Três anos depois, moradores voltam às ruas do Pinheirinho

Visita ao local aconteceu no final de ato organizado pelo Must em São José

Escrito por: Elaine Rodrigues3 min de leitura
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O portão abriu devagar e aos poucos, com um poema sendo declamado ao fundo, eles foram entrando, cruzaram o portão do terreno onde viveram quase uma década, “de onde ainda fui tirada como se fosse um bicho, como se fosse bandida”, completa Iraci Justina Oliveira, 57, ex- moradora do Pinheirinho em São José dos Campos.

A chuva fina e o céu cinza combinava com os semblantes das famílias que visitaram pela primeira vez após a desocupação em janeiro 2012,  o terreno batizado de Pinheirinho, que pertence à massa falida Selecta S.A., na região sul da cidade.

A visita ao antigo assentamento aconteceu na manhã desta quinta-feira (22) durante o 3º Ato em Memória à Desocupação Violenta do Pinheirinho.  Os ex-moradores andaram por algumas das antigas ruas onde moravam. A entrada foi autorizada pelos vigias, que hoje guardam o local 24 horas por dia.

“É uma tristeza sem tamanho ver que tudo que eu tinha, plantações, pomar, criação de galinha, foi tudo destruído. Sobrou a mangueira, ta todo mundo colhendo as mangas agora como se tivesse roubando, mas não, isso tudo aqui é nosso, nós que plantamos. Agora resta esperar que venha logo a nossa casinha”, afirmou a catadora Maria Auxiliadora Silva, 63.

Destruição
Andando mais ao fundo do terreno, ao longe, se vê uma montanha de metal. O mecânico Pedro Vieira Lima, se aproximou e ao rodear o local, encontrou totalmente destruído, amassado e contorcido em um monte de ferros, borrachas, tecidos e peças de carros, seus dois carros.

“No dia da desocupação, sai correndo e só peguei alguns pertences. Depois tentei voltar para pegar os carros, que estavam pagos, licenciados, tenho os documentos. Eles [os veículos] estavam com problema no motor, estava arrumando. A polícia não deixou eu trazer o guincho para tirar e não me devolveram. Tinha esperança de reaver e não sei o que te dizer vendo o que era meu, fruto do meu trabalho, amassado como uma lata velha em uma montanha feita com os nossos carros, carros de trabalhadores. Eles vão nos pagar por isso”, disse o mecânico.

Ato
O Ato começou por volta das 9 horas. Cerca de 300 pessoas acompanhavam do lado de fora do portão central do terreno. “Vamos cobrar e continuar acompanhando a construção de nossas casas. Não vamos esperar até março de 2016. Já falei com a presidente Dilma Rousseff, em dezembro queremos as casas prontas, vamos entrar lá no fim de ano e pronto”, diz um dos coordenadores do movimento, Valdir Martins, o Marrom.

Os líderes do movimento aproveitaram a manifestação para dar explicações sobre o atraso nas obras do conjunto residencial Pinheirinho dos Palmares, na região sudeste de São José, destinados aos ex-moradores da ocupação.

“A obra ficou parada um tempo porque o Governo Federal não repassou o dinheiro para a construtora e as empreiteiras sem receber foram embora. Agora a Elglobal nos garantiu que vai ela mesma contratar os trabalhadores e terminar a obra, que deve ser retomada ainda esse mês”, afirma Marrom.

Indenizações
Nesta quinta-feira (22), expira ainda o prazo para que os moradores entrem com processo contra a Selecta por danos materiais e morais. De acordo com o defensor público Jairo Salvador, ao todo já foram abertos 1.100 processo individuais e coletivos por danos morais e materiais contra a prefeitura, o Estado e a Selecta.

“Os casos terão que ser julgados todos aqui na vara da Fazenda Pública e estamos aguardando. São 1789 famílias, quase 1% da população da cidade, que foi removida em uma noite, de forma violenta e desordenada, e isso tem que ser reparado”, conclui o defensor.

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