Para diretor do Inpe, crescimento do país passa por investimentos no setor de ciência e tecnologia
Com o desafio de antecipar em um ano o lançamento do satélite Cbers-4, feito em parceria com a China, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) vive um período de trabalho acelerado para que a meta seja cumprida. O programa teve sua meta adiantada após o fracasso no lançamento do satélite Cbers-3, que caiu devido a uma falha como lançador chinês.












Com o desafio de antecipar em um ano o lançamento do satélite Cbers-4, feito em parceria com a China, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) vive um período de trabalho acelerado para que a meta seja cumprida. O programa teve sua meta adiantada após o fracasso no lançamento do satélite Cbers-3, que caiu devido a uma falha com o lançador chinês.
Em entrevista ao Meon, o diretor do Inpe, Leonel Fernando Perondi, fala sobre a complexidade que envolve a produção do principal satélite do instituto. Perondi ainda demonstra preocupação sobre o número reduzido de servidores do Inpe, que precisaria de 400 novos funcionários para equilibrar o quadro.
Em ano de eleição presidencial, o diretor também defendeu o investimento na área de ciência e tecnologia como forma de garantir ascensão social e crescimento econômico no que chamou de “forma robusta de distribuição de renda”.
O Cbers-4, hoje principal projeto do Inpe, teve seu prazo antecipado em um ano após o fracasso no lançamento do Cbers-3. Como vem sendo o trabalho do instituto para que o lançamento ocorra na data estipulada?
Praticamente não houve parada entre os trabalhos com o Cbers-3 e o início das atividades com o Cbers-4. Portanto, a equipe vem trabalhando sem interrupção desde 2004, quando o projeto foi iniciado. Voltamos a montar sistema por sistema, equipamento por equipamento do satélite. Para se ter uma ideia da complexidade que é, monta-se sistema de telecomunicações, estrutura, controle térmico, controle de altitude e órbita, controle de cargas úteis, suprimento de energia, serviços e telecomunicações de cargas úteis. Isso envolve uma dificuldade enorme. Tem que ter toda uma rotina cuidadosa, pois, uma vez que esteja em órbita, o satélite não pode falhar. Por isso, os projetos espaciais demoram um pouco mais para ficarem prontos e não podem ser realizados às pressas. Dentro dessas restrições, conseguimos, em um ano a viabilidade de cumprir esse quadro.
Os dois modelos são iguais. O que foi aproveitado dos trabalhos já iniciados do Cbers-3?
O Cbers-3 e o Cbers4 são realmente o mesmo satélite. Você aproveita a experiência anterior de já ter integrado o três, mas não abrevia o trabalho. Montar o satélite é como uma receita de bolo. Precisa-se fazer de forma planejada e depois uma série enorme de testes para garantir que todas as partes atendem os requisitos de confiabilidade.
Como foi a decisão de que o Cbers-4 seria lançado já em dezembro deste ano?
Logo após a queda do Cbers-3, em 2013, foi realizada uma reunião extraordinária com os representantes chineses, parceiros do projeto. Naquela oportunidade foram lançados três cenários para o lançamento do Cbers 4: um, mais desafiador, no final de 2014, outro, durante 2015 e, por último, em dezembro de 2015. O Ministério de Ciência e Tecnologia, em parceria com o Inpe, se colocou favorável ao primeiro cenário. A melhor resposta que se poderia dar à perda foi colocar logo o outro modelo no ar e este foi o desafio que aceitamos.
O atual quadro reduzido de pesquisadores que o Inpe atravessa é um desafio para alcançar esta meta?
Hoje posso dizer que já chegamos a uma margem segura para garantir que a meta vai ser atingida. Mas é sabido que estamos chegando a um limite de capacidade produtiva. Temos uma idade média de 52 anos entre os funcionários. Precisamos renovar nosso quadro em 400 funcionários, principalmente na área administrativa. Os investimentos devem ser para, no máximo, os próximos quatro anos.
