Dia da Abolição: região foi a mais resistente a abolir escravatura no Brasil
Historiadoras de São José lançam livro que conta estratégias de escravocratas do Vale do Paraíba para manter relações de trabalho sob regime escravista mesmo após Lei Áurea

Na quinta-feira (5), as historiadoras Maria Aparecida Papali e Valéria Regina Zanetti, da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), lançam o livro “Escravidão e Pós-Abolição no Vale do Paraíba Paulista”. O evento será no Origem Café Cultural, que fica na rua Jorge Barbosa Moreira, 58, Jardim Vila Ema, em São José dos Campos.
O livro oferece aos especialistas e interessados um estudo sobre a abolição da escravatura e o período seguinte no Vale do Paraíba Paulista. Estão reunidos artigos de alunos e ex-alunos do curso de História da instituição, que fizeram Iniciação Científica no Laboratório de Pesquisa e Documentação Histórica do IP&D da Univap ou foram bolsistas como estagiários do Núcleo de Pesquisa Pró-Memória de São José.
Um dos motivos de se organizar o manuscrito foi promover um balanço dos mais de 133 anos da abolição em alguns municípios do Vale do Paraíba Paulista, eixo centralizador das relações escravistas no período imperial.
“O Vale do Paraíba Paulista foi um reduto ferrenho da escravidão. Aqui se encontravam os maiores escravocratas do país, muitos deles atuando na política. A região permaneceu escravista até o 13 de maio. Como em todo o país, o racismo faz parte do cotidiano da região. Outra coisa como característica é o conservadorismo que também compõe uma das identidades do Vale”, ressaltou a professora Papali.
Dia da abolição
Em 13 de maio, na semana que vem, celebra-se mais um ano de abolição da escravidão. Refletir sobre suas repercussões econômicas, políticas, sociais e culturais na sociedade brasileira ainda é fundamental.
No Vale do Paraíba Paulista, região de maior e mais prolongada resistência à abolição da escravatura no Brasil, essa reflexão é uma forma de compreender o quadro atual e de perceber os fatos sociais como resultantes de um longo processo histórico, permeado de mudanças e transformações, mas assentado em pensamentos, que estruturam o racismo presente na sociedade.
Obra
O livro está organizado em duas partes. A primeira traz a Escravidão no Vale do Paraíba Paulista, analisada a partir das centenas de processos crimes que desnudaram as diferentes formas de resistência da população escrava do Vale, na tentativa, quase todas frustradas, de negar sua condição de coisa, dada à rigidez dos aparelhos repressores e da sempre eficiente coisificação social promovida pelos valores estigmatizadores da sociedade escravocrata.
Individualmente ou coletivamente, fugas, assassinatos e a luta pelos vagos e parcos direitos dos escravizados levavam às estratégias diárias de busca pela liberdade. Reduto dos cafeicultores, o vale paulista foi palco de políticas conservadoras e de severas críticas e atitudes em relação àqueles que procuravam defender a abolição e o fim da escravidão.
A segunda parte do livro, Pós-Abolição no Vale do Paraíba Paulista, traz um repertório das tramas e estratégias utilizadas pelos escravocratas em manter, mesmo que abolidas, as relações de trabalho sob regime escravista. Por meio das tutelas das crianças filhas das mães pretas, solteiras e pobres, muitos contratantes passaram a enxergar nesse segmento a forma de substituição da mão de obra escrava egressa da escravidão.
Alvos de pessoas inescrupulosas que se travestiram de tutores bem-intencionados, as crianças tuteladas, sob condições de vida e trabalho análogos à escravidão, ressurgem das fontes jurídicas, desnudando as artimanhas que encobriam a verdadeira face escravista desses senhores, ávidos em explorar a mão de obra das crianças apartadas do convívio de suas mães.
Assim como seus pais, essas crianças resistiram, deixando-nos, por meio de seus rastros nos meandros jurídicos, evidências daquilo que os negacionistas tentam não reconhecer: a escravidão não só persiste como ela é escancarada nas fontes primárias. Dar poder a essas fontes e, por meio delas, visibilizar a luta de mulheres, homens e crianças que viveram no Vale é um dos propósitos deste livro.
Serviço:
Lançamento do livro “Escravidão e Pós-Abolição no Vale do Paraíba Paulista”
- Organizadoras: Maria Aparecida Papali e Valéria Regina Zanetti
- Lançamento: quinta-feira (5), às 19h, Origem Cultural – rua Jorge Barbosa Moreira, 58, Vila Ema, São José dos Campos.
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