Especial Metrópole Magazine: Alcatrazes, santuário da vida marinha

O local foi aberto para mergulho recreativo e passeio embarcado

Escrito por: Meon Redação9 min de leitura
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Releia a reportagem sobre Alcatrazes publicada na edição de 38 da Metrópole Magazine, em fevereiro.

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A 35 quilômetros da costa de São Sebastião, um mundo novo se abre aos apaixonados pela vida marinha e pela natureza: o Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes. O local foi aberto para mergulho recreativo e passeio embarcado no início do segundo semestre deste ano. O arquipélago é um verdadeiro santuário ecológico. Suas ilhas abrigam o maior ninhal de fragatas do Atlântico Sul e seus recifes têm uma fauna considerada a mais conservada e biodiversa das regiões Sudeste e do Sul do país. Espécies marinhas ameaçadas circulam pela área de proteção.

No caminho até Alcatrazes, turistas podem avistar baleias e golfinhos

A reportagem da Metrópole Magazine visitou o refúgio no início de fevereiro, acompanhada por uma equipe do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), responsável pela gestão do Refúgio e da Estação Ecológica Tupinambás, que também fica no arquipélago mas permanece fechada para o turismo. Nossa equipe de reportagem partiu da costa de São Sebastião, na altura da praia do Arrastão, e demorou pouco mais de uma hora para chegar ao destino. A viagem, porém, pode passar de duas horas quando as águas estão mais agitadas. Isso significa que as pessoas mais sensíveis ao balanço do mar devem estar precavidas.

Pouco depois da partida da costa é possível avistar a ilha de Alcatrazes, a principal do arquipélago, com seu imponente pico de formação rochosa, o Boa Vista, com 316 metros de altura. No caminho, os turistas que tiverem sorte (como nossa equipe) ainda poderão observar baleias e golfinhos. As baleias-de-bryde são mais frequentes nestas águas, mas a jubarte e a franca também costumam aparecer esporadicamente.

A aproximação de uma grande quantidade de aves, principalmente atobás e fragatas, indicam a entrada na área protegida do refúgio, que ocupa 67.409 hectares, segunda maior unidade de conservação integral marinha do Brasil, atrás apenas do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, no sul da Bahia.

Impossível não ficar impressionado quando a embarcação chega à ilha principal, que dá nome ao arquipélago. A beleza dos seus paredões de granito, que chegam a 316 metros de altura, e suas águas de um azul transparente –dando uma pequena mostra da diversidade que guarda em suas profundezas– são um convite ao mergulho de observação.

Em suas encostas, centenas de aves adultas e seus filhotes encobrem as formações rochosas. Na época da visita da Metrópole Magazine, os filhotes de atobás já eram juvenis, de porte razoavelmente grande, mas ainda imaturos para se arriscarem no mar. Os atobás são habilidosos mergulhadores -quando encontram o alimento, mergulham na vertical em uma velocidade incrível, capturando a presa dentro d’água.

As impressionantes formações rochosas vêm de uma era em que a humanidade nem existia. Constituída basicamente de granito preto e em tons de cinza, as encostas possuem fissuras que são usadas como abrigos por animais, como cobras e lagartos. E se você não é mergulhador e no início deste texto se perguntou porquê fazer um passeio embarcado para observação, acredito que já tenha a resposta: ver e sentir-se parte deste cenário é uma experiência única, que fortalece nosso respeito à natureza.

Proteção

A entrada na área de Alcatrazes só pode ser feita com autorização do ICMBio, que é responsável pela gestão do Refúgio e da Estação Ecológica (Esec) Tupinambás, que é fechada a visitação.

A Esec Tupinambás ocupa uma extensão de 2,4 hectares, que abrange parte do arquipélago de Alcatrazes e ainda as ilhas das Cabras, das Palmas, Ilhote e Laje do Forno, em Ubatuba. Nas duas unidades de conservação já foram registradas 1.300 espécies, sendo que 93 delas estão sob algum grau de ameaça de extinção, como a tartaruga-de-pente, a tartaruga verde e a raia-manta. Há também espécies endêmicas (que só existem lá), como a perereca-de-alcatrazes e a jararaca-de-alcatrazes.

Também estão protegidas em Alcatrazes 259 espécies de peixes, destacando-se a garoupa e o tubarão-martelo.

A vegetação do arquipélago, com áreas de mata atlântica e campos rupestres, abriga cerca de 320 espécies de flora, inclusive endêmicas, como um antúrio (Anthurium alcatrazensis) e uma begônia (Begonia venosa). Os agentes do Instituto são responsáveis pela fiscalização e têm autoridade para autuar e apreender embarcações dentro da área protegida.

Apesar da atuação intensa do ICMBio, os pescadores ainda são uma ameaça às espécies que vivem no refúgio. Para fugir da fiscalização, muitos invadem à área à noite. Boa parte desses invasores pesca ali por ostentação, para exibir espécies difíceis de serem encontradas em outras águas.

A farra dos pescadores, porém, parece estar com os dias contados. Em breve, o Refúgio de Alcatrazes vai receber R$ 2 milhões, que serão destinados à compra de uma embarcação que permitirá a fiscalização noturna do arquipélago.

O dinheiro é parte de um acordo firmado entre o Ministério Público Federal e a Chevron, para compensação de danos ambientais causados por um vazamento de óleo em 2012, no estado do Rio de Janeiro.

O objetivo do ICMBio é adquirir uma embarcação tipo catamarã, com propulsão a vela ou motor, que pode ser usada como uma base ‘fixa’ no arquipélago. A presença constantes dos agentes em Alcatrazes inibiria bastante a ação dos pescadores, inclusive à noite.

