A família como ato de resistência

No Brasil de hoje, construir uma família estruturada não é só uma escolha pessoal. É um ato político

Escrito por: Cláudio Apolinário3 min de leitura
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Existe uma palavra que o debate público usa muito e entende pouco. Resistência.

Resistência virou sinônimo de protesto. De marcha. De manifestação. De discurso. Como se
resistir fosse sempre algo barulhento, coletivo e visível.

Mas a resistência mais duradoura da história não aconteceu nas praças. Aconteceu dentro de
casa.

Em qualquer sociedade que passou por momentos de destruição — ditaduras, perseguições,
crises profundas — o que sobreviveu não foi o Estado. Foi a família. Foi ela que manteve viva a
fé quando as igrejas foram fechadas. Foi ela que transmitiu valores quando a escola foi
capturada. Foi ela que formou caráter quando tudo ao redor tentava apagar o que era certo.

A família não é o reflexo da sociedade. É a origem dela.

E os dados confirmam o que a história já mostrou. Um relatório do Instituto Promundo,
publicado em 2026 com dados do UNICEF e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública,
mostrou algo revelador: quanto mais o pai está presente na vida dos filhos, menor é a violência
contra crianças e adolescentes.

Santa Catarina lidera o Índice de Desenvolvimento das Paternidades — e está entre os estados
menos violentos do país. Sergipe e Bahia têm os piores índices de presença paterna — e estão
entre os mais violentos.

Não é coincidência. É consequência direta.

A ciência confirma o que qualquer pai presente já sabe na prática. Crianças com pais envolvidos
nas etapas de crescimento apresentam menos ansiedade, menos problemas de comportamento,
melhor desempenho escolar e mais capacidade de lidar com emoções. A presença paterna não é
detalhe na formação de uma criança. É estrutura.

E no Brasil, essa estrutura está desmoronando.

7,8 milhões de crianças crescem sem pai na certidão. Famílias chefiadas por mulheres sozinhas
cresceram 17,8% em dez anos. A ausência não é só estatística — é o ambiente em que uma
geração inteira está sendo formada. E ambiente forma caráter. Sempre formou.

É por isso que decidir estar presente — como pai, como mãe, como família — não é apenas uma
escolha pessoal. É um ato de resistência concreta. É decidir que haverá um pai presente. Uma
mãe presente. Que valores serão transmitidos intencionalmente. Que limites serão estabelecidos
com amor. Filhos formados para o mundo — não entregues ao mundo para que o mundo os
forme.

Isso não é autoajuda. Não é romantismo. É a decisão mais importante que um cidadão pode
tomar num país onde o Estado falha, a escola doutrina e a cultura empurra para a fragmentação.

A família que funciona incomoda. Porque ela não precisa do Estado para transmitir valores. Não
precisa da escola para formar caráter. Não precisa da mídia para dizer quem ela é. Ela faz isso
sozinha — e faz melhor.

Nenhuma lei resolve o que a família resolve. Nenhum programa social substitui o que um pai
presente faz. Nenhuma política pública reproduz o que acontece quando uma criança cresce
num lar onde há amor, limite e exemplo.

O Brasil precisa de reformas. Precisa de leis melhores, gestores mais honestos, instituições que
funcionem. Mas precisa, antes de tudo, de pais e mães que decidam estar presentes todos os
dias.

Não abandonar. Não delegar. Não terceirizar a formação dos filhos para o Estado, para a escola
ou para a tela do celular.

A restauração do Brasil começa onde sempre começou — dentro de casa. Uma família de cada
vez. Um filho formado de cada vez. Um valor transmitido de cada vez.

Isso não aparece no noticiário. Não gera manchete. Mas é o que muda um país.

Cláudio Apolinário
Cláudio Apolinário

Coluna do Apolinário

Claudio Apolinario é vereador, articulista e analista político.

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