Atualmente o Brasil está sem satélite em órbita?
Temos dois satélites de coleta de dados em órbita, o SCD-1 e o SCD-2, satélites fabricados no Brasil. O primeiro lançado em 1993 e o segundo, em 1998, mas são pequenos satélites, na ordem de 100 quilos que operam o chamado Sistema Brasileiro de Coleta de Dados em torno de 70 plataformas de coleta de dados espalhadas pelo país. Coleta de dados, tipicamente temperatura, umidade e índice pluviométrico, esses dados são distribuídos diariamente. Agora, satélite operacional sobre a Terra nós não temos por enquanto, por isso estamos utilizando imagens de outros sistemas operacionais.
E quanto isso custa para o país?
Isso depende do tipo de imagem que nós precisamos para uma pesquisa. Imagens de alta resolução têm um custo mais elevado. Outras, com imagens menos detalhadas, já contam com um custo muito mais baixo. Costumamos usar muito as imagens do segundo tipo para estudos que envolvem o monitoramento da taxa de desmatamento da floresta amazônica.
A autonomia no monitoramento espacial é então o principal avanço para o país com o projeto Cbers-4?
Uma razão é o serviço e o produto gerados pelos satélites. Mas outra razão do programa espacial, que é talvez ainda mais importante do que esta primeira, é da capacitação do país no desenvolvimento e fabricação dos sistemas espaciais. Esse é um objetivo de política industrial, vamos chamar assim. A indústria ganha capacitação tanto na parte de gestão de projetos, quanto na aplicação crítica. Com isso, essas empresas ganham capacitação em produtos com maior valor agregado, que pagam melhores salários para o trabalhador e que ofereça melhor fonte de renda. Lá na frente, esse progresso científico vai contribuir também para a ascensão social do país.
O senhor poderia explicar melhor essa relação entre o investimento em ciência e tecnologia com a ascensão social no país?
Vivemos uma realidade na qual seis produtos primários correspondem a mais de 50% de tudo o que é exportado no país. Exportamos carne, minério, petróleo, açúcar e grãos, mas o grande esforço do Brasil é de que ele consiga exportar produtos com maior valor agregado. A forma do desenvolvimento econômico está muito ligado ao desenvolvimento social. Portanto, se há tecnologia para produção com mais valor agregado, temos uma melhor distribuição de renda pelo emprego, já que a remuneração é maior. Hoje temos uma grande massa de trabalhadores com renda muito baixa, pois nossa produção está voltada justamente para esses produtos primários, com baixo valor agregado. O avião, por exemplo, é um produto de grande valor agregado e gera um padrão de renda superior. Não deixa de ser uma forma robusta de distribuição de renda.
E qual é o papel do Inpe neste panorama?
Uma parte do trabalho do Inpe está relacionada a isso: capacitar a indústria a produzir produtos com maior grau de sofisticação. Como já disse, isso gera empregos mais qualificados e renda maior. Quando se compara o Brasil a outros países dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), percebemos que, principalmente, a China tem esse perfil de exportar produtos com tecnologia muito avançada e que, com isso, vem promovendo uma também uma melhoria social.
Considerando essa realidade, te incomoda que, em ano de eleições presidenciais, a ciência e tecnologia ocupe tão pouco espaço na agenda dos candidatos?
Quando falamos em investimento em ciência e tecnologia, estamos tratando de uma aposta a longo prazo. Ao mesmo tempo que é preciso aumentar o repasse de verbas e o quadro de servidores de institutos como o Inpe, também precisamos aumentar o estímulo desde a educação básica. É importante que as pessoas tenham vontade de seguir a profissão de pesquisador e cientista. E esses estímulos são criados quando se trata a escola com bastante seriedade, quando se remunera bem os profissionais da área de ciência. O sentimento é de que poderíamos ter muito mais, é um desperdício tremendo nossa agenda estar voltada somente para outras prioridades.
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