“Nossa intenção é deixar a embarcação por vários dias no arquipélago, fazendo o rodízio apenas das equipes. Além da fiscalização mais intensa, também poderemos usar a base para abrigar pesquisadores, que desenvolvem trabalhos importantes para Alcatrazes”, disse o ceanógrafo Geraldo de França Ottoni Neto, do ICMBio.

Os pescadores são a principal ameaça ao equilíbrio de Alcatrazes, mas não a única. O coral sol, originário das águas do Pacífico, é uma praga que ameaça a biodiversidade de praticamente toda a costa brasileira.

Acredita-se que ele tenha entrado em águas brasileiras na década de 80 pelas plataformas de petróleo, por meio de navios petrolíferos que cruzam os continentes com uma enormidade de organismos vivos incrustados em seus cascos.

“O coral sol tem uma grande vantagem competitiva e interfere severamente na base da cadeia alimentar. Isso afeta todas as espécies, vertebrados e invertebrados”, disse Kelen Luciana Leite, chefe do Núcleo de Gestão Integrada de ICMBio Alcatrazes. Segundo ela, essa ocupação é muito severa e prejudica toda a vida marinha.

A erradicação do coral sol da costa brasileira é praticamente impossível. Em Alcatrazes, os agentes do ICMBio esforçam-se para manter o controle do predador.

De tempos em tempos, o Instituto realiza expedições, com apoio de pesquisadores e mergulhadores voluntários, para retirada manual do coral sol do arquipélago.

O trabalho se assemelha a um mutirão subaquático. Só para ter uma ideia, em janeiro do ano passado foram retiradas mais de 20 mil colônias de coral sol das águas do Refúgio de Vida Silvestre de Alcatrazes e da Estação Ecológica Tupinambás.

A expedição foi feita pelo ICMBio com a colaboração de seis voluntários, três pesquisadores e apoio da WWF (World Wide Fund for Nature ou Fundo Mundial para a Natureza, em português), Cebimar/USP (Centro de Biologia Marinha, da Universidade de São Paulo), de São Sebastião, e da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), campus da Baixada Santista.

E colaboração é uma das palavras-chave para preservação de Alcatrazes. O núcleo do ICMBio de São Sebastião conta com apoio de grandes organizações não-governamentais, dentre elas a Fundação SOS Mata Atlântica, além de agentes ambientais da própria comunidade.

E foi com o apoio destes colaboradores que o ICMBio realizou um intenso e minucioso estudo que garantiu a abertura de parte do arquipélago para visitação, uma reivindicação antiga de instituições ambientais e da comunidade do Litoral Norte.

O decreto de criação do Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes foi publicado em agosto de 2016. E tempo recorde, no aniversário de um ano do refúgio, a unidade de conservação já publicava o plano de manejo e o plano de uso público. Esses planos viabilizaram o início dos trabalhos para estruturação da visitação monitorada ao arquipélago.

Conhecer para preservar

Entre os principais objetivos da abertura do arquipélago para visitação monitorada estão a educação ambiental, visando conscientizar a comunidade local e os visitantes sobre a importância de manter protegido esse ecossistema.

O refúgio tem como objetivo a proteção do arquipélago. A visitação será realizada desde que não provoque danos – Geraldo de França Ottoni Neto, ceanógrafo do ICMBio

Como determina a portaria de criação do refúgio, as atividades de mergulho recreativo e passeio embarcado são experimentais. Caso sejam constatados impactos nocivos ao ecossistema do arquipélago, a visita será suspensa. “Vamos fazer o monitoramento constante. O refúgio tem como objetivo a proteção do arquipélago. A visitação será realizada desde que não provoque danos”, disse Geraldo Ottoni.

O ICMBio finaliza a estrutura para iniciar a visitação. Serão realizados dois tipos de passeios –um para mergulho e  outro para observação, ambos serão sempre acompanhados por condutores autorizados e capacitados pelo ICMBio.

Neste mês de fevereiro, os cerca de 300 condutores inscritos começam a ser treinados. Além da segurança dos visitantes e do ecossistema, os condutores deverão atuar como educadores ambientais, transmitindo informações sobre o arquipélago e sua importância para o equilíbrio ambiental.

As embarcações também terão monitores onde serão transmitidos vídeos educativos durante o percurso da costa até a ilha. “Nossa intenção é que a experiência não fique restrita à recreação, mas que este contato com a natureza seja enriquecedor, que o visitante saia daqui consciente da importância de manter o arquipélago de Alcatrazes protegido”, disse Thaís.

Cada condutor subaquático ficará responsável, no máximo, por quatro mergulhadores visitantes. Eles também serão responsável por controlar o comportamento de seus clientes, que não poderão pisar, manusear ou tocar qualquer espécie dentro ou fora da água.

Para receber as embarcações sem causar danos ao arquipélago, o ICMBio finalizou recentemente uma licitação para instalação de 17 poitas. As poitas ficarão no trecho aberto para visitação, contornando parte da costa rochosa da ilha principal. “As poitas são necessárias para evitar que as âncoras dos barcos causem danos, principalmente por conta da movimentação do substrato arenoso”, explica Thaís.

Como a instalação ds poitas depende muito do clima e precisa ser realizada com muito cuidado para evitar danos ambientais, a previsão é que seja concluído até maio. Os mergulhadores estão animados com a abertura do arquipélago para visitas monitoradas.

“Eu acredito que Alcatrazes vai se tornar um ponto internacional de mergulho. Sua diversidade marinha só se compara a Fernando de Noronha e Abrolhos”, disse o instrutor de mergulho Alexandre Prado, proprietário da empresa Scuba Do Diver, uma das operadoras habilitadas.

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