Correios concentram maior déficit entre estatais federais, aponta levantamento

Empresas estatais federais acumularam resultado negativo de R$ 7,4 bilhões entre janeiro e junho de 2026

Escrito por: Rubens Baracho3 min de leitura
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Os Correios concentram a maior parcela do déficit registrado pelas empresas estatais federais não dependentes e aparecem como o principal ponto de preocupação nas contas do setor. Entre janeiro e junho de 2026, as estatais federais acumularam déficit de R$ 7,4 bilhões.

A avaliação é do especialista em contas públicas Murilo Viana, com base em dados do Banco Central. Segundo ele, as empresas ligadas ao setor nuclear, lideradas pela Eletronuclear, aparecem na sequência entre as que apresentam os maiores resultados negativos. Infraero, Casa da Moeda e companhias portuárias também registram dificuldades financeiras, porém em escala menor.

Os números do Banco Central mostram que o desequilíbrio das estatais federais não dependentes se agravou nos últimos anos. Em junho de 2022, o resultado negativo era de R$ 171,8 milhões. Em junho de 2023, chegou a R$ 1,5 bilhão e alcançou R$ 1,7 bilhão no mesmo mês de 2024.

O pior resultado da série recente foi registrado em junho de 2025, quando o déficit atingiu R$ 2,6 bilhões. Em junho deste ano, houve uma redução para R$ 1,5 bilhão, mas o valor ainda permanece muito acima do registrado quatro anos antes.

Crise dos Correios

Para o especialista, a situação dos Correios é a mais preocupante entre as estatais analisadas. A empresa enfrenta uma combinação de dificuldades históricas de gestão, transformação do mercado postal e aumento da concorrência no setor de encomendas.

A expansão de ferramentas digitais, como aplicativos de mensagens, e-mails e documentos eletrônicos, reduziu a demanda por parte dos serviços postais tradicionais. Ao mesmo tempo, a empresa passou a disputar um mercado de encomendas cada vez mais competitivo, impulsionado pelo crescimento do comércio eletrônico.

Outro fator apontado é a redução do chamado subsídio cruzado. Tradicionalmente, operações mais lucrativas realizadas em grandes centros ajudavam a financiar a prestação de serviços em regiões mais remotas. Com o avanço da concorrência privada nos grandes mercados, essa fonte de financiamento perdeu força.

Os Correios também adotaram medidas de reestruturação, como programas de desligamento voluntário, venda de imóveis e reorganização administrativa. Na avaliação de Viana, porém, essas ações ainda não foram suficientes para reverter o quadro financeiro e a empresa continua precisando de investimentos em tecnologia e modernização.

Setor nuclear aparece na sequência

O segundo grupo com maior dificuldade financeira está relacionado ao setor nuclear, principalmente por causa da Eletronuclear e do impasse envolvendo a usina de Angra 3.

A paralisação das obras gera custos financeiros sem que a usina produza energia. Por outro lado, uma eventual interrupção definitiva do projeto também teria custos elevados relacionados ao descomissionamento da estrutura já construída.

Angra 1 e Angra 2 também enfrentam desafios financeiros, já que as receitas geradas pela operação não cobrem integralmente os custos, segundo a avaliação apresentada pelo especialista.

Debate deve continuar

Infraero, Casa da Moeda e empresas portuárias federais também aparecem entre as estatais com resultados negativos. No caso da Infraero, a concessão de aeroportos deixou a empresa responsável por ativos considerados menos rentáveis, reduzindo sua capacidade de geração de receitas.

Para Murilo Viana, mudanças estruturais no setor dificilmente ocorrerão ainda em 2026. O calendário eleitoral e temas como privatizações, concessões, redução de pessoal e reestruturação de empresas públicas tornam o debate especialmente sensível.

A preocupação, segundo o especialista, é que empresas classificadas atualmente como não dependentes deixem de conseguir se sustentar com suas próprias receitas. Nesse cenário, poderiam passar a depender diretamente de recursos do Orçamento da União, aumentando a pressão sobre as contas públicas.

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