Eleições 2018: presidenciáveis fogem quando o assunto é Educação

Eduardo é motorista de transporte por aplicativo na cidade de São Paulo. A renda é suficiente para sustentar a família, mas não dá para pagar a faculdade. O curso de Engenharia Mecatrônica é bancado pelo financiamento obtido via Fies. No último ano da graduação, ele está muito preocupado com o que o futuro reserva para […]

Escrito por: Meon Redação6 min de leitura
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Eleições 2018: presidenciáveis fogem quando o assunto é Educação - Revista QB

Eduardo é motorista de transporte por aplicativo na cidade de São Paulo. A renda é suficiente para sustentar a família, mas não dá para pagar a faculdade.

O curso de Engenharia Mecatrônica é bancado pelo financiamento obtido via Fies. No último ano da graduação, ele está muito preocupado com o que o futuro reserva para depois que concluir o ensino superior.

“Eu não consigo nem mesmo fazer estágio, pois as empresas exigem o domínio do inglês. Vou acabar pendurando o diploma na parede, continuar dirigindo carro e com uma dívida enorme com o Fies para pagar.”
O rapaz é parte de uma geração de alunos estimulados a fazer faculdade por meio de incentivos públicos e que, na esperança de mudar de vida, estão entre a cruz e a espada.

Sem espaço no mercado de trabalho por causa da economia ainda cambaleante ou porque a formação não é compatível com as exigências dos empregadores, estes jovens brasileiros podem se tornar uma massa de desempregados com diploma de nível superior e com o nome sujo.

“O que fazer com esses estudantes e como resolver o rombo gerado pelo Fies são problemas que o Brasil precisa resolver”, afirma o Doutor em Educação José Marcelino Rezende Pinto, da USP Ribe

A preocupação do professor tem viés econômico e social que fica evidente aos avaliar os dados referentes ao Fies.

De acordo com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão do Ministério da Educação e Cultura (MEC) responsável por gerir recursos destinados ao financiamento estudantil, há 453 mil estudantes inadimplentes no país que devem, em média, R$ 22 mil. A dívida total chega a R$ 10 bilhões.

“O financiamento estudantil não é novidade no Brasil. Começou durante a ditadura, mas ganhou fôlego nos últimos anos. O problema é que ele foi usado para transferir recursos para as universidades, mas quem paga a conta é o aluno”, completa Rezende Pinto.
O Fies e seus efeitos colaterais são temas ligados à Educação para os quais os candidatos à Presidência da República não têm projetos claramente definidos. Nem para eles e nem para os outros temas cruciais para a transformação do ensino no Brasil.

Segundo o professor da USP, os presidenciáveis têm fugido do debate ao adotar discursos que na prática são “superficiais”.

Estudioso da educação brasileira desde que concluiu o curso de licenciatura em Física, pela Universidade de São Paulo, em 1982, Rezende Pinto afirma que os principais presidenciáveis sabem quais são os desafios que têm pela frente na área de educação, conhecem a complexidade, mas não vão fundo porque pouco podem fazer nos quatro anos de um mandato.

De acordo com a lógica política, o que é feito num mandato tem que apresentar resultado no mesmo mandato, para se transformar em votos. São as chamadas Políticas de Governo. Projetos robustos de educação são Políticas de Estado, que levam muito tempo para mostrar seus resultados e atravessam diversos governos.

Conteúdo cedido pela Revista QB


Imagem: Reprodução / Café Filosófico CPFL
Eleições 2018: presidenciáveis fogem quando o assunto é Educação - Revista QB
Professor Rezende Pinto durante participação no projeto Café Filosófico, onde abordou o tema “Tensões: quanto custa uma educação de qualidade?”



Voto pela Educação

No início de 2018, a Revista QB iniciou o projeto Voto pela Educação e ouviu alguns dos, então, pré-candidatos à Presidência da República.

Todos que haviam demonstrado pretensão de concorrer ao cargo máximo da República foram convidados a conversar sobre educação numa entrevista gravada em vídeo, com cerca de dez minutos de duração e sem cortes.

Dos 17 pré-candidatos convidados, seis aceitaram o convite. Destes, somente quatro concorrem hoje ao Planalto. São eles: Álvaro Dias (Podemos), Guilherme Boulos (PSOL), João Amoêdo (Novo) e José Maria Eymael (Democracia Cristã).

Apesar de propostas distintas, todos falaram na importância da valorização do professor, que se traduz em salários mais atraentes.

Hoje um professor da Educação Básica ganha menos do que qualquer outro profissional com a mesma quantidade de anos de estudo, o que faz com que a carreira docente não seja desejada pelos melhores profissionais formados no país.

De acordo com o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), o salário-base de um professor da educação básica no estado mais rico do país é de cerca de R$ 2.500,00 por mês.
Por outro lado, um engenheiro deve receber R$ 8.100,00 como salário mínimo para uma jornada diária de 8 horas, segundo o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP).

Se conseguem apontar o problema, nenhum dos candidatos se arriscou a dizer como resolver. Os que chegaram mais perto disso citaram uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) que prevê elevar de 5% para 10% do PIB (Produto Interno Bruto) o percentual investido em Educação, porém sem dizer de onde sairão os valores destinados à Educação.

“A sociedade brasileira tem que decidir se quer pagar essa conta. Ao afirmar que quer uma educação de qualidade, o país tem que concentrar recursos na área e reduzir recursos em outras. Isso tem seu preço”, alerta Rezende Pinto.

“É importante lembrar que não é necessário dar um salto de 5% para 10% de uma vez. O crescimento deve ser gradual. Além disso, é necessário destinar mais dinheiro para as escolas onde estudam os mais pobres, porque os filhos das famílias de baixa renda, em geral, têm mais dificuldade em aprender porque o ambiente familiar não o estimula tanto a estudar, seja por falta de hábito de leitura na família, seja por falta de acesso à tecnologia. Com isso é mais caro ensinar meninos e meninas das classes mais pobres.”

O que esperar como proposta

O professor José Marcelino Rezende Pinto reuniu, a pedido da Revista QB, uma relação de propostas que, na opinião dele, deveriam constar, detalhadamente, na agenda do próximo presidente:

  • O compromisso de elevar o investimento em educação a até 10% do PIB;
  • Elevar os salários de professores;
  • Valorizar a carreira docente para atrair profissionais mais capacitados para as salas de aula;
  • Ampliar a rede de Institutos Federais em cidades pequenas e médias, para levar a formação superior pública de qualidade ao interior a um custo menor do que o de uma universidade;
  • Gerar mecanismos para articular a atuação dos Institutos Federais de Ensino às Universidades e seus projetos de pesquisa e extensão;
  • Fomentar as redes de universidades estaduais, complementares aos institutos e universidades federais;
  • Ampliar o alcance do Prouni (Programa Universidade Para Todos);
  • Manter o Fies (Financiamento Estudantil) para quem já tem o benefício;
  • Estimular as faculdades privadas a competir por alunos, oferecendo cursos de melhor qualidade a preços menores.
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