do trabalho artístico autoral em São José dos Campos, quando tocam bandas covers. Não tem nenhum mal nisso. Gosto é gosto. O problema é que não areja o ar e perdemos aquela boa sensação de se apaixonar por uma música à primeira orelhada.

Já que é assim, que tal pelo menos tentar fazer um belo trabalho de pesquisa e mergulhar no cancioneiro do Vale do Paraíba? A função do intérprete não é somente encaixar sua voz no tom, fazer caras e bocas e cuidar do visual asséptico padrão Globo. Também é estudar, pesquisar, descobrir novos caminhos para velhas ideias. E o Vale está cheio delas. E o melhor: urgentemente precisando de um resgate e de documentação séria. Pesquisando para o livro “Curtindo Música Brasileira”, no capítulo dedicado a música regional, achei uma coletânea que mapeava os sons produzidos em cada parte do Brasil e na bolacha dedicada ao Sudeste, dei de cara com um sujeito chamado Seu Chico de Ubatuba. A música que ele interpreta chama “Tonta” e é uma delícia. É o folclore da região em sua essência. Ouve aí:


 Quem foi Seu Chico de Ubatuba? É de Ubatuba mesmo? Que tal quem faz música pesquisar a sério sobre isso? E esse é um exemplo extremo, falando de um personagem um tanto desconhecido. A coisa piora se falarmos de ícones. Por que quem faz música aqui não sabe nada de Elpídio dos Santos? Cadê aquele carinho pelos choros de Dilermando Reis, um dos maiores violonistas de todos os tempos nascido em Guaratinguetá? Ou por que nossas duplas sertanejas não pesquisam pérolas de um dos grandes compositores do gênero, outro guaratinguetaense, Lourival dos Santos? É dele por exemplo “Rio de Lágrimas”, popularmente conhecida como “Rio de Piracicaba”. O cara fez dezenas de outras pérolas legitimamente do sertão. Pegaria bem gravar algumas, mesmo que seja somente para completar o disco recheado de poesias que rimam berê com berê.

Como temos a mania de esperar uma chancela internacional para fazer qualquer coisa, aí vai uma para dar um empurrão na ideia acima. No fim do ano passado, Billie Joe Armstrong, vocalista do Green Day (UM PUNK!!!) e a cantora de jazz-pop Norah Jones lançaram um belo disco com regravações preciosas dos velhos Everly Brothers. Escute uma:

 
Viu como fica legal? Que tal então deixar de ser uma carinha bonita com voz afinada em reality show e passar a ser artista de verdade? Mergulha no Paraíba que tem bastante ouro para ser (re)descoberto.

Publicado em: