Antonio e Bruno Fagundes comentam falta de apoio ao teatro nacional

Lado a lado, duas gerações do mundo das artes cênicas que esperam por dias em que o teatro será mais apoiado pelo poder público, pela imprensa e até mesmo pelos espectadores.

Escrito por: Thiago Fadini7 min de leitura
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Pai e filho protagonizam “Tribos”

Thiago Fadini/Meon

Lado a lado, duas gerações do mundo das artes cênicas que esperam por dias em que o teatro será mais apoiado pelo poder público, pela imprensa e até mesmo pelos espectadores.

Em São José dos Campos para a exibição da peça “Tribos”, o ator Antônio Fagundes e o filho Bruno Fagundes receberam o Meon para um bate-papo sobre a nova produção, as dificuldades de levar montagens para o interior do país e o público do Vale do Paraíba.

O espetáculo “Tribos” está em cartaz no Teatro Colinas (dentro do Colinas Shopping) e terá sessões às 19h e 21h30 de sexta-feira (27) e sábado (28). A última exibição do sábado terá ainda o auxílio de um intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) para os deficientes auditivos.

Os ingressos para o espetáculo custam R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia) e podem ser adquiridos na bilheteria do Teatro.

Como surgiu a ideia de interpretar “Tribos”?
B:
Eu assisti a essa peça lá fora e me apaixonei, exatamente por essa proposta que o texto traz que é de discutir esse assunto de uma maneira sem ser tendenciosa, sem ser piegas, ele explora esse problema usando um deficiente auditivo com foco e metáforas dessa questão de uma maneira divertida. Faz a gente refletir sobre a modernidade.

Qual a mensagem principal e a reflexão que vocês pretendem passar ao público?
A:
O texto é bastante claro com relação a deficiência auditiva, mas se você parar pra prestar atenção você vai ver que tem outros níveis de leituras que são muito interessantes. A gente vive na era da informação e acha que está se comunicando com aqueles aparelhinhos e nunca foi tão surdo, tão cego, tão mudo, a gente já nem se fala mais. Tenho amigo que já não tem nem secretária no telefone. A voz está sumindo também. Com a moda do Instagram, a palavra está sumindo também só imagem. Então o texto fala um pouco dessa surdez e incapacidade do mundo se comunicar e fala através de uma família, que é um microcosmos bastante interessante pra gente analisar e essa família especificamente é muito louca.

Nessa preparação para a peça, encontraram alguma dificuldade com relação à interpretação dos personagens?
B:
É uma peça muito complexa, porque somos de escolas diferentes e tivemos que criar uma maneira de unificar o nosso trabalho para parecer realmente uma família em cena. Além desse desafio, a peça tem uma agilidade e modernidade que exigiu muito da gente em termos de atingir essa química orgânica de um estado familiar em que as palavras são soltas, como no cotidiano familiar. Então acho que nesse sentido a gente teve que prestar bastante atenção. Eu, particularmente, na questão do personagem deficiente auditivo. Foi um processo intenso de envolvimento com a comunidade surda e intérpretes com línguas de sinais para entender essa realidade.

Vocês já passaram pelo Vale do Paraíba e foram à Jacareí. Como foi a recepção do público e o clima?
A:
Está sendo muito bom pra nós, até porque a gente optou por fazer cidades que a gente nunca tinha ido antes. Está sendo ótimo ver que o público está atento a isso e está vindo. Já temos duas sessões extras então quer dizer que a coisa tem funcionado.

B: Foi muito legal que quando fomos pra Jacareí a gente ouviu muito que o pessoal de São José dos Campos ia ficar enciumado, porque estamos no Vale do Paraíba e fomos pra lá primeiro. Dissemos “vamos tirar esse atraso”. Como prometemos, estamos aqui.

Como vocês veem hoje o desenvolvimento do teatro no interior do país?
A:
É um problema difícil, porque tem muita coisa que não passa pela nossa mão. Nós não somos o Ministério da Educação, nós não temos condições de educar o público no sentido de que ele saiba qual é a importância e o que está acontecendo com o panorama teatral. A gente a faz a nossa parte, que é produzir um bom espetáculo e tentar levar ao maior número de lugares possíveis, lugares até muito distantes da nossa sede. Há um custo muito alto. A nossa produção não tem patrocínio nenhum, fizemos como uma cooperativa, nós somos parceiros nesse projeto, dependemos única e exclusivamente da bilheteria. Aí fica na mão do público e dos habitantes de cada cidade que a gente visita fazer a sua parte, que às vezes é só ir lá e se divertir, mas se as peças começarem a vir com uma certa regularidade, vai proliferar a construção de teatros pela cidade.

B: Acho que é realmente um ciclo. Quanto mais o público vem e aproveita essa oportunidade, mais companhias vão vir pra cá e uma coisa puxa a outra. Mesmo nos grandes polos o público não sabe direito ainda o custo de uma produção e fazer sem financiamento nenhum e nenhum apoio.

Para o público que ainda vê o teatro com distância, quais as diferenças entre o teatro e a TV?
B:
Estou fazendo um personagem aqui que talvez eu jamais faria na televisão com a minha breve carreira e com a minha pouca idade. Acho que o que nos motiva a fazer teatro, além do exercício diário e contato imediato e direto com o público, é pelo lugar em que a gente pode experimentar e se aventurar, traças novos caminhos. A gente só se propõe a fazer uma peça de teatro quando ela nos traz um desafio.

A: Quem fala isso nunca foi ver o Chico Buarque ao vivo. O dia que sentar e ver o Chico paradinho ali na frente do microfone cantando vai chorar feito criança. O teatro tem essa energia que veículo nenhum consegue captar, porque não é uma questão de captação, é uma questão de comunicação direta com a platéia. O público está vendo você ali, na sua frente e tudo pode acontecer. Você pode errar, pode apagar a luz, pode tropeçar e de repente quando acaba o espetáculo, deu. Isso só o teatro faz.

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Espetáculo aborda a “surdez universal” na era moderna

Divulgação

Teve algum personagem que marcou mais vocês no teatro?
A:
Prefiro deixar o público pensar assim. Eu gosto de saber que alguém pensou assim, “que teve um personagem que me marcou muito e que ele fez”.

B: Eu gosto de brincar que foi sempre o último, então no caso é o personagem presente. A gente pensa nessa peça diariamente. Costumo brincar que é o último e o próximo será o próximo.

Acreditam que a contribuição dos veículos de comunicação para o teatro está sendo efetiva?
A:
Poderia ser um pouco melhor, mas a gente sabe que isso às vezes não depende nem do profissional da cultura e depende do editorial. Você abre qualquer jornal e tem três, quatro, cinco páginas com roteiro de cinema, integral. O teatro, se você abrir um jornal numa quinta-feira em São Paulo é como se não tivesse nenhuma peça em cartaz. Tem 150 peças em cartaz em São Paulo. Alguns jornais de São Paulo só publicam roteiro às sextas-feiras. Então isso é um problema que não temos como combater e só vai combater quando o público começar a exigir.

B: Acho que é questão de interesse. Se o público quiser ele vai atrás. O público vindo já está mudando isso. A possibilidade de estar aqui com o público já é uma mudança.

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