Crise hídrica: redução do consumo de água é insignificante na RMVale

Enquanto 78% das famílias da Região Metropolitana de São Paulo já aderiram ao programa de economia de água do Governo do Estado, a redução do consumo registrada pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) nas 24 das 39 cidades da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte é insignificante.

Escrito por: Wagner Matheus5 min de leitura
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Enquanto 78% das famílias da Região Metropolitana de São Paulo já aderiram ao programa de economia de água do Governo do Estado, a redução do consumo registrada pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) nas 24 das 39 cidades da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte é insignificante.

Em junho, o consumo médio diário na região caiu 1,7% em relação ao mesmo mês de 2013. O número foi divulgado pela Sabesp, mas a assessoria do superintendente Oto Elias Pinto comunicou que ele não iria falar sobre o assunto. A falta de uma campanha de redução de consumo de água na RMVale é motivo de crítica e preocupação.

Segundo a Sabesp, em junho a população das 24 cidades atendidas pela companhia na RMVale consumiram 172 milhões de litros de água. O consumo médio diário é de 180 litros por habitante, 60% a mais que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde, que aponta 110 litros por dia como suficientes para atender às necessidades de cada pessoa.

O geólogo Edilson de Paula Andrade, especialista em recursos hídricos e ex-secretário geral do Ceivap (Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica da Bacia do Rio Paraíba do Sul), considera lamentável que tanto as empresas de saneamento paulistas, como a Cedrae [concessionária do Estado do Rio de Janeiro], não estejam realizando ações para buscar economia no consumo de água.

“A Sabesp poderia trabalhar com metas de redução entre 10% e 15% no consumo, mas para isto acontecer precisaria ser dado o mesmo estímulo na forma de desconto como é feito na campanha em São Paulo”, acredita o especialista.

Segundo Andrade, “enquanto o principal reservatório da região, o de Paraibuna, está com apenas 12% do nível normal, essas empresas não fazem nada porque o rio Paraíba ainda tem muita água, mas o preço disso é o esvaziamento ainda maior dos reservatórios”.

Uma hipótese levantada por Andrade para a falta de uma meta de redução de consumo fora da Região Metropolitana de São Paulo é que a Sabesp estaria querendo evitar uma queda maior em sua receita, uma vez que o último anúncio de resultado teria registrado uma diminuição de R$ 20 milhões no lucro da companhia, que caiu de R$ 320 milhões para R$ 300 milhões.

Ao divulgar o balanço financeiro do segundo trimestre, a Sabesp registrou que deixou de arrecadar R$ 98,9 milhões desde março, quando os descontos começaram a ser concedidos para os clientes do Sistema Cantareira que atingiram a meta do programa.

“Os gestores das companhias de água também deveriam acionar os grandes consumidores e investir em ações mais eficazes, como o controle de perdas, o reuso da água e a racionalização da irrigação na agricultura”, sugere Andrade. “A tecnologia de irrigação das culturas de arroz na região, por exemplo, estão defasadas em relação às plantações no Sul do país.”

Andrade faz um alerta. “Ninguém sabe se a falta de chuvas irá durar mais dois ou três anos. Mas já é possível afirmar que em 2015, no início da estação seca, que vai de abril a novembro, os reservatórios poderão ter menos água do que neste ano, caso não chova forte antes do início da estação seca”.

Questão política
A vereadora Renata Paiva (DEM), de São José dos Campos, que vem participando das discussões sobre a crise hídrica envolvendo a bacia do rio Paraíba, também acha que o único caminho para amenizar a crise é o uso racional da água.  “Só vão perceber isso quando começar a faltar água nas torneiras, como já está ocorrendo na Grande São Paulo”.

“Pensam que a crise está distante, mas é preciso realizar uma grande campanha de economia de água na região, uma vez que o Governo do Estado não admite fazer racionamento por uma questão política”, acusa. Para a vereadora, o racionamento já deveria ter começado ou, no mínimo, a campanha pelo uso racional da água iniciada em SP ter sido estendida para a região. “Afinal, a crise está aqui também”, acentua.

Campanha
O programa de redução do uso de água abrange 31 cidades da Região Metropolitana de São Paulo. Segundo o relatório, 52% dos clientes reduziram o consumo em pelo menos 20% e tiveram direito ao desconto de 30% no valor da conta. Outros 26% gastaram menos água, mas não atingiram a meta.

Embora não tenha sido incluída na campanha de economia da RMSP, a unidade da Sabesp na RMVale garante que medidas adotadas até o momento equivalem à economia que se obteria com um rodízio de 36 horas com água por 72 horas sem água.

A empresa divulgou nota informando que, apesar do período de estiagem e da baixa vazão dos mananciais, tem garantindo o fornecimento de água na região. As principais fontes são o rio Paraíba do Sul e afluentes, com 4 mil litros por segundo, além de captação de poços artesianos, com 1,5 mil litros por segundo.

Além das medidas que vem adotando, a empresa reconhece que “é fundamental que a população economize água e evite o desperdício como forma de preservação dos recursos hídricos e do meio ambiente”. Mas não cogita estender a campanha de bônus à RMVale.

Racionamento
No Estado de São Paulo, 2,1 milhões de pessoas estão sob racionamento. Um em cada 20 habitantes suporta interrupções de fornecimento de quatro horas a dois dias seguidos em mais de 200 dos 281 municípios não atendidos pela Sabesp. A empresa opera em 364 cidades paulistas, com 27,7 milhões de habitantes. Sua assessoria nega ter adotado racionamento em qualquer uma delas.

No dia 11 de agosto, 18 municípios de São Paulo estavam adotando racionamento, sendo que sete já estavam racionando há mais tempo. Guarulhos, com 1,3 milhão de habitantes, é o maior deles, onde, a cada dois dias, a população fica um dia sem água. A região de Campinas já tem onde municípios passando por racionamento. A região de Sorocaba tem três.

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