Tráfico paga até R$ 200 por dia para adolescentes em São José dos Campos
Crianças e adolescentes recebem de R$ 150 a R$ 200 por dia para trabalhar para o tráfico em São José dos Campos. Com tamanha oferta, quem paga um preço ainda maior são as famílias: esses meninos entram em um caminho sem volta que termina em constantes prisões e muitas vezes em morte.


Delegado Fábio Carvalho ouve relatos diários de adolecentes no tráfico
Flávio Pereira/Meon
Crianças e adolescentes recebem de R$ 150 a R$ 200 por dia para trabalhar para o tráfico em São José dos Campos. Com tamanha oferta, quem paga um preço ainda maior são as famílias: esses meninos entram em um caminho sem volta que termina em constantes prisões e muitas vezes em morte.
“Isso é um mercado. Existe um produto chamado droga e uma enorme quantidade de compradores. O tráfico faz esses adolescentes pensarem que é só mais um trabalho e que, apesar dos riscos, paga bem, entre R$ 150 e R$ 200 por dia. Infelizmente só aumenta o número de menores envolvidos nesse mundo”, afirma Fábio de Carvalho Joaquim, delegado da Diju (Delegacia de Polícia da Infância e Juventude) em São José.
Para o delegado, faltam leis mais severas em relação ao tráfico. “Quando a lei descriminalizou o uso de entorpecentes aumentou o consumo. Com isso, cresceram também as vagas, digamos, de emprego com traficantes. Muitos meninos que ficam detidos aqui falam abertamente que trabalham com drogas e que essa é a forma que encontraram de ter dinheiro e conseguir o que querem, como roupas de marca, celular bom, entre outras coisas”, detalha Joaquim.
Protagonistas
A Promotoria da Vara da Infância e Juventude de São José dos Campos enxerga o problema por outro prisma. Segundo o promotor João Marcos Costa de Paiva, apesar da quantidade expressiva de crianças e adolescentes envolvidos com o tráfico, o problema não é a falta de leis, mas a falta de oportunidades e de políticas públicas mais efetivas.
“Não faltam leis. As medidas sócio-educativas são regiamente aplicadas em São José. As punições são aplicadas. Agora a punição para um adolescente é diferente da aplicada a um adulto. O que falta é mudar e ampliar o acesso às políticas públicas, que esses meninos tenham acesso ao esporte, à educação de qualidade e às oportunidades boas”, diz Paiva.
Para o promotor, a questão do envolvimento como tráfico é também uma questão ligada ao comportamento. “A adolescência é uma faixa etária marcada pela busca do protagonismo. Esses meninos querem se destacar. Com isso, quem não teve oportunidade e também por não ter condições financeiras, acaba encontrando no tráfico uma forma de se destacar, de ter dinheiro e suprir essas necessidades da idade”, explica.
Dados
Se de um lado os valores pagos atraem os mais jovens, os riscos apavoram. Segundos dados da Secretaria de Segurança Pública, 50% das vítimas de homicídios registrados em 2014 no interior do estado, tinham entre 10 e 35 anos. Deste recorte, quase 10% morrem antes de completar 20 anos de idade. Um outro levantamento feito pela Polícia Militar revela ainda que 60% dos homicídios registrados na RMVale envolveram traficantes ou estavam relacionados ao tráfico de entorpecentes.
Fora os jovens que acabam mortos por causa das drogas, aparecem ainda uma quantidade cada dia maior de jovens com menos de 18 anos apreendidos em São José dos Campos pela Polícia Civil. Somente nos primeiros cinco meses de 2014, foram detidos 454 adolescentes -quase o dobro das prisões de 2013, quando foram contabilizadas 315 apreensões.
Na Vara da Infância também é expressiva a quantidade de julgamentos e medidas sócio-educativas aplicadas por ano em São José. Segundo Paiva, por mês são aplicadas penas para cerca de 30 a 35 adolescentes. São realizados, em média, 330 julgamentos por ano, apenas em relação ao tráfico.
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