Enquanto Ainda Há Tempo
O perdão deveria ser um gesto mais simples

Por que familiares brigam, deixam de se falar e, consequentemente, deixam de celebrar a alegria de pertencer a uma mesma família, a harmonia que os une e o amor que um dia os concebeu?
Pais entristecem. Avós se angustiam. Relações deterioram-se, magoam, ferem e afastam aqueles que antes caminhavam lado a lado.
O perdão deveria ser um gesto mais simples. A compreensão de que tudo passa; de que nada é perfeito; de que todos estamos em permanente construção, aprendendo, errando, amadurecendo.
Palavras que ferem. Gestos mal compreendidos ou deixados sem esclarecimento. O tempo, que jamais retorna. Sentimentos aprisionados pelo orgulho, que silenciosamente adoecem a alma.
Os motivos, tantas vezes, revelam-se pequenos diante da grandeza do que foi perdido. Simples fragmentos da vida que ficaram esquecidos em algum instante do tempo e alteraram o curso de histórias, de encontros e desencontros, de afetos levados pelo vento.
Enquanto isso, o sopro da vida segue seu caminho, cada vez mais rápido em direção ao finito.
Em vez de cultivar remorsos, ressentimentos e dores interiores, poderíamos permitir que florescessem o arrependimento, a humildade e o perdão, pois somente eles têm a força de iniciar o caminho da cura.
Talvez o maior engano do ser humano seja acreditar que ainda haverá tempo. Tempo para pedir perdão. Tempo para abraçar. Tempo para dizer “eu estava errado”. Mas a vida não faz promessas. Ela apenas passa. E, quando percebemos, aqueles que amávamos já não estão mais à mesa, restando apenas a lembrança do que poderia ter sido e nunca foi.
Quase nunca sofremos pelo motivo que nos separou; sofremos pelo tempo que deixamos passar sem voltarmos a nos encontrar.

Psiquiatria
Wilfredo Finck Jr. é médico e apreciador da natureza. Na escrita e na pintura encontra formas de refletir sobre a vida, os sentimentos, a passagem do tempo e os caminhos que compõem a experiência humana.
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