O preço do crime

O Brasil perde mais de R$ 693 bilhões por ano com a criminalidade. Mas o custo mais alto não aparece nos números — aparece nas vidas que param

Escrito por: Cláudio Apolinário4 min de leitura
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Em 2024, o Brasil registrou 42.590 homicídios. São 116 pessoas mortas por dia. Quatro a cada
hora. Enquanto você lê este parágrafo, alguém no Brasil está sendo assassinado.


Esses números são do Atlas da Violência 2026, publicado pelo Ipea em parceria com o Fórum
Brasileiro de Segurança Pública. O dado oficial aponta queda de 7,4% em relação a 2023 — o
menor patamar desde 2014. Mas o próprio Ipea alerta: parte das mortes simplesmente não está
sendo contada. Quando esses casos são incluídos, a queda real cai para apenas 0,3%. Na prática,
estagnação.


E mesmo aceitando os números oficiais como verdadeiros, o Brasil perdeu mais de 300 mil
jovens entre 15 e 29 anos para a violência em onze anos. Não são estatísticas. São pessoas. São
filhos, pais, irmãos que não voltaram para casa.
Mas há uma dimensão desse problema que raramente aparece no debate público. O custo
econômico da violência.


Segundo o Ipea, o Brasil perde o equivalente a R$ 693 bilhões por ano com os efeitos do crime
— quase 6% de tudo que o país produz em um ano inteiro — mais do que todo o orçamento
federal de saúde e educação somados. O número inclui gastos com segurança, perdas de
produtividade, danos à propriedade e o custo humano das mortes prematuras. Cada homicídio
custa, em média, R$ 1 milhão aos cofres públicos — somando saúde, previdência, segurança,
processos judiciais e perda de produtividade. Com mais de 42 mil homicídios por ano, a conta
ultrapassa R$ 42 bilhões só com mortes.


Empresas brasileiras gastam R$ 170 bilhões por ano em segurança privada — 1,7% do PIB,
segundo a Confederação Nacional da Indústria. São recursos que não constroem nada, não
criam emprego, não melhoram a vida de ninguém. São gastos para tentar compensar a ausência
do Estado onde ele mais deveria estar presente: garantindo que as pessoas possam viver e
trabalhar em segurança.


E aqui está o ponto que o debate político prefere evitar: o problema não é falta de policial. É a
impunidade.


Em 2023, apenas 36% dos homicídios dolosos — quando há a intenção de matar — foram
esclarecidos, segundo o Instituto Sou da Paz. Isso significa que em 64% dos assassinatos,
ninguém foi responsabilizado. Nenhuma investigação concluída. Nenhuma denúncia ao
Ministério Público. Nenhuma punição.


Na Bahia, o pior estado do ranking, apenas 13% dos homicídios foram esclarecidos. Na prática,
quem mata na Bahia tem 87% de chance de não ser responsabilizado.


Esse dado explica tudo o que os discursos sobre segurança pública não conseguem explicar. O
crime não persiste porque faltam policiais. Persiste porque matar no Brasil raramente tem
consequência. A polícia prende — e com frequência o sistema solta. O inquérito some na fila. O
processo prescreve. A impunidade não é exceção. É o padrão.


Um país que não pune o crime ensina que o crime compensa. E quando o crime compensa, ele
se expande — para as comunidades, para as periferias, para os jovens sem perspectiva que
aprendem cedo que a lei não vale para todos da mesma forma.


O crime não é um problema de falta de recursos para a segurança pública. O Brasil gastou R$
124,8 bilhões em segurança pública em 2023, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança
Pública. O problema é que esse dinheiro entra num sistema que não fecha o ciclo — que
investiga pouco, denuncia pouco, condena pouco e prende ainda menos.


E o custo vai além do bolso. Uma criança que cresce num bairro onde tiroteios são rotina, perde
dias de aula. O professor pede transferência. O comerciante fecha mais cedo. O investidor
escolhe outra cidade. O ciclo de pobreza se aprofunda — não porque as pessoas não querem
trabalhar, mas porque o Estado não consegue garantir o mínimo: que elas cheguem ao trabalho e
voltem para casa.


A solução não está em mais gastos com segurança. Está em acabar com a impunidade —
investigar mais, denunciar mais, julgar mais rápido e punir com consistência. Não como
vingança. Como sinal claro de que o crime tem preço.


Quando o Estado não dá esse sinal, alguém ocupa o vácuo. E quem ocupa nas periferias
brasileiras não é o governo — é o crime organizado, com suas próprias regras, sua própria
justiça e seu próprio preço para quem desobedece.

Cláudio Apolinário
Cláudio Apolinário

Coluna do Apolinário

Claudio Apolinario é vereador, articulista e analista político.

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