FCCR recebe críticas após devolver R$ 4,2 milhões à Prefeitura de São José
Presidente da Fundação Cultural diz que devolução não prejudica atividades


Orçamento da Fundação Cultural Cassiano Ricardo para 2018 era de R$ 28,8 milhões
Arquivo
A FCCR (Fundação Cultural Cassiano Ricardo ) devolveu à Prefeitura de São José dos Campos cerca de R$ 4,2 milhões, o equivalente a 14,8% do orçamento de 2018. A devolução foi comunicada ao Conselho Deliberativo da fundação em reunião realizada no dia 24 de abril.
De acordo com a presidência da FCCR, a devolução atende um pedido da prefeitura e não prejudicará as atividades culturais no município. Conselheiros e profissionais que atuam na área cultural em São José criticaram a medida.
“Durante a reunião do Conselho Deliberativo, eu me manifestei contrário à devolução. Há muitas coisas ainda a serem feitas na área cultural. Como consta na ata, eu citei o Festival da Mantiqueira e a Cia. De Dança, mas tem ‘n’ situações que poderiam receber esse investimento”, disse o conselheiro Fernando Scarpel.
Para ele, a presidência da FCCR deveria apresentar a proposta de devolução para votação no Conselho Deliberativo. “Não é um caso corriqueiro, no mínimo, seria de bom tom que a fundação convocasse uma reunião extraordinária com o Conselho”, disse.
O professor, poeta e ativista ambiental José Moraes disse que vai coletar assinaturas de artistas da cidade, a partir da próxima semana, para levar representação ao Ministério Público. “A Fundação não poderia entregar esse dinheiro para a prefeitura sem passar pelo Conselho Deliberativo. É verba que deveria ser investida em cultura”, disse Moraes.
A atriz Adriana Marques, do Teatro d’Aldeia, e o diretor e produtor de teatro Cláudio Mendel, do CAC (Centro de Artes Cênicas) Walmor Chagas, também criticaram a medida.
“Reconheço o trabalho que é feito pela Fundação Cultural e o estímulo que ela dá à cultura, mas isso ainda é muito pouco. Acho inconcebível a devolução desse dinheiro, é muito grande a demanda por cultura na cidade”, disse Adriana.
Para Mendel, que foi diretor cultural da FCCR entre 2009 e 2012, na gestão do tucano Eduardo Cury, é “um absurdo existir um superávit” pois isso mostra que a Fundação deixou de investir todos os seus recursos em cultura.
“Ampliar as ações fazendo parcerias, isso é fantástico, é uma bela iniciativa, mas tem que fazer isso para poder investir onde essa parceria não chega. Poderia investir tecnicamente nos espaços culturais. Muitos locais estão sem refletor ou sem som adequado, por exemplo.”,
Mendel e Moraes também lembraram que a extinção da Orquestra Sinfônica de São José dos Campos, uma das primeiras medidas anunciadas pelo tucano Felicio Ramuth, teria como justificativa a falta de dinheiro. O custo anual para manutenção da orquestra era de R$ 2,5 milhões, à época.
No vídeo postado nas redes sociais no dia 9 de janeiro de 2017, em que anuncia a extinção, Felicio ressaltou que “se Deus quiser, após alguns anos, a gente vai conseguir retomar a situação econômico-financeira da cidade para que a gente possa vir a ter uma orquestra sinfônica até maior.”
Fundação Cultural
A Fundação Cultural Cassiano Ricardo não devolveu toda a sobra registrada em 2018. Do orçamento de R$ 28,8 milhões, R$ 5,4 milhões não foram utilizados (18,9%) , destes R$ 4,2 milhões foram entregues à prefeitura (14,8%).
Segundo o presidente da FCCR, Aldo Zonzini, como superávit vem ocorrendo desde a gestão passada, a fundação decidiu acatar um pedido da prefeitura.
“A devolução desse dinheiro não vai prejudicar a cultura. Nós fizemos parcerias com o Estado e com entidades sem fins lucrativos e ampliamos muito as atividades culturais, gastando menos. Mais que dobramos o número de pessoas atendidas em cursos e oficinas nos bairros, e ainda aumentamos as oportunidades para os artistas da cidade”, disse Zonzini.
Sobre a Orquestra Sinfônica, ele disse que dois terços do investimento eram bancados pela prefeitura e o custo seria muito alto para a fundação arcar sozinha.
“Fazemos parte de um corpo único. A prefeitura tem prioridades e decidimos atender devolvendo o dinheiro que não foi utilizado e não fará falta”, disse.
Prefeitura
Por meio de nota enviada pela assessoria de imprensa, o Governo Felicio informou que “assim como já acontece com a Câmara Municipal, a Fundação Cultural Cassiano Ricardo também repassou à Prefeitura de São José dos Campos os recursos provenientes da boa gestão na instituição. Os valores retornam aos cofres do Executivo e serão aplicados, sem restrições, em ações de saúde e educação, áreas prioritárias do atual governo.”
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