Entrevista: o feminismo e as feminices de Clarice Falcão

Em São José, cantora e atriz fala sobre seu papel no movimento feminista

Escrito por: João Pedro Teles6 min de leitura
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Artista visitou a cidade no evento “Questões Femininas e Feministas”, no Teatro Colinas

Gilberto Braga/Divulgação

Um grupo de mulheres, maioria absoluta de adolescentes, se aglomera à porta do Teatro Colinas durante uma quarta-feira de março. As primeiras meninas checam os celulares e conversam com ansiedade enquanto, atrás delas, a turma vai se avolumando. Não demora para que se estabeleça um pequeno alvoroço, daqueles que precedem o lançamento de um livro de youtuber vez ou outra nos shoppings.

O reboliço, no entanto, tem motivo diferente. A turma, que dali a poucos minutos lotaria as dependências do teatro, queria mesmo era ouvir e ver de perto algumas das vozes feministas da atualidade em evento promovido pelo Shopping Colinas. Entre as convidadas, a mais celebrada delas é Clarice Falcão, cantora e atriz pernambucana, que desembarcara distribuindo sorrisos minutos antes.

Clarice tem olhos verdes e redondinhos. Expressivos, lhe conferem um quase indissociável cunho de fofice. Os traços de menina meiga ganham mais evidência quando uma covinha se destaca em sua bochecha assim que ela sorri. A figurinha que, em 2013, ganhou os corações dos publicitários de uma rede de supermercados (quem aí lembra?) é, no entanto, só fachada.

“Fofa? Já falei de tanta m* que tem nada de fofo nas minhas músicas e nos quadros do Porta dos Fundos”, ela diz no camarim, minutos antes de subir ao palco, onde dividiria o sofá com a colunista Ruth Manus e a jornalista Ticiane Toledo, no evento ‘Questões Femininas e Feministas’.

Eu dizia que era feminista, mas achava que a menina que ficou com o menino que eu gostava era uma piranha, entendeu?

Clarice Falcão Artista

A fofura aparente não resiste ao menor bate-papo com a artista, que mora no Rio de Janeiro. Clarice, na verdade, é muito mais do f*-se do que da fofura. Bem resolvida, aborda, na moral, questões espinhosas. Principalmente quando se tratam sobre ela mesma. A artista é filha da roteirista Adriana Falcão, uma das “mulheres poderosas” que moravam na casa onde cresceu. Irmãs, prima e avó completavam o ambiente onde, segundo suas palavras, “era de mulheres em cima de mulheres”.

Um dos ícones do feminismo entre a juventude, Clarice falou sobre seu sucesso com o público jovem, como precisou desconstruir o próprio machismo em suas atitudes. A artista ainda comentou seu papel dentro do movimento feminista, leituras, humor e mais uma porção de feminices em entrevista para o Meon.

A plateia que te espera ali no teatro é formada, na sua maioria, por meninas mais novas. Por que é importante que estas jovens de 14, 15 anos estejam em um evento sobre feminismo?

É maravilhoso falar com o público mais novo. É um pessoal que subiu comigo. Tenho 28 agora. Monomania (seu primeiro disco) é de 2013 e o pessoal que ouviu tinha uns 16,17. Hoje já têm vinte e pouquinhos. Meu papel dentro do feminismo é essa coisa de mensageira mesmo, de trazer as meninas para ouvir o discurso. Quando vou a debates sobre o tema, em geral as outras convidadas sabem muito mais do que eu. Eu sou artista, minha vibe não é acadêmica. Mas é legal que as pessoas que gostam de mim venham e acabem encontrando profissionais que estudam a fundo o caso.

Essa é importância de outras celebridades terem levantado a bandeira do feminismo nos últimos anos?

Total. Isso mesmo. Quem tem mais visibilidade serve como um chamativo para atrair as meninas para esses eventos. Na verdade, eu nem tenho a bagagem acadêmica para entrar numas de versar sobre o tema. Nem tenho também a bagagem de vida dessa galera que é oprimida em alguma esfera. Tem muita gente mais entendida do que eu. Só que meu papel é fazer essas pontes.

E quando você começou a se interessar de vez pelo tema?

Eu sempre gostei muito de ler mulheres. Quando era adolescente entrei numas de ler Simone de Beauvoir. Gosto muito de conto, por exemplo, li muito da Dorothy Park, é uma puta poetisa. Sempre tive essa coisa de me interessar pelo ponto de vista feminino, sempre achei mais interessante a Zelda (Fitzgerald) do que o Scott (Fitzgerald). Em casa também sempre fomos muitas mulheres juntas. Eram duas irmãs e a mãe. A minha mãe também tinha duas irmãs, então trouxe essa convivência feminina pra casa. Minha vó também era muito interessante, inteligentíssima. Minha prima ainda morava com a gente. Eram mulheres em cima de mulheres. Em algum lugar, essa coisa sempre esteve comigo.

Então, pra você, foi o caminho natural assumir uma postura feminista…

Pois é, mas por mais que eu sempre falasse, ‘sou feminista’, acabava achando que, por exemplo, a menina que ficou com o menino que eu gostava era uma piranha, entendeu? Então, acho que pra todo mundo foi um processo de desconstrução a partir do momento que se começou a falar disso. Não só dizer ‘Girl Power’ e continuar reproduzindo discurso machista. Isso já rolava lá com as Spice Girls.

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Fofa, eu? Clarice rechaça o esteriótipo de fofura que marcou o início de sua carreira

Gilberto Freitas/Divulgação

Em 2016, no clipe da canção ‘Eu Escolhi Você’, o vídeo expõe vários nus frontais. As redes sociais bloquearam. Como você recebeu a repercussão do vídeo?

Eu achei que era um clipe muito mais divertido do que polêmico. Não gastei nada com ele. Estava com uns amigos ali, todo mundo bebeu e eu disse, ‘bora fazer’. Achei engraçado. Fiz zero divulgação. Esse clipe não passou em lugar nenhum. Coloquei no meu Twitter com aviso: maiores de 18, contém nudez. Como era um vídeo bem bobo pensei que nem ia chocar nem nada.  Também que ninguém ia pensar, ‘uau, que genial’. Até porque o vídeo não é genial. Quando rolou a reação eu parei e pensei: ‘eita’. Essa reação é muito mais importante de prestar atenção do que o clipe em si. Por que o clipe mesmo é f*-se. Mas a reação é muito assustadora, essa coisa conservadora não dá pra entender.  Veja só, não é sexualizado, não traz uma informação nova para ninguém. Exatamente o quê é ofensivo? Eu não consigo compreender. Pra mim é mais uma questão de controle, de querer voltar ao passado moralista do que uma coisa direta. Ninguém sabe explicar.

Em tempos como os nossos, qual você considera que é o papel do humor?

Minha família sempre foi muito de fazer piada. Mesmo com as desgraças. Minha mãe tem uma história de vida complicada, mas sempre tratou com leveza que sempre me inspirou muito. Acontece que uma boa piada é uma arma política. E ela vale tanto para se posicionar politicamente quanto para dar uma amenizada em tempos difíceis. Do tipo: ‘porra, tá foda, vamos rir um pouco’.

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