Tropical e ensolarada Seychelles

Uma luxúria sensorial cujo mérito é da natureza

Escrito por: Mônica Nóbrega4 min de leitura
fundo_placeholder-023136
1433798727552

Uma luxúria sensorial cujo mérito é da natureza

Divulgação/Estadão


O dia quando amanheceu trouxe finalmente a paisagem. Ela, a paisagem, feita de verdíssimos morros tropicais que mergulham decididos no mar de águas entre cinza-claro e azul-cintilante – depende da hora – é a grande protagonista de todo dia em Seychelles.

O arquipélago de 115 ilhas no Oceano Índico volta e meia está em evidência por causa de alguma celebridade do calibre de Kate Middleton e príncipe William, ou série de TV com a audiência da falecida Lost. E, em linhas gerais, é isso: uma luxúria sensorial cujo mérito é da natureza. Com retoques e acabamentos arrematados por cadeias hoteleiras internacionais que instalam ali seus resorts sem modéstia e sob as bênçãos do governo, já que 30% dos empregos e 70% do faturamento em moeda forte, euro e dólar, vêm do turismo.

Pois aquele dia que acabava de nascer revelou o que escondera a escuridão semisselvagem da noite anterior, quando pousei no aeroporto internacional na ilha de Mahé, a maior e principal. Uma natureza formada por palmeiras, bananeiras, caneleiras e arbustos de abacaxis em pequenas e densas florestas. Estradas de mão dupla equilibradas à beira das encostas de pedras e areia de praia, nas quais se dirige pelo lado esquerdo, o da mão inglesa. E o mar, claro, que é o motivo número um pelo qual se vai a Seychelles.

Seria errado falar em primeiros raios de sol. Era por eles que eu esperava quando deixei abertas as cortinas black-out do meu imenso quarto do resort Four Seasons, onde passei três noites. Não vieram. O hotel, espalhado pela encosta e quase sufocado pela vegetação, mira o oeste – o continente africano, se melhorar a referência. Ali é o ponto onde o sol se põe.

Conservação

Não houve espetáculo do nascer do sol, mas o dia foi deslumbrante do início ao fim. As cortinas abertas ao menos serviram para me despertar bem cedo, e com ótimo propósito: uma sessão de snorkeling guiado logo às 8 horas. Quando cheguei à praia do resort, muitos metros abaixo da minha varanda, o mar já era escandalosamente azul. Foi diante dele que Tania Militello, integrante do projeto de conservação marítima Wise Ocean, que atua em Seychelles em parceria com o governo local, explicou o processo de recuperação dos corais moribundos que sua equipe encontra no fundo do mar bem ali, diante da praia do Four Seasons, na baía de Petit Anse.

A baía está ao sul e na costa oposta à de Victoria, a capital e principal cidade, onde vivem 26 mil dos 92 mil habitantes do país. Os 490 quilômetros de costa incluem as demais ilhas – Praslin e La Digue são as outras que recebem turistas com regularidade – de forma que duas horas são suficientes para dar a volta completa a Mahé de carro.

Com esforçada delicadeza, prendi o pedaço de coral que parecia um picles em conserva a uma barrinha de ferro. Depois de um estágio numa espécie de enfermaria, o pobrezinho volta às águas e, com sorte, recupera a vivacidade e a autonomia.

A educadora Charlotte Orba distribuiu máscaras e nadadeiras e iniciamos a incursão mar adentro sem nunca perder os pés de vista. Com eles, os pés, é preciso cuidado: pisar com convicção pode significar uma topada ou corte num pedaço de coral. Melhor flutuar de vez

Os varais submersos onde ficam presos os corais em recuperação – para que não sejam levados pela correnteza – ficam por ali. Peixes de cores e formatos variados desfilam diante dos olhos. O corpo listrado e máscara preta do angelfish imperador. O papo esverdeado do peixe-papagaio. A boquinha azul do oriental sweetlips. Mais de mil espécies de peixes nadam entre corais ao redor das ilhas de Seychelles. Há também tartarugas. Charlotte, a guia, esperava encontrar ao menos uma ao dobrar a esquina de uma rocha bem grande, na ponta da colina que limita ao sul a baía de Petit Anse. Apesar da ansiedade, não foi nosso dia de sorte no quesito tartarugas. Mas só nele.

Porque ao sair da água, um farto café da manhã estava a postos no restaurante Zez, com vista, obviamente, para o mar. Com tempo suficiente para provar o suco do dia, à base de abacaxi, escolher ovos, waffles e panquecas, e atacar o bufê multinacional com charutos de folhas de uva, guiozas, quiches, homus, linguiças, queijos, croissants, frutas e pães, tudo junto e misturado.

Ainda era apenas 10 horas da manhã. O começo irretocável de um dia que, até o fim, foi de relax e autoindulgência.

Publicado em: