Saúde: Gasta como rico. Entrega como pobre
O Brasil gasta em saúde quase o mesmo que países ricos — mas quem paga a diferença é o cidadão. Quem não tem plano espera 2 anos por uma cirurgia. Isso não é falta de recurso. É escolha

O Brasil tem uma das maiores redes de saúde pública do mundo. E uma das maiores filas
também.
Em 2024, mais de um milhão de brasileiros aguardavam na fila do SUS por cirurgias eletivas
Procedimentos que não são emergência — mas que doem, que limitam, que impedem de
trabalhar. Essa fila cresceu 26% em relação a 2023. O tempo médio de espera é de 2 anos e 4
meses.
Dois anos e quatro meses esperando por uma cirurgia.
O Brasil e os países ricos gastam no total percentuais parecidos em saúde — em torno de 9% da
economia. A diferença está em quem paga essa conta. Nos países ricos, o Estado banca 70% do
total gasto. No Brasil, o estado banca apenas 45%. A diferença é paga pelo cidadão — quem
pode paga plano, quem não pode espera na fila. O Estado brasileiro entra com menos e transfere
a diferença para o bolso do cidadão.
E o impacto é direto: o Brasil gasta apenas US$ 1.573 por pessoa em saúde por ano. Os países
ricos gastam US$ 4.986. Menos de um terço.
Menos de 25% dos brasileiros têm plano de saúde — cerca de 53 milhões de pessoas. Os outros
160 milhões dependem exclusivamente do SUS.
No andar de cima, quem tem plano agenda consulta com especialista em dias, faz exame na
semana, é operado em semanas. No andar de baixo, quem depende do SUS espera meses por
uma consulta, meses por um exame, anos por uma cirurgia. São os mesmos impostos pagos. São
resultados completamente diferentes.
E o custo dessa espera não aparece só na fila. Aparece no trabalhador que perde emprego
enquanto aguarda uma cirurgia que poderia tê-lo recuperado em semanas. Aparece na criança
que deixa de ir à escola porque a mãe não tem com quem deixá-la durante as consultas
intermináveis. Aparece no idoso que piora enquanto espera o diagnóstico. A fila do SUS não é
só inconveniente. É um gerador silencioso de pobreza.
Esse não é um problema sem comparação. Um estudo sobre eficiência dos sistemas de saúde na
América Latina mostrou que o Brasil figurou de forma consistente entre os países menos
eficientes da região — ao lado de países que gastam proporcionalmente menos e entregam mais.
Chile e Colômbia, que investem percentuais menores do PIB em saúde pública, aparecem entre
os sistemas mais eficientes da região. A diferença não está em quanto se gasta. Está em como se
gasta — e em quem responde pelo resultado.
E não é um problema novo. O Estado brasileiro sempre transferiu para o cidadão uma fatia
maior da conta do que os países desenvolvidos fazem. Não é de hoje. São décadas de escolhas
orçamentárias que priorizaram outras despesas e deixaram o sistema público funcionando
abaixo do que a população precisa.
Cada vez que um orçamento é aprovado com menos dinheiro para a saúde do que o necessário,
alguém decide que a fila pode esperar. Cada vez que um gestor não é cobrado pelo resultado do
sistema que administra, a fila cresce.
O Brasil não precisa de mais discurso sobre saúde. Precisa de menos tolerância com a fila.
Quem tem voz — quem vota, quem debate, quem influencia — tem uma responsabilidade
concreta: parar de aceitar 2 anos e 4 meses como resposta normal.
Quando uma espera absurda vira aceitável, ela vira permanente.
Porque 2 anos e 4 meses esperando por uma cirurgia não é inevitável. É consequência da
escolha de quem controla o sistema.

Coluna do Apolinário
Claudio Apolinario é vereador, articulista e analista político.
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