A cada minuto, 8 brasileiras sofreram violência nos últimos 12 meses

Na região, mulher luta para retomar a vida, após ter sido atropelada e arrastada pelo dono do imóvel em que ela vivia com o filho de 8 anos e a companheira

Escrito por: Ana Lígia Dal Bello4 min de leitura
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Ao menos 17 milhões de brasileiras sofreram violência física, psicológica ou sexual no último ano, segundo dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isto equivale a dizer que oito mulheres apanharam a cada minuto, e que uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos afirma ter sofrido algum tipo de violência ou agressão durante o período.

Na região do Vale do Paraíba, não faltam exemplos recentes. As agressões partem de qualquer um, seja de companheiros, familiares ou completos desconhecidos.

Em janeiro deste ano, um bandido com moto empurrou uma estudante grávida, de 18 anos, no chão, logo após ter anunciado o assalto, em Taubaté. Em março, a Polícia Civil prendeu pedreiros que trabalhavam no sítio de uma mulher, em São Francisco Xavier, e a espancaram até que perdesse a consciência. Em maio, uma jovem de 18 anos afirmou que teve o nome do ex-namorado tatuado à força no rosto, pelo próprio rapaz, em Taubaté. No fim de maio, uma mulher de 24 anos teve o nariz e o maxilar fraturados pelo então namorado, também em Taubaté. Em 2 de junho, uma uma mulher foi espancada até a morte pelo namorado.

Mulher é atropelada e arrastada por caminhonete na frente do filho

Em janeiro deste ano, C. J., de 39 anos, foi atropelada pelo proprietário do imóvel em que vivia, na zona rural de Monteiro Lobato, e arrastada pela pista por 500 metros, na frente do filho de oito anos de idade. Ela teve quatro costelas quebradas, levou dois pontos. Sofreu um rasgo na nádega direita, teve o pulmão perfurado, recebeu dois drenos no pulmão e ficou com uma perna em carne viva. Passou quase 15 dias em coma na UTI do Hospital Municipal, em São José dos Campos, e outros sete no quarto, período em que contraiu infecção hospitalar.

O começo

A violência começou um pouco mais sutilmente. “Eu estava no barracão, resolvendo coisas da casa, ele se aproximou, tirou o maço de cigarros do vão das minhas pernas, que estavam cruzadas, e foi embora. Fiquei sem graça”. As investidas começaram em novembro de 2021, ano em que C. se mudou para o Vale do Paraíba.

O próximo ato foi cortar a água do imóvel. “Procurei Conselho Tutelar, Defensoria Pública e prefeitura, que me entregou galões de água durante 40 dias”.

Em outra ocasião, C. tomava banho no banheiro que fica do lado de fora da casa. “Percebi que o homem estava do lado de fora. Eu estava de toalha e perguntei o que estava acontecendo. Ele começou a fazer a proposta, dizendo que eu não precisava pagar aluguel nem me preocupar com comida. Veio na minha direção para me abraçar, mas empurrei e disse que não estava ali para aquilo. Depois disso, cortamos relações de vez”.

Em 14 de janeiro, o dono da casa cortou a luz de novo, mesmo sabendo que C. tem um filho de oito anos e que na semana seguinte se mudaria para outro lugar, pois já tinha proposta de emprego novo e o Conselho Tutelar estava ajudando a procurar casa. Ela chamou um eletricista e, quando foram até a calçada, o locador do imóvel a atropelou e arrastou com a caminhonete.

Saldo negativo

“Nunca dei nenhum indício (de que tivesse interesse) para ele, era só vínculo proprietário e inquilina. Estou na casa da minha tia de 72 anos, não tenho renda nenhuma, meu filho está com minha irmã mais velha, a guarda provisória está para acabar. Ainda sinto dores nas costelas, joelho e nádegas. Hoje, faz dois meses que consegui sair da cama”, desabafou C., que, diferentemente dos quase 45% de mulheres que não fizeram nada em relação à agressão mais grave que sofreram, denunciou a barbárie cometida por um homem que foi recusado por uma mulher.

C. não teve direito à medida protetiva porque não teve relacionamento amoroso com o autor das agressões. Após arrastá-la por 500 metros pista afora, ele fugiu do flagrante e é considerado fugitivo pelo crime de tentativa de feminicídio.

“Só gostaria de colocar minha vida em ordem pelo meu filho. Ele tirou nosso direito de convívio mãe e filho e nos deixou um dano enorme, um trauma gigantesco”, desabafou C.

A reportagem acionou a SSP (Secretaria de Segurança Pública) para obter informações sobre o status da investigação, mas não teve resposta.

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