Alunos

Cansada

Relato de metade da população mundial

Carolina Quadros (Arquivo Pessoal )

Escrito por Carolina Quadros Motta Bastos

05 AGO 2022 - 19H55

Arte/Gabby Toon

Estou cansada. Cansada de ter nascido mulher num mundo onde ser mulher é ser um nada.

Estou cansada. Cansada de lutar pelas minhas oportunidades sempre o dobro e mesmo assim não conseguir metade. Cansada de ser acusada de tentar homens e meninos, de distrair colegas por usar uma saia que alcança acima do joelho ou uma regata. Cansada de meticulosamente avaliar minha imagem, maquiagem, cabelo e roupas (a linha entre o desleixo e a vaidade excessiva é muito fina, quase invisível).

Estou cansada. Cansada de vigiar meu copo todos os instantes em um ambiente destinado à diversão, mesmo em meio a rostos conhecidos. Estou cansada de andar na rua, à luz do Sol ou da Lua, com medo, cara de brava, fone de ouvido e cabeça baixa, sempre assistindo sombras e medindo o meu espaço entre a parede e os carros. Estou cansada de compartilhar minha localização em tempo real assim que entro num Uber, num ônibus ou num metrô.

Estou cansada. Cansada de pensar que há meninas mais novas que eu sendo entregues a maridos muito mais velhos, sendo obrigadas a carregarem e terem seus filhos, e então cuidar de cada um como se houvesse sido uma escolha. Cansada de ver no noticiário mulheres que têm, a cada dia, menos direitos humanos que eu pensei que eram intrínsecos a todas as pessoas. Cansada de saber que há mulheres que foram sequestradas e traficadas, hoje mortas, violentadas ou servindo como escravas sexuais.

Estou cansada. Cansada de ser desaprovada caso eu coloque qualquer coisa na minha vida à frente de ter uma criança. Cansada de ser dita para engolir todos os meus problemas para fazer um marido mais feliz. Cansada de passar o dia sendo reprimida pela sociedade e, em casa, um local que deveria ser o mais seguro de todos, sofrer o mesmo.

Estou cansada. Cansada de cintos e outros aparelhos de segurança terem sido criados apenas pensando na anatomia masculina. Cansada de ter que tomar medicamentos que foram testados visando o bem estar e o organismo de homens brancos. Cansada de ser menosprezada em qualquer campo profissional e a cada escolha feita por mim.

Estou cansada. Cansada de ver que nos Estados Unidos, um dos países mais influentes da atualidade, armas têm mais direitos que as mulheres. Cansada de assistir a uma menina de 11 anos, assim como muitas e muitas outras, não ter sua segurança e sua infância asseguradas por lei. Cansada de perceber que nenhuma de nós nunca está a salvo da violência, independentemente da nossa ocupação ou poder aquisitivo, e, mesmo vencendo na vida monetariamente, esta não é a saída.

Estou cansada. Cansada de lutar e lutar e lutar e lutar por décadas e mais décadas e sentir que, apesar dos passos para frente, também vários foram dados para trás. Cansada de viver nesse mundo curado e moldado para homens, presa em uma sociedade ultrapassada e patriarcal. Cansada de ver que não há saída dessa vida de cansaço.

Mesmo assim, mesmo com todo esse cansaço, com toda essa agonia advinda do simples ato de viver, eu não me entrego ao sono. Eu me mantenho acordada. Me mantenho forte. Me mantenho na luta porque não quero que as mulheres que venham depois de mim, de todas nós, se cansem.

Com supervisão de Léo Lenzi, jornalista do Meon Jovem. 





Escrito por
Carolina Quadros (Arquivo Pessoal )
Carolina Quadros Motta Bastos

Aluna do 3° ano do Ensino Médio do Colégio Embraer - Juarez Wanderley, em São José dos Campos